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Applied Linguistics

Prepared by Karen L. Smith



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Aspectos lingüísticos dos empréstimos em português

Ronald M. Harmon

California State University, Fullerton



     Abstract: Toda língua adota e adapta vocábulos de outras línguas como parte íntegra de seu processo de desenvolvimento. O português moderno adota principalmente vocábulos do inglês e do francês e os sujeita aos seus próprios preceitos lingüísticos. Os empréstimos se conformam à fonologia portuguesa e às suas regras de derivação. Os empréstimos também se adotam com restrições semânticas e às vezes com sensíveis mudanças de significado. Neste artigo se estudam as principais modificações fonológicas, morfo-sintáticas e semânticas que sofrem os empréstimos -sobretudo os provenientes do inglês e do francês- ao serem adotados no português brasileiro.

     Key Words: empréstimos, português brasileiro, adaptação lingüística.



1. Introdução

     A adoção de empréstimos de outros idiomas numa língua moderna é um dos seus processos mais dinâmicos e inovadores e, portanto, é importante para sua evolução. Convém-nos estudar como os termos estrangeiros se adaptam às estruturas dessa língua ao incorporarem-se ao seu léxico para uma maior compreensão dos seus Processos lingüísticos vigentes.

     A mesma questão do que é e do que não é empréstimo numa língua moderna é problemática, pois tal língua é, lexicamente, quase por definição, um conjunto de empréstimos. O português moderno, por exemplo, além de ser fonológica, morfológica, e sintaticamente o resultado de uma das evoluções do latim vulgar, é no seu léxico a adoção e adaptação de uma série de empréstimos do latim, das línguas germânicas, do árabe e, mais recentemente, de outras línguas modernas, especialmente o inglês e o francês. Ao tratar, então, dos empréstimos no português moderno, cabenos estabelecer uma definição do que se entende com �empréstimo� e convém não ser dogmático nessa definição, que é um tanto esquiva. Para nossos propósitos aqui trataremos os termos vindos de outras línguas européias modernas, especialmente o inglês e o francês, durante mais ou menos os últimos cem anos. Também nos dirigiremos aos empréstimos vistos no português brasileiro com respeito aos aspectos mais salientes das suas adaptações fonológicas, morfo-sintáticas, e semânticas.

2. Aspectos fonológicos

     O fenômeno mais evidente de adaptação da pronúncia de empréstimos é uma bastante estrita adesão à fonologia do português, onde não se admitem fonemas estrangeiros nem contextos inéditos para os fonemas que existem na língua. (59) Adaptam-se os empréstimos à fonologia portuguesa através da aproximação fonêmica, onde se utiliza o fonema percebido como o mais semelhante àquele da língua de origem, ou, nos casos de influência ortográfica, o fonema que a (s) letra(s) da palavra escrita representa(m) em português.

2. 1 consoantes

     Entre as oclusivas e as fricativas se verificam vários tipos de adaptação. Por exemplo, se faz o d de drinque e o t de teipe linguodentais em de alveolares, como em inglês. Nos dialetos onde há palatalização de de t diante de [i] para formar os africa dos [] e [], como em dia e tia, respectivamente, esse fenômeno se realiza sempre [464] que possível nos empréstimos: bonde, slide [i-lái-i] (60), elite, time. Já que o português não possui fonemas africados (não obstante os alofones dialetais dos línguodentais), o // do inglês e do espanhol e o // do inglês se desafricam para simples fricativos palatais (// e //) quando adotados em português, como em checape, lanche, e Poncho (61) para o surdo e em, gilete, jazz, e jóquei para o sonoro. No caso de palavras vindas do francês não há praticamente adaptação nestes sons, já que os grafemas ch e j representam fonemas essencialmente iguais em francês e português, como se vê, por exemplo, em chique e engrenagem. O fonema /s/ e seu alofone [z] também se palatalizam nos empréstimos, como nas outras palavras, a final de sílaba nos dialetos onde ocorre tal palatalização: escore, basquetebol, gângster [gagi-ter], slide [i-lái-i], esnobe.

     As consoantes líquidas e nasais se comportam de acordo com a fonologia portuguesa em termos dos contextos em que se encontram. O r, por exemplo, que representa uma grande variedade de sons nas outras línguas e seus dialetos, sai nos empréstimos em português, como nas outras palavras, de acordo com o contexto fonético e o dialeto. Assim o r inicial de palavra ou final de sílaba se velariza para a maioria dos brasileiros: repórter, bar, garçom, recorde (récorde):e o r intervocálico ou depois de outra consoante na mesma sílaba fica como vibrante alveolar simples: escore, purê, drible, frete.

     Semelhantemente, o l representa nos empréstimos as mesmas variantes que nas outras palavras, alveolar e lateral quando a início de sílaba ou depois de outra consoante na mesma sílaba: líder, bolero, flerte, placar, e velarizado ou vocalizado a final de sílaba: gol, futebol, pênalti, filme. Quando a lateral é silábica em inglês, como em pickle e dribble, o português, em vez de inserir uma vogal diante do l (*píquel, *dríbe), faz com que o l forme um grupo consonântico com a consoante anterior e acresenta a vogal palatal [i], um tipo de epítese, ao final: picle [pí-kli], drible [drí-bli]. Isto talvez seja por influência ortográfica, pois não representa a pronúncia original tão bem quanto as possibilidades não adotadas.

     As nasais mantêm sua qualidade de consoantes e seus pontos de articulação quando a início de sílaba: madame, filme, nocaute, esnobe; mas perdem essa qualidade consonântica quando a final de sílaba, passando simplesmente a nasalar a vogal anterior, um dos fenômenos mais distintivos da fonologia portuguesa: boom [b], fã, impeachment [-pí-m], bonde, poncho.

     O h do inglês, quando não em dígrafo, representa um caso interessante para o português, que não tem fonema aspirado universal. Mas, como a maioria dos falantes tem no seu dialeto o r velar aspirado, semelhante ao h do inglês, não custa aproximarse à pronúncia desse som, como em hobby e know-how, palavras, aliás, que mantêm a ortografia do inglês. (62) No entanto, em uma palavra mais conhecida, hambúrguer, verificamos o desaparecimento da consoante h, embora a forma escrita mantenha o grafema. Já se discutiu o dígrafo ch, e os dígrafos sh e ph representam sons com fonemas paralelos em português. O th, que pode representar dois fonemas não existentes em português (// e //), aparece em poucos empréstimos. Em tugue (do hindustani, através do inglês thug) o h perde seu valor e o som que fica é o t simples, representado assim na ortografia. Na palavra thirller o Aurélio indica a pronúncia do th com um s (�srillâr, paroxítono� 1375). Como veremos melhor com as vogais não é raro haver diferenças de interpretação/representação de fonemas não existentes em português.

     Como o português não contém grupos consonânticos a final de sílaba, ao adotar empréstimos que os têm, sobretudo do inglês, simplifica tais grupos por via de redução, geralmente mantendo na pronúncia a primeira consoante e dispensando a segunda. Assim se perdem o [t] de best-seller [be-sé-lâr], de impeachment, (63) e de software, e se perde o [g] de marketing [már-ke-], de ranking [r-k], e de shopping,[ó-p]. Quando se deseja manter a segunda consoante de tais grupos, se acrescenta a vogal [i] (epítese), fazendo com que essa consoante represente o início de outra sílaba, como em boxe [bók-si] e faroeste. (64) [465]

2. 2 vogais

     Como no caso das consoantes, a disposição de vogais nos empréstimos também segue os preceitos fonológicos do português. Quando se adota um vocábulo estrangeiro se emprega o fonema vocálico português percebido como o mais próximo ao original, a não ser que haja influência ortográfica. O inglês é que apresenta casos mais interessantes por seu sistema de vogais ser mais distintivo do português do que o das outras línguas latinas.

     As vogais chamadas curtas, como [I], [U], [æ], e [], especialmente, carecem de paralelos em português. O [I] do inglês em posição tônica sistematicamente se pronuncia [i] em português, sua vogal mais próxima: clip [klí-pi], drible, misse, picle, tíquete, xerife. O único empréstimo que se encontrou com [U] no original usa [u] em português: futebol. O [ae] do inglês sai [a] em português (craque) ou [ã] quando nasalado (xampu, stand [i-t-i]). Já que [] está mais próximo à pronúncia do inglês americano desse som do que [a], isto será ou por influência ortográfica ou por uma maior aproximação à pronúncia britânica, o qual parece viável ao menos no caso de craque, pois os ingleses introduziram no Brasil muitos termos relacionados aos esportes em fins do século passado e princípios deste. O [], que não existe como fonema na fonologia portuguesa, (65) se representa com [a], como em checape, pick-up [pi-ká-pi], e lanche (aqui nasal). Esta vogal parece ser a melhor aproximação, e os exemplos plugue e tugue, com [u], serão por influência ortográfica.

     A influência ortográfica se suspeita também em outros casos de vogal. O som [a] do inglês americano representado com a letra o em muitas palavras (box, dollar, snob, jockey, revolver) vira [] quando elas são adotadas em português: boxe, dólar, esnobe, jóquei, revólver. No entanto, esta pronúncia está um pouco mais próxima à britânica em tais palavras, e é possível que esta seja uma influência maior do que a ortográfica, ou que a ortografia a reforce. Também o [e:] do inglês, que se reflete bem tanto na pronúncia como na ortografia no caso dos empréstimos beisebol e teipe, vira [ã] quando nasalado por uma consoante nasal que o segue: gangue, bang-bangue, ranking [rkl], tanque. Aqui o som vocálico difere bastante do original, talvez pela ortografia do a.

2. 3 ampliação vocálica

     O fenômeno da epítese, ou paragoge vocálica, é a principal técnica de ampliação vocálica nos empréstimos e, de fato, efetua a diferença de pronúncia mais destacada entre os empréstimos em português e em suas línguas originais, especialmente o inglês e o francês. A epítese é a adaptação necessária para o português poder contender com a presença de consoantes oclusivas e constritivas a final de palavras tão comum nessas outras duas línguas, fenômeno praticamente ausente na fonologia portuguesa. São inúmeros os empréstimos que terminam em consoante na língua original e que se pronunciam com a vogal [i] ao final na adaptação: chance, chique, creche, limusine, madame, bangue-bangue, bife, boicote, bonde, clip [klí-pi], clube, misse, para indicar só alguns. Essa vogal, então, permite a palatalização das linguodentais nos dialetos que a empregam, como em boicote e bonde acima.

     Este fenômeno tem afinidade com outro de ampliação vocálica, o suarabácti, ou a anaptixe, que existe pelo mesmo motivo de não permitir que uma sílaba termine em consoante oclusiva ou constritiva e que se vê principalmente em vocábulos latinizados como advogado [a-i-vo-gá-du], pneu [pinéu], e rítmo [rí-i-mu]. Nos empréstimos também se verifica: basquetebol, beisebol, futebol,, gângster, [g-gi-ter], omelete.

     A prótese é ainda outro tipo de ampliação vocálica, onde se acrescenta uma vogal [i] átona diante de s seguido de outra consoante a início de palavra. Isto faz com que o s seja o final de uma sílaba e a segunda consoante o início da seguinte, como se vê nos empréstimos escore, esnobe, slide [i-lái-i], esporte, stand [i-t-i], estoque e, para não esquecer o italiano, espaguete.

2. 4 acento tônico [466]

     Como última consideração prosódica, notamos que, embora muitos empréstimos do inglês de duas sílabas ou mais mantenham o acento tónico no lugar original, em muitos outros há mudança. (66) Fora as palavras compostas, mantém-se o acento tônico na sílaba originalmente acentuada nos casos de palavras que terminam em consoante líquida ou vogal: repórter, revólver, gâgster, pôster, marketing, shopping (67), soçaite, vídeo, xampu. Quando a palavra termina em consoante não líquida, e onde se acrescenta uma nova sílaba no empréstimo por via de epítese, quase sempre se acentua a penúltima sílaba, ou seja, a que era a última na palavra original. Quando a palavra original é monossilábica, sai paroxítona no empréstimo: bife, chute, gangue, misse, mas quando é polissilábica e paroxítona no original, o empréstimo, com uma nova sílaba, geralmente sofre mudança de sílaba tônica ao ser paroxítona: boícote, detetive, pick-up [pi-ká-pi], sanduíche, xerife, xerox [e-rók-si]. Exceção a isso é tíquete. Nas palavras compostas, o último elemento se acentua em vez do primeiro, como em inglês: futebol, voleibol, black-out [ble-káu-i], playboy [plei-bói], playground [plei-gr - i].

2. 5 ortografia

     Não há claras indicações a respeito do processo de adapação ortográfica dos empréstimos. No Brasil parece haver uma maior disposição para a adaptação do que em Portugal. De modo geral pode-se afirmar que os empréstimos que têm uma presença mais longa em português e de uso mais popular ou generalizado (especialmente os dos esportes) tendem a escrever-se adaptados à ortografia portuguesa: basquetebol, futebol, bife, líder, chute, jóquei, flerte, sanduíche, checape, teipe, xampu, boate, buquê, pane, trem, chique. As palavras adotadas mais recentemente ou de uso mais especializado, por outro lado, tendem a manter a ortografia original: marketing, ranking, shopping, know-how (mas cf. nocaute), gay, show, playground, pick-up (mas cf. checape), slide, slogan, software, attaché, griffe. A ortografia de outras, como stand/estande, stress/estresse e kitchenette/quitinete, (68) parece ainda não se ter fixado. Além das instâncias de influência ortográfica já notadas, acrescentamos os casos de xerox (o primeiro x [] em vez de [z] e, do espanhol, gusano e mariposa (os s [z] em vez de [s]).

3. 0 Aspectos morfo-sintáticos

3. 1 função sintática

     A grandíssima maioria dos empréstimos em português são substantivos, com outros tantos verbos, geralmente derivados dos substantivos, muito poucos adjetivos e nenhum advérbio. (69) Os substantivos quase todos são do gênero original se vêm de línguas latinas e são masculinos se vêm de outras línguas, a não ser que denotem pessoas femininas. Isto está de acordo com o que Renato Mendonça notou nos anos trinta a respeito dos empréstimos de línguas africanas (123) e também de acordo com a lista de termos vindos do Tupi-Guarani apresentados por Plínio Ayrosa, também nos anos trinta. (70) As únicas exceções do francês são as palavras onde o morfema -age, que marca gênero masculino, sai em português, que marca gênero feminino. Do inglês há exceções semelhantes onde a palavra se percebe feminina pelo morfema português que leva: boicotagem, checagem, chuteira, dolarização. São femininas, também, gilete, (71) lanchonete, kitchenette, e performance, as primeiras três, obviamente, pela associação com palavras que terminam em -ette, femininas em francês, e performance, tal vez por associação com o morfema feminino -ança/-ância. Além destas, só se encontraram femininas, gangue, e femeninas, pick-up, (72) sem explicação aparente.

     Os verbos todos são da primeira conjugação, fenômeno também notado por Mendonça nos verbos vindos de línguas africanas (121). É mais, com as exceções de dolarizar, elitizar, parquear, elitizar, parquerar, chefiar, todos tõm a forma substantivo (sem epítese) mais -ar, blefar, checar chutar; driblar, esnobar, estressar, flertar, liderar, Plugar, chocar, fretar, treinar. Nenhum dos verbos apresenta formas conjugadas irregulares. [467]

     Fora os substantivos e verbos, só se encontram os adjetivos bigue, esnobe, gay (estes últimos dois também podem ser substantivos) chique, gagá e, do japonês, camicase (73). Interessantemente, bigue se comporta, sintaticamente, como em inglês, colocando-se diante do substantivo (�foi um bigue concerto�), talvez em imitação de grande no sentido de grandioso.

     Há pouca mudança, mas bastante restrição, de função sintática nos empréstimos, em comparação com o comportamento dos vocábulos nas suas línguas originais. Nas mudanças vemos três casos de adjetivos em inglês que viram substantivos em português por via de redução de frase: shopping center o shopping,, smoking jacket o smoking, e outdoor, sign/billboard o outdoor. Outro é onde um verbo (shoot), vira substantivo, (o chute) (no contexto do futebol), e ainda outro, onde um substantivo (snob) se usa, além de como substantivo, como adjetivo: �É um sujeito muito esnobe�. Quase todas as restrições de função são onde palavras que podem servir tanto como substantivos quanto como verbos em inglês só funcionam como substantivos em português, e são numerosas: bip, boom, boxe, camping (parte de uma frase verbal em inglês com be), clip, craque, escore, jóquei, maketing (como o caso de camping), piele, ranking, (como o caso de camping), show, slide, stand, teipe, xerox. Outras três que trêm forma verbal em português poderiam ter-se originado como empréstimo ou como substantivo que deu uma forma derivada de verbo, ou vice versa: blefe/blefar, drible/driblar e plugue/plugar. (74)

3. 2 a derivação

     Como no caso da fonologia, as derivações de empréstimos seguem de perto os processos vigentes na língua portuguesa. Como vimos com alguns substantivos que eram femininos só pelo morfema português ao final (passagem, chuteira, dolarização), e como vimos com os verbos com o morfema do infinitivo verbal da primeira conjugação, -ar o processo de criar derivados com empréstimos é ativo em português e fiel ao seu regime gerador. Além dos vários exemplos de mudança de -age, masculino em francês, para -agem, feminina em português (chantagem, embreagem, engrenagem, mensagem, paisagem, passagem) (75) vemos esse morfema, acrescentado a vocábulos sem forma paralela na língua de origem: boicotagem, checagem. Das formas com -agem pode-se utilizar o morfema -eiro para derivar mensageiro e passageiro ou usar -ista para derivar paisagista. Também com -ista há formas possivelmente paralelas às originais, cartunista e lobista (esta com redução vocálica), e formas não paralelas, estoquista e jazzista. Acrescenta-se -ete a garçom para o pseudo-francês garçonete, -ia a chefe para chefia (e daí, talvez chefiar), -eira a chute para chuteira, -eiro a frete para freteiro, -ismo a esnobe e a vedete para esnobismo e vedetismo, -eira para bilhete para bilheteria, -aço a time para timaço, -oso a charme para charmoso, -ético a AID (S) para aidético, etc. Dos verbos, eles mesmos já derivados, derivamos treinador e treinamento, parqueamento, liderança (liderar já está derivado de um derivado em derivado em inglês, leader), boxeador, e dolarização. Na linguagem popular até se formam derivados coloridos como chiquérrimo.

     O morfema -ão é de uma presença tão forte que é capaz de afetar o morfema -on do francês. Como o português não contém palavras polissilábicas terminadas em o nasal tônico, muda vagon (76), para vagão e permite a forma cupão o junto com cupom, embora não tenha mudado batom nem crayon.

     Então, a derivação, fenômeno dinâmico e essencial na evolução de toda língua, continua vigorosa em português, também com os empréstimos. Estes, ao incorporarem-se à língua, ficam tão disponíveis e sujeitos ao processo renovador da derivação quanto qualquer palavra.

4. 0 Aspectos semânticos

     Adota-se um vocábulo de outro idioma numa língua moderna porque se percebe que preenche um requerimento para denotar algo para o qual essa língua não tem vocábulo -ou tem vocábulos inadequados. [468] Geralmente denota uma coisa ou um fenômeno novo para a cultura ou a sociedade que essa língua representa. É normalmente um termo especializado de qualquer ramo: esportes (futebol, nocaute); comércio (boicote, marketing); comidas (sanduíche, espaguete); áreas técnicas (byte, vídeo-teipe); sociedade (soçaite, black-tie).

     Embora a maioria dos empréstimos denote a mesma coisa que na língua de origem, geralmente há uma restrição semântica para o empréstimo, ou seja, não significa tudo que o termo significa na primeira língua, mas só uma das acepções dele. Às vezes, todavia, chega a haver uma considerável mudança semântica ao adotar-se o empréstimo em português.

     Os termos esportivos adotados como empréstimos, por exemplo, todos se limitam aos contextos dos esportes, ou, em alguns casos, a pequenas aplicações análogas às dos esportes evoluídas no português. No entanto, são termos que têm outra ou várias aplicações fora do âmbito esportivo em inglês, como vemos com boxe, chute, craque, gol, pênalti, round, time e driblar. Craque conseguiu expandir-se para indicar experto em qualquer ramo e driblar chegou a significar evadir ou enganar alguém em geral, mas a maioria destes termos ficam limitados mesmo aos esportes.

     Outros exemplos de restrição semântica são: bói, que denota só um jovem que trabalha numa repartição (redução de office-boy);lobby, que denota só um grupo de influência política; soçaite, que denota só a sociedade da elite, teipe, que denota só uma fita magnética, boite, que denota só um clube noturno, garçom, que denota só um servidor de restaurante, não necessariamente jovem (e também não o que bói denota); trem que denota só comboio. Exemplos de mudança semântica incluem: faroeste, que denota um filme sobre o velho oeste americano; lanche, que denota um bocado comido entre refeições; misse, que denota uma moça que ganha um concurso de beleza; treinar, que denota o preparar ou preparar-se para uma atividade especial; trotoar, que denota a prostituição; bife, que denota um corte de carne de rês. Estas mudanças ainda têm uma relação lógica com o termo de origem, mas já com uma característica semântica única para o português.

5. 0 Conclusão

     A grande presença de empréstimos em português, especialmente do inglês e francês, é talvez enganadora, pois pode parecer que o português fica muito influenciado por essas línguas. Mas a influência realmente não vai além da léxica, e até aí com restrições e mudanças. No resto, o português apodera-se do empréstimo, adaptando-o ao seu regime lingüístico e vetando-lhe qualquer identidade fonológica, morfológica, ou sintática original. Não se lhe permite manter nenhum fonema ou contexto fonológico extranho ao português ou a um de seus dialetos. Não se permite que o empréstimo empregue um morfema original para seu papel sintático, e se lhe acrescentam morfemas do português de acordo com os requisitos derivacionais do idioma. O empréstimo fica sujeito à ordem de palavras e outros comportamentos sintáticos do português. É dizer, apesar da sua origem e seu vínculo semântico com essa origem, o empréstimo já é uma parte íntegra da língua portuguesa e toma vida dentro das estruturas linguísticas do português, adaptando-se, crescendo, mudando e criando novos vocábulos, como é de esperar-se dada a natureza evoluidora duma língua moderna. [469]

     OBRAS CITADAS

     Ayrosa, Plínio. Têrmos tupís no português do Brasil. São Paulo: Empresa Gráfica da �Revista dos Trubunais�, 1937.

     Holanda Ferreira, Aurélio Buarque de. Novo diccionário da língua portuguesa. l� ed. Rio de Janeiro:

     Nova Fronteira, 1975.

     Mendonça, Renato. A influência africana no português do Brasil. 2� ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1935.

     Nascentes, Antenor. Diccionário etimológico resumido. Rio de janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1966.

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