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BRAZILIAN EMBASSY

WASHINGTON, D.C.

THE AMBASSADOR

     On the occasion of the 50th anniversary of the incorporation of Portuguese into the �American Association of Teachers of Spanish and Portuguese�, and as the representative of the largest Portuguese speaking country in the world, I would like to convey my deepest appreciation to all the members of your Association for their efforts in teaching our language in the United States.

     This is particularly important at this time when, I believe, Brazil and the United States are in the process of expanding their relationship through an increasing diversification of their bilateral interaction. This diversification builds on the already dense web of ties and shared interests in most areas of international relations.

     I think, however, that in order to be propitious, these ties must also reflect the ongoing changes in our societies, whose evidence is more often than not subtle, and yet of deep consequence. I am sure that all those involved in the process of teaching a foreign language and, through it, another culture, are aware of the fascinating, although sometimes �esoteric� exercise of transcending linguistic barriers in order to communicate these changes in meaningful words, expressions, sentences and phrases.

     In fact, I firmly believe that communication, in its broadest sense, is the healing medicine for prejudices and misunderstandings. And, of course, communication underlies the Association's objectives. This is one more reason to salute you and thank you for your success in transmitting through my country's language much of the essence of Brazil. I wish you all the best in the future!

Very cordially,



Paulo Tarso Flecha de Lima

Ambassador of Brazil



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EMBAIXADA DE PORTUGAL

 

WASHINGTON



Aos Membros da American Association of Teachers of Spanish and Portuguese

     É com o maior prazer que saúdo a American Association of Teachers of Spanish and Portuguese que nesta data comemora os 50 anos da adesão dos professores de português. E noto com regojizo que já no segundo encontro anual da associação, em 1918, uma prestigiada lusitanista, a filóloga portuguesa Carolina Michaelis de Vasconcellos, fora eleita com outros eminentes hispanicistas, membro honorário da associação.

     Sendo a história dos portugueses uma história de movimento e interacção com outros povos e por natureza também uma história de contactos e aculturação, têm os estudos portugueses forçosamente que estar ligados a outras culturas e outros continentes. O Instituto Camões que assumiu recentemente responsabilidades governamentais para a divulgação da Língua e Cultura portuguesas no mundo tem também o gosto de se juntar às comemorações que agora se realizam.

     Este número especial de Hispania, �a jóia da coroa� do trabalho da AATSP, dedicada ao mundo luso-brasileiro, é a manifestação viva do trabalho que se realiza e a esperança do futuro.

     Como Embaixador de Portugal nos Estados Unidos da América, será com o maior empenho que darei apoio às realizações da American Association of Teachers of Spanish and Portuguese, felicitando nesta efeméride os seus membros pelo trabalho desenvolvido em prol da difusão dos estudos dos países de língua portuguesa.



Francisco Knopfli

Embaixador de Portugal

Washington, D. C. 4 de Maio de 1994

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Articles on language and literature

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Camões Revisitado: O Hipotexto Mitopoético de Manuel Alegre

Pedro Fonseca

University of Missouri-Columbia

     Abstract Este é um estudo comparativo da influência formal e conteudística de Camões épico e lírico na poética de Manuel Alegre, destacado poeta da novíssima literatura portuguesa. Utilizando teorias fundamentadas no polifonismo dialógico, na intertextualidade, no neo-historicismo e na mitopoética, verifica este ensaio que a atual poesia portuguesa, referida em Manuel Alegre, identifica-se por uma mimesis artística da forma e do conteúdo clássico representados por Camões. Este expediente consiste na reinterpretação estética e temática de valores culturais do passado histórico português em sua correspondência significativa para a atual sociedade nacional caracterizada por transformações decorrentes da sua inserção na política comunitária européia. A reapropriação camoniana feita por Alegre expõe a problemática mental, emocional, artística e ideológica que a contemporânea poesia portuguesa apresenta no seu impasse dialético caracterizado pelo confronto entre a garantia de preservação da sua ontologia artística tradicional e a necessidade de sua modernização requerida por novos conceitos epistemológicos reavaliadores da relação entre arte, sociedade e história.

     Key Words: século vinte, Alegre (Manuel), literatura portuguesa, escritura intertextual, Camões (Luís Vaz de), poesia portuguesa contemporânea.

                               [P]átria, memória para sempre passada,      
memória quasi perdida.
Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro

     A teoria literária contemporânea registra uma especial atenção ao problema da gestação textual, destacando uma linha de análise que reconhece o ato da escrita como hipostasiado à leitura selecionada de fontes escritas, cuja existência prévia atualiza-se, metatextualmente, como intenção e/ou sugestão da produtividade criativa. Julia Kristeva, sistematizando os princípios desta teoria em �Revolution in Poetic Language�, observa a sua importância ideológica e sócio-cultural confirmada na própria natureza do texto literário (111) (1). Na verdade, o formalista russo Mikhail Bakhtin, em �Discourse in the Novel�, já havia chegado a conclusões semelhantes ao observar a interinfluência comunicativa ou a polifonia lingüístico-nocional presente na linguagem literária, isto é, o seu caráter essencialmente dialógico (84-106). Inerente às teorias de Kristeva e de Bakhtin está a idéia da produção literária como intenção significativa, na medida em que o autor, de acordo com a sua personalidade artística, escolhe intertextualmente.

     Entretanto, parece que a intertextualidade -e por mais esclarecedora que seja esta noção- corre o risco de falsificar-se pela redução da literatura à sincronia, desconsiderando a temporalidade própria e particular de cada texto, a sua natural busca de paternidade, a presença do autor. Contrário a esta redução, o autor deve ser considerado não apenas um ser determinado pela linguagem, uma entidade discursiva, mas sobretudo deve ser investido de um mínimo de realidade empírica e de autonomia individual, a fim de que possa realizar-se como porta-voz do seu tempo, da história da sua época e das condições contextuais da sua escrita. (2)

     Tendo por base as noções anteriores, a proposta deste estudo será o exame da intertextualização da poesia de Camões feita por Alegre, num processo não simplesmente formal mas sobretudo dialógico, através do qual se verificará como o poeta contemporâneo se utiliza do poeta clássico como substrato ideal -i. e., como hipotexto- para apresentar não só temas estéticos [376] integrantes do �próprio poético� (3) deste último mas também uma refuncionalização metafórica das suas idéias e sentimentos originais. (4) Neste sentido, Alegre -para além da simples notação intertextual- realiza uma poética de verdadeira reespacialização temporal, na medida em que o tempo renascentista proto-barroco de Camões fornece-lhe motivos e imagens para a inspiração e o tratamento de temas da realidade contemporânea em que se situa. Esta refuncionalização do tempo poético, situado em diferentes espaços histórico-culturais, indica estarem, no hipotexto camoniano refundido na poesia de Alegre, elementos de uma problemática análoga a ambos os poetas, na medida em que tais elementos retratam. uma similaridade de situações e de circunstâncias por eles elegidas como referenciais das suas respectivas criações poéticas. Evidentemente, toda esta emancipação semântica refere-se a uma intertextualidade ao nível temático e ideológico. Entretanto, e para evidenciar ainda a epistemologia de tal processo intertextual, Alegre dele se utiliza, metalingüisticamente, como elemento de composição estética. Deste modo, no poema �Criptografia�, de Com que Pena, evocando uma atmosfera ocultista -os abscônditos segredos da magia alquímica-, Alegre auto-ritualiza-se ao expor o processo pelo qual a composição da sua escrita recebe forma própria através dos signos enigmáticos da criptografia fáustica que constituem a inspiradora demiurgia camoniana. Aqui, a intertextualidade, apesar de citada literalmente, torna-se motivo de uma logogrifada (hermética) consubstanciação verbal, onde a escritura equivale ao próprio ato de escrever:

                              Da rosácea de enxofre nasce o pacto                               
da magia da fórmula do rito
vai-se a ver e Camões é o próprio acto
de passar a poema o nunca dito.
 
Tem cornos que não vêm no retrato
tem pés-de-cabra e o fogo do maldito
e quanto mais disperso mais intacto
vai-se a ver ele dita e eu passo a escrito.
 
Intertexto intervida intersemântica
alquimia alquimia escrita quântica
vai-se a ver e Camões é a voz que dita.
 
E já não sei se escrevo ou se sou escrito
é a magia o fogo o signo
cripto-
grafia de uma escrita em outra escrita. (49)

     Assim é que -e para se adiantar na consideração de uma das mais recorrentes obsessões poético-filosóficas de Camões- o chamado �desconcerto do mundo� é reapropriado pela leitura-escrita (5) de Alegre que, através de analogias metafóricas, identifica os desacordos do seu tempo em relação aos do tempo camoniano, aproximando assim dois momentos extremamente importantes para a história social e literária portuguesa: a época da Renascença camoniana protobarroca do século XVI e o período do pósmodernismo (após Revolução de 1974) de Alegre. (6)

     A hipotextualização de Camões na poesia de Alegre apresenta questões que devem ser consideradas interdependentemente referentes ao domínio da teoria e da história literária. No caso teórico, trata-se da eleição da modalidade poética através da qual Alegre expressará a sua disposição de espírito e os seus valores éticos diante da natureza e da realidade que lhe motivam a inspiração e a sensibilidade poética. Está-se aqui no domínio da inventio, retoricamente associada aos expedientes da imitatio e da compositio, ou seja, da recriação temática do assunto (diegesis) que o poeta procurará representar, dando-lhe propriedade de composição formal. (7) Já no âmbito da história literária -intimamente ligado ao teórico, visto que a teoria poética de Alegre exercitase sobre o fato camoniano integrante da história literária portuguesa, a questão que se coloca consiste numa adequação eminentemente de natureza estética, uma vez que se refere ao gênero poético escolhido pelo poeta que tomará como referentes, conjuntamente, a produção lírica e épica de Camões.

     Portanto, a partir das matrizes da imitatio, presentes nestas duas modalidades poéticas camonianas, Alegre vai sensibilizar-se e propor a sua própria modalidade literária, a qual caracteriza-se como especialmente [377] lírica, utilizando-se das funções emotiva, conativa, metalingüística, numa linguagem de densa conotação metatextual. Assim é que -a exemplo do que mais tarde se comentará neste estudo acerca da refundição lírica que Fernando Pessoa faz na Mensagem (1934) da história épica de Portugal- os poemas de Com que Pena de Alegre, por mediação do mundo referencial da poesia de Camões, representam a visão poética da sua própria realidade. Esta realidade, por ser baseada numa projeção utópica da busca de um passado glorioso e contraditório -virtualmente requerido para justificar um presente insatisfeito-, carregase naturalmente de imagens e de impressões que descomprometem a referencialidade lógica e representacional da poesia de Alegre, não obstando, apesar disto, o fato do desejo lírico do poeta de representar a realidade qualitativamente, isto é, para além da necessidade da sua quantificação narrativa. O próprio Camões épico disto já se havia dado conta ao entremear Os Lusíadas com os mais expressivos momentos líricos porventura registrados na literatura portuguesa, como por exemplo, os episódios afectivo-emocionais do gigante Adamastor, de Inês de Castro e da Ilha dos Amores.

     Desta maneira, a revivescência de Camões, hipotextualizada na poesia de Alegre, continuará a representar-se como valor clássico principalmente através da sua estética renascentista constituída pela epopéia lusíada e pelos sonetos líricos de natureza neo-platônica. Tornou-se, assim, tradicionalmente, o poeta português de Quinhentos numa das mais sólidas imagens panteonizadas e no protótipo emblemático da cultura histórica, do caráter antropológico e do temperamento nacional da raça lusitana. Isto porque, semelhantemente a outros valores literários europeus -mas com uma insuperável singularidade-, parece que a cultura portuguesa indentifica-se basicamente por seu caráter tradicionalista e conservador, (8) elegendo a sua história momentos excepcionais, verdadeiras irrupções privilegiadas que, superando a cronologia, interligam-se sobretudo pela sua característica de permanência intemporal. Bastantes notórios são os exigentes e elitistas quadros de adjudicação valorativa dessa tradição cultural. O próprio Fernando Pessoa -um dos mais recentes valores realmente canonizados, e mesmo assim a sua consagração foi um demorado fato póstumo-, apesar de consciente da excepcionalidade do seu momento e da sua geração e certo da sua missão na restauração cultural e espiritual da nação, parece, por vezes, ressentir-se da autocracia do peso camoniano. Nos seus ensaios, reconsiderando a situação intelectual da nação, reconhece um crítico momento cultural a requerer a instauração de uma nova renascença portuguesa. Chega mesmo o poeta a propor -ressoando o usual tom característico da sua poesia metafísica que em Mensagem adquire os valores de um notável lirismo histórico, messiânico e utópico- o momento requerido para o advento da figura inspiradora de um �super-Camões�. (9)

     Segundo Melo e Castro, Pessoa posiciona-se, de maneira semelhante a Camões, como oráculo finessecular: o poeta órfico e nacionalista, reflexivo sobre as inevitáveis transformações trazidas pelo alvorecer do nosso século, contrapõe-se à figura consagrada do poeta renascentista, tradicional e desencantado (apesar de entrever o advento de um mundo novo), frente aos paradoxais resultados que profetizara para a expansão nacional portuguesa acontecida na aurora Quinhentista. Melo e Castro sincroniza esta problemática de Pessoa-Camões em relaçaõ à situação da nova poesia portuguesa, situando o poeta de Orpheu

           perante uma pátria ameaçada, e a noção de fim de uma época, característica de Camões. O começo; o de um mundo universal novo com o Camões renascentista, e as previsões do quinto império `[contraposto aos quatro impérios passados da civilização ocidental]; o uso, como recurso estrutural de Os Lusíadas, da mitologia grega e de uma concepção do universo já ultrapassada (a geocêntrica) e o uso, como recurso textual do mito de D. Sebastião. É com todo o peso desta mitologia que a jovem poesia portuguesa [proposta por Pessoa e por seus sucessores] tem que se medir e é dentro da perspectiva da escrita do poético, como ação ideológica -que é aquilo que a épica desemboca- que os problemas mais graves surgem. (44-45)           

   Para além do problema da acomodação [378] ou da superação histórico-literária deste �peso� camoniano, avultado pela presença reavaliadora de Pessoa, (10) a ser ultrapassada pelos seus herdeiros -e a lista temerária destes já registra certos �heróis�, (11) como é o caso de Alegre-, deve-se levar em consideração que tal sintoma possui raízes e implicações mais profundas. Por um lado, trata-se da formação no desenvolvimento da cultura portuguesa -e o fato é genérico a toda cultura histórica- dos chamados mitos nacionais, com o que de universal este conceito sugere para enfocar a natural tendência mitologizante das comunidades sociais. Por outro lado, trata-se do papel da literatura, especialmente a de natureza poética, em utilizar-se dos seus recursos estéticos para aureolar esta função mítica com uma especial expressividade figurativa, eficaz maneira de representar e satisfazer a psicologia emossêmica subjacente à própria formação do pensamento mítico.

     Manuel Alegre, em Com que Pena, enfoca estes dois fatores sintomáticos referindo-os à perpetuação do mito camoniano. Reinterpretando a figura do poeta e da sua obra, utilizando-os como hipotexto poético, Alegre subintitula o seu livro com a apologética dedicatória �Vinte Poemas para Camões�. O primeiro poema da coletânea lembra Os Lusíadas, invocando e equivalendo Camões ao próprio herói desta epopéia (Vasco da Gama), recordando, assim, o componente estrutural da épica clássica, a Invocatio. Através deste processo metonímico, Alegre assume-se, por transposição, como um novo bardo de feitio camoniano, responsável pela continuação do tradicional legado poético e histórico português: �Teu canto e tu [Camões] são a nossa singradura�. (12) Entretanto, para além desta intertextualidade de funções declaradas por Alegre ao nível da argumentação temática -uma das formas de estabelecer a sua autoridade e a sua responsabilidade autoral, recorrendo, para tanto, ao cânone tradicional-, há que se observar como a poesia de Alegre estabelece a sua própria credibilidade estética através da motivação mítica. E isto se verifica não apenas pela presença do conteúdo mitificante de Camões mas também por meio do seu tratamento lingüístico. E aqui, algumas incursões teóricas no terreno da mitopoetização tornam-se necessárias.

     Para se fundamentar o exame da centralidade mitopoética, recorrentemente camoniana em Com que Pena, os estudos lingüísticos de Paul Friedrich parecem ser de especial pertinência. Referindo-se, em The Language Parallax, ao modelo jakobsoniano, selecciona Friedrich dois elementos básicos potencialmente presentes na linguagem em geral, mas mais especialmente na poética, a saber: a sua musicalidade natural e a sua recorrência constante à imagística mítica (17-40). Entretanto, as considerações de Friedrich sobre a relação entre linguagem poética e imagem mítica descuidam-se em estabelecer a maneira pela qual esta união pode tornar-se efetivamente possível. Manfred Frank, em �Die Dichtung als Neue Mythologie�, explica que a linguagem propícia à realidade mítica é aquela que se despreocupa da objetividade referencial própria do pensamento lógico. Seria, portanto, a palavra pré-lógica, livremente criada e imaginada sem o controle do racional (15-17). Na literatura, este seria o domínio do poético, concluindo-se, deste modo, acerca da íntima relação natural e funcional entre poesia e mito. Hans Blumenberg, em �Wirklichkeitsbegrif und Wirkungspotential des Mythos�, comentando acerca da natureza do discurso mítico, conclui ser ele essencialmente baseado na elaboração de imagens que exprimem uma relação específica com a noção de um tempo anterior à temporalidade organizada pela intervenção do logos (38). No entanto, tanto Frank como Blumenberg concordam que a expressão do discurso mítico já se apresenta de início comprometida com a intelectualidade, verificando assim uma falácia na narratividade original, uma vez que, segundo Frank, o logos inerente a todo discurso mítico representa a morte e a memória falsificada do seu conteúdo (38). Blumenberg deriva desta problemática paradoxal a conclusão de que a recepção do mito em forma de linguagem caracteriza-se por um peculiar estado de melancolia. Este [379] é um sentimento de tristeza nostálgica motivado pelo reconhecimento da existência de uma incomensurável e intransponível distância estabelecida entre o entendimento proporcionado pelo caráter lógico-discursivo da linguagem de representação mítica e a realidade imemorial do próprio mito. Distanciado num tempo de autêntica e de satisfatória plenitude original -o chamado illo tempore caracterizado por Mircea Eliade em Cosmos and History: The Myth of the Eternal Return (17)-, a realidade mítica compõe-se evidentemente de um estado de projetada desiderabilidade.

     Tendo por base estas fundamentações teórias -i. e., a interrelação entre musicalidade, emotividade temporal e representação da imagem mítica no discurso poético-, pode-se analisar as estratégias estilísticas e imagéticas utilizadas por Alegre em relação intertextual ao hipotexto de Camões. O primeiro elemento a ser observado referese ao ritmo melódico conseguido por Alegre a partir da apropriação combinada da cadência vocabular do léxico camoniano, tanto lírico (sonetos da �medida nova� renascentista) quanto épico. Paripasso a esta combinação vão se estruturando as idéias temáticas que relacionam a cosmovisão mítico-literária de Alegre que, através da interpretação da vivência de Camões, define a razão do ser e do tempo atual da sua própria poesia. Recordando-se a condição contextual dos tempos de produção poética destes dois autores -marcados por um impasse filosófico-cultural sentido em correspondência histórica-, os seguintes versos de Com que Pena tornam-se claramente interpretáveis:

                                        Desterro desconcerto desatino                           
vai-se a vida em palavras transmudada
vai se a vida e cantar é um destino
página a página de pena e espada.
   
                        Conjura desengano má fortuna                              
oxalá só vocábulos mas não
a escrita não se cinde e a vida é una
cantar é sem perdão sem perdão.
 
                               Quebrar a regra nenhum verso é livre                             
outra é a norma e a frase nunca dita
lá onde de dizer-se é que se vive.
 
                                Cortando vão as naus a curta vida                           
transforma-se o que escreve em sua escrita
Lusíadas é a palavra prometida. (43)

     O poema de Alegre é um verdadeiro microcosmo favorável à hermenêutica, constituindo-se numa poética metalingüística para o estudo do texto camoniano. A fidelidade foco-problemática da construção textual de Alegre faz uma mimesis estética do discurso poético original em todos os seus níveis: estrutural, estilístico, semântico e temático. No nível do substrato mitopoético, o texto camoniano, repoetizado por Alegre, mitifica, em grandiose épico-ideológica, a nacionalidade histórica portuguesa decantada literariamente, recordando-se a tradição da equivalência entre Pátria e cultura literária, genialmente concebida e recordada para a posterioridade por Fernando Pessoa em O Livro do Desassossego: �A minha pátria é a língua portuguesa� (17).

     Recuperar o sentido da grandiosidade passada -combinando o estoicismo desenganado de Camões e a sublimada missão �fatalista� da sua escrita- parece ser o significado do mito, ao qual se eleva a história portuguesa reminiscente da lusíada glória desaparecida. O verso final do poema de Alegre -a chamada �chave de ouro� do soneto-, �Lusíada é a palavra prometida�, reflete claramente a nostálgica esperança da função temporal do mito (Blumenberg 17).

     A seguir, algumas considerações estruturais e estilísticas merecem ser feitas para se verificar a artisticidade de Alegre decalcada no texto camoniano. Os versos �Cortando vão as naus a curta vida� e �transforma-se o que escreve em sua escrita� constituem uma referência paródica aos versos �Cortando vão as naus a larga via� e �Transforma-se o amador na coisa amada�, respectivamente do texto de Os Lusíadas (canto IX, estância 51) e do soneto lírico camoniano que principia por aquele mesmo verso. Entretanto, a paródia possui aqui a seriedade de um sentido irônico e reflexivo, pois une a idéia de escassez e efemeridade da vida real -o destino do poeta e da glória passageira da sua nação Quinhentista- com a idéia de perenitude do símbolo em que tal [380] glória e destino se transformam na posteridade. Tal platonismo de Alegre contrapõese substancialmente à visão proto-barroca de Camões sobre o desengano do mundo. Assim é que uma outra aproximação de Alegre ao texto camoniano pode ser feita através do verso �Conjura desconcerto desatino�, o qual lembra perfeitamente a instabilidade do mundo genialmente entendida por Camões nos seguintes versos da sua lírica:

                             Verdade, amor, Razão, Merecimento                             
qualquer alma farão segura e forte;
porém, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte,
têm do confuso mundo o regimento. (120)

     A reapropriação de Camões por Alegre é, em todos os seus aspectos, de uma coerência estética quase que perfeita. Para uma maior convergência dos temas, Alegre apura-se inclusive na imitação estilística. Com exceção do esquema rimático, o ritmo melódico de Alegre reproduz o estilo camoniano, utilizando-se, para tanto, da cadência própria do seu decassílabo -i. e., com a incidência tônica regularmente na sexta e na décima sílaba-, conforme pode ser notado nos seguintes versos: �Desterro desconcerto desatino, / vai-se a vida em palavras transmudada�. Curiosamente, Alegre muda este esquema rítmico no verso em que ele fala do livremetrismo e no que conota o valor épico, respectivamente: �Quebrar a regra nenhum verso é livre -onde de decassílabo passa para endecassílabo, e a tonacidade recai na sétima e na décima primeira sílaba- e �Página a gina de pena e espada� -onde o decassílabo reproduz o ritmo heróico.

     Outro elemento determinante da melodia poética de Camões -e que se torna semelhantemente expressivo na poesia de Alegre- é a repetição na forma de polyptoton, isto é, o emprego lexical e/ou sintático de termos de variações cognatas. Dentre os vários casos deste recurso em Camões, destacam-se os seus seguintes versos líricos:

                               Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,                              
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é feito de mudança,
tomando sempre novas qualidades. (102)

     Alegre utiliza-se deste mesmo recurso como indiretas referências a Camões, como nos seguintes exemplos de Com que Pena: �vai se a vida... / vai-se a vida�, �cantar é sem perdão é sem perdão�, �Transforma-se o que escreve em sua escrita� (43). Ainda com relação à função da repetição utilizada na expressão poética, reproduz este recurso, segundo Friedrich, a musicalidade natural da língua (27). Por outro lado, nota Deborah Tannen, em Talking Voices, que o discurso dialógico caracteriza-se pelo uso, dentre outras, das estratégias da imaginação, do detalhe e da repetição, sendo que esta última funciona especialmente para ajudar a criar-se um envolvimento emocional entre os participantes do diálogo (48). Tal disposição emotiva -fator da dialogia mitopoética que Alegre estabelece com Camões- é sublimada pela empatia verificada nos seguintes versos de Com que Pena:

                              teu canto e tu são nossa rima e nosso ritmo                            
decassílabos em volta do planeta

....

Esta nação nasceu como poema. (10)

     No afã de elevar Camões a símbolo da nação portuguesa, Alegre corresponde ou amplia o canto literário do poeta renascentista à própria melodia da voz popular:

                             Talvez soubesse [Camões] o que mais tarde                              
Eliot havia de formular: a música
da poesia é a música latente do falar
corrente... (32)

     Já se comentou anteriormente neste estudo acerca da função da reminiscência nostálgica, favorecida pelo mito em relação à visão profética de Camões sobre o declínio cultural e político da gloriosa e passageira história do Portugal de Quinhentos; sentimento este associado à sua cosmovisão poética do estado caótico e desconcertado do mundo. Ainda, declínio e desconcerto, segundo Jean Bollack, em �Mystiche Deutung und Deutung des Mythos�, são os elementos essenciais da ontologia mítico narrativa (67-116). (13) Visto que Alegre mitopoetiza esta memória nostálgica expressa na cultura portuguesa a partir de Camões, pode-se afirmar que o binômio [381] pátria-língua portuguesa constitui-se essencialmente baseado na memória do passado, (14) como bem expressam os seguintes versos de Com que Pena:

                           Vai-se a Índia em vogais e consoantes                            
o resto é morrer de pequenez
Camões porque poema nunca dantes.
                      
Maldivas Madagáscar Moçambique
não mais canção uma ritmo português. (47) (15)

     Como nota final da reconstrução de Alegre, o poeta testemunha o realizar da profética intuicão camoniana ao, paradoxalmente (porque misto de euforia e fatalismo), conceber a fundação heróica da identidade nacional já continente dos motivos e das causas germinais do seu próprio fim. Desta época passada -de cujas encarnações o Mito do Sebastianismo tornou-se a expressão mais autêntica-, o que resta é só a literatura, o heróico poético da épica camoniana. Mesmo a sua imortal grandiloqüência passa com a morte do seu autor, num povo que se desculturou, tornando-se na �gente cega e muda [que] somos nós� (Com que Pena 41). Devido a isto, Alegre pede que o hipotexto mitopoético de Camões fale através de si, da sua poesia intertextualizada de Com que Pena, isto é, com a pena (instrumento) da escrita de ambos e a pena (sofrimento) ainda por ambos sentida pelo destino social.

     Na sua absoluta fidelidade poética e ideária à cosmovisão camoniana, Alegre -ressentido com a condição do seu próprio tempo cultural e histórico-, continua incansavelmente a tecer e a destecer -Penélope ulissíaca à espera do seu bem amado Portugal- o tecido textual de Camões, flâmula da identidade nacional. Assim é que Alegre -com o sentimento do desconcerto dos versos do seu inspirador (�Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades�), mas sem perder a sua típica amorosidade (�[Amor] é dor que se sente sem doer�)- apostrofa finalmente através da sua poesia recriadora de Com que Pena:

                                  Com que voz nos diria com que voz?                         
O tempo se mudou mas não o ser
falas connosco às vezes quase a sós
e o que te dói nos dizes sem doer. (41)

     Dada a densidade do poder de intertextualização de Alegre, resta-se concluir perguntando a um outro poeta do sentimento português e universal -o Fernando Pessoa da �Autopsicografia�- o que ele diria da dor-sentimento de Camões-Alegre refletida no verso deste �e o que te dói nos dizes sem doer�.

     OBRAS CITADAS

     Alegre Manuel. �País EM inho�. Atlântico. Lisboa, 1989.

___.Com que Pena. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1992.

     Aristotle. Metaphysics. Trans. W. D. Ross. The Basic Works of Aristotle. Ed. Richard Mckeon. New York: Random House, 1941.

     Bakhtin, Mikhail. �Discourse in the Novel�. The Dialogic Imagination. Trans. Caryl Emerson and Michael Holquist. Austin: U of Texas P, 1990.

     Bollack, Jean. �Mystiche Deutung und Deutung des Mythos�. Terror und Spiel. Hrsg. von Manfred Fuhrmann. München: W. Fink, 1971.

     Blumenberg, Hans. �Wirklichkeitsbergrif und Wirkungspotential des Mythos�. Terror und Spiel. Hrsg. von Manfred Fuhrmann. München: W. Fink, 1971.

     Borges, Jorge Luis. �Kafka y sus precursores�. Otras Inquisiciones. Buenos Aires: Ediciones del Sur, 1963.

     Brownlee, Kevin and Walter Stephens. �Introduction�. Discourses of Authority in Medieval and Renaissance Literature. Eds. Kevin Brownlee and Walter Stephens. Hanover and London: UP of New England, 1989.

     Brownlee, María Scordilis. �The Counterfeit Muse: Ovid, Boccaccio, Juan Flores�. Discourse of Authority in Medieval and Renaissance Literature. Eds. Kevin Brownlee and Walter Stephens. Hanover and London: UP of New England, 1989.

     Camões, Luís Vaz de. Poesia Lírica. Ed. Isabel Pascoal. Lisboa: Editora Ulisséia, 1989.

     Chiampi, Irlemar. O Realismo Maravilhoso. São Paulo: Editora Perspectiva, 1980.

     Eliade, Mircea. Cosmos and History: The Myth of the Eternal Return. Trans. Willard R Trask. New York: Harper and Row, 1959.

     Faria, Almeida. Trilogia Lusitana: Lusitânia. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983.

     Fonseca, António Barahona da. Pátria Minha. Lisboa: Guimarães Editora, 1980.

     Frank, Manfred. �Die Dichtung als 'Neue Mythologie'�. In Mythos und Moderne. Frankfurt am Maim: Suhrkamp, 1983.

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