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50th Anniversary of Portuguese in the AATSP

Prepared by Joanna Courteau



Nova Epístola aos Coríntios

Wilson Martins

New York University, Professor Emérito

Honorary Fellow, AATSP



     Quando cheguei aos Estados Unidos em 1962, a grande moda nas universidades era o estudo da língua chinesa, refletindo conjunturas internacionais que, de fato, determinam o interesse de cada país pela cultura dos outros. Na Universidade de Kansas, em Lawrence, para onde fui em primeiro lugar, os estudos de Português estavam apenas começando, graças ao generoso empenho de Seymour Menton, para quem Latin America era e continua sendo expressão geográfica que inclui também o Brasil (ao contrário do que imaginam, ainda hoje, muitos especialistas de área...).

     As centenas de jovens americanos que, pelo país todo, cansavam de tanto estudar chinês, correspondiam os três ou quatro que se inscreviam por semestre nas aulas de cultura luso-brasileira. Na Universidade de Wisconsin-Madison, para onde fui em seguida, as tradições do Português eram mais antigas e ilustres, a começar pela excelente biblioteca em que muito trabalhei. Foi alí que iniciei as pesquisas sistemáticas para o que viria a ser (16 anos depois...) a História da inteligência brasileira (que não é uma história da espionagem, como sugeririam os falsos cognatos), Tudo isso, bem entendido, sem interromper a crítica literária regular em jornais brasileiros, como O Estado de S. Paulo e o Jornal do Brasil. Ela está aparecendo em edição uniforme na série dos Pontos de vista, projetada em 14 volumes, dos quais 7 já foram publicados.

     Nos 30 anos que passei leccionado nos Estados Unidos, os cursos de Português multiplicaram-se pelo país todo e desenvolveram-se onde já existiam. A tal ponto que aquele atemorizado professor de 1962, iniciando-se em sistemas e práticas pedagógicas muito diferentes das que conhecia, passou a ver que muitos dos seus estudantes tornaram-se, por sua vez, professores universitários da matéria. Não posso, realmente, dizer que venci sozinho as hostes inescrutáveis de Mao Zedong, mesmo porque muitos outros colegas já haviam estabelecido e consolidado tais estudos (basta lembrar Raymond Sayers, Fred Ellison, Claude Hulet, Óscar Fernández, Alberto Machado da Rosa, Maria Isabel Abreu e Frederick Garcia, para citar apenas alguns nomes prestigiosos). Mas, sempre é certo que, nessas três décadas, tive a satisfação de testemunhar o desenvolvimento de tais estudos em proporção geométrica.

     Hispania tinha sido fundada em 1917, assim provando a vitalidade dos estudos hispânicos nos Estados Unidos e conferindo reconhecimento aos eruditos, americanos e estrangeiros, que antes se haviam destacado, a título individual, nessas actividades. Mas, em 1917, como escreví eu no número comemorativo de Hispania (vol. L, n� 4, dezembro 1967), apenas uma parte mínima fora reservada à matéria luso-brasileira. O que foi sendo gradativamente corrigido no meio século seguinte. É preciso reconhecer, entretanto, que, apesar de Machado de Assis (recentemente descoberto por intelectuais americanos) ou Guimarães Rosa (pioneiro da renovação narrativa na América Latina) -é preciso reconhecer que a literatura brasileira ainda não conquistou nas universidades nem aos olhos do público o prestígio da hispano-americana.

     Já então, entretanto, o Brasil estava entrando na modernidade, ao incubar, por volta de 1916, o movimento ideológico profundo que recebeu, precisamente, o nome de Modernismo. Começava então a cavalgada frenética (cada vez mais frenética...) das vanguardas. O Modernismo foi a semente de todas elas nos anos 20; o �romance do Nordeste� foi a vanguarda dos anos 30; a �poesia engajada� foi a vanguarda dos anos 40; a �nova crítica� foi a vanguarda dos anos 50; o Concretismo foi a vanguarda dos anos 60 (loc. cit.). Cada uma delas durava os seus dez anos regulamentares, acavalando-se na imediatamente anterior e na seguinte. No momento em que escrevo, percebe-se alguma coisa como a desilusão das vanguardas, tanto que a história literária voltou com força total, particularmente no [561] campo das biografias.

     A cronologia das sucessivas vanguardas revela um aspecto singular, talvez específico, da literatura brasileira: é que, em cada década, era um determinado gênero que a caracterizava: a poesia, nos anos 20; a ficção em seguida, logo depois a crítica e, de novo, a poesia (se é que se pode chamar o Concretismo de poesia). Com o fim deste último na primeira metade dos anos 60 (atestado de óbito passado oficialmente por Haroldo de Campos), seguiu-se a exumação literária de Oswald de Andrade, altamente fantasiosa e que foi a �vanguarda� dos anos 70 e 80, com a qual os concretistas buscavam ansiosamente sobreviver. Essa também passou. Estamos à espera da próxima.

     O processo é, ao mesmo tempo, estimulante e deprimente. Sabe-se, por um lado, que as vanguardas mantêm viva e vigorosa a criação literária e artística, mas sabe-se, também, que são transitórias e fugazes (tornadas ainda mais fugazes e transitórias pela aceleração da história). Não há nada mais melancólico do que a história dos ismos com o entusiasmo automático e algo ingênuo que cada um deles desperta, desqualificando implicitamente os anteriores. A maior indignidade dos ismos é tornarem-se obsoletos. Se, em outros tempos, os professores de literatura só programavam nos seus cursos a tradição aceita e os autores por ela consagrados, hoje, ao contrário, a cátedra é a sede privilegiada da última vanguarda. Os escritores mais recentes são objeto de teses doutorais, muitas vezes tão efêmeras quanto eles próprios. Na verdade, como se diz, o cânone curricular é anátema, à espera de que outros cânones se constituam, e assim por diante. Ainda há pouco, o requisito eliminatório para qualquer candidato a um posto universitário era a identificação com alguma absconsa teoria literária -logo em seguida transmitida aos estudantes numa terminologia impenetrável.

     Vi tudo isso -�meninos, eu vi�, como no verso famoso de Gonçalves Dias. Mas, vi também que a gata borralheira da universidade americana, quero dizer, os estudos de Português, foi superando aos poucos os preconceitos que a mantinham acocorada na última sala sem janelas.

Saudação de Rachel de Queiroz, �Prêmio Luís de Camões� 1993

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Rachel de Queiroz



     Prezados Colegas:

     Quero apresentar-lhes os meus calorosos cumprimentos pelo aniversário de cinqüenta anos da inclusão de estudo da língua e literatura portuguesa na Associação Americana de Professores de Espanhol e Português, da qual tenho a honra de ser �Honorary Fellow�.

     Nós, escritores da língua portuguesa, sempre nos sentimos isolados dentro da literatura universal. E o estudo do que escrevemos, reconhecido numa organização de tal valia, nos anima a continuar e nos estimula as esperanças de um intercâmbio maior entre a literatura de língua portuguesa e os leitores, não só dos Estados Unidos, mas do mundo.

Cordialmente        

Rachel de Queiroz

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