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Invocação à Saudade

Tu, que n'alma te embebes magoada,

melancólica dor, e gota a gota

vertes no coração tóxico acerbo,

que entorpece a existência, e a vida rala!

Tu, tirana da ausência, que retratas
5

em fugitiva sombra, em negro quadro

   a imagem do passado;

que ao filho sempre a mãe anosa antolhas,

a pátria ao peregrino, o amigo ao amigo,

o esposo à esposa; e ao malfadado escravo,
10

que sem futuro pelo mundo vaga,

mostras a liberdade, e o lar paterno;

e a cada simulacro que apresentas,

com farpado aguilhão rasgas o peito

   do triste que te sofre;
15

e nos olhos sanguíneos, encovados,

   não lágrimas destilas,

mas fel, só atro fel, bárbara, espremes.

Oh saudade! Oh martírio de alma nobre!

Malgrado o teu pungir, como és suave!
20

Como a rosa de espinhos guarnecida

aguilhoa, e apraz co'o doce aroma,

tu feres, e mitigas com lembranças.

Mas ah! o teu espinho ainda é mais duro;

e essas tuas lembranças são falaces,
25

fores são que o punhal de Harmódios cobrem.

Para agora oprimir-me tudo se ergue;

tudo agora de encantos se reveste,

para mais agravar minha saudade.

Sítios qu'eu desdenhei, sítios que amava,
30

templos que orar me viram respeitoso,

estes céus de safira, estas montanhas

cobertas de cocares de palmeiras,

pais, amigos, irmãos, ah! tudo, tudo

me está representando a fantasia,
35

como que pouco a pouco quer matar-me.

Que cena há aí que mais encantos tenha,

que ver lânguida virgem, pudibunda,

pálida a fronte, as faces desbotadas,

baixos os olhos, revoando a coma,
40

e uma terna expressão de oculta angústia

   que lavra-lhe as entranhas?

Que cena há aí que mais encantos tenha,

que vê-la num baixel, segura ao mastro,

suspiros exalar, longos suspiros,
45

que voam murmurando, e se misturam

co'os ventos que sibilam nas enxárcias?

De vez em quando olhar, e só ver nuvens,

nuvens que o céu encobrem, retratando

fugitivas imagens, que recordam
50

terras da pátria; quem, meu Deus, quem pode

   resistir a tal cena?

Tu matas, oh saudade!... Às crespas ondas,

delirante Moema, e quase insana,

por ti ferida, se arremessa... e morre...
55

   Que não pode a mesquinha

longe viver do fugitivo amante,

que tanto amor pagara com desprezo.

Lindóia, entregue à dor, desesperada

n'ausência de Cacambo, mal lhe soa
60

do caro esposo o último suspiro,

também suspira, odeia a vida... e morre...

E tu, Clara infeliz, filha dos bosques,

   gerada entre palmeiras,

nada pode aprazer-te, nada pode
65

extinguir-te a lembrança

da rústica cabana, onde embalada

em berço foste de tecidas varas.

De diurnas, domésticas fadigas

descansada, lá quando alveja a lua
70

em fundo azul, mil vezes te enxergaram

num tronco de coqueiro reclinada,

cantar da infância tuas árias saudosas,

árias bebidas nos maternos lábios.

   Ai... minha mãe, dizias,
75

ai... minha mãe... quem sabe se ainda vives!

Aldeia onde nasci, pobre cabana,

rede que me embalavas, eu vos choro!

Oh terra do Brasil, terra querida,

quantas vezes do mísero Africano
80

te regaram as lágrimas saudosas?

Quantas vezes teus bosques repetiram

   magoados acentos

   do cântico do escravo,

ao som dos duros golpes do machado?
85

Oh bárbara ambição, que sem piedade,

cega e surda de Cristo a lei postergas,

e assoberbando mares, e perigos,

vais infame roubar, não vãs riquezas,

   mas homens, que escravizas!
90

Mil vezes o Senhor, para punir-te,

opôs ao teu baixel ondas, e ventos;

   mil vezes, mas embalde,

nas cavernas do mar caiu gemendo.

Á voz do Eterno obediente a terra
95

se mostra austera e parca,

que a lágrima do escravo esteriliza

   o terreno que orvalha.

A Natureza preza a Liberdade,

e só franqueia aos livres seus tesouros.
100

Oh suspirada, oh cara Liberdade,

descende asinha do Africano à choça,

seu pranto enxuga, quebra-lhe as cadeias,

e adoça-lhe da pátria a dor saudosa.

Oh palavras! oh língua! quão sois fracas,
105

para d'alma narrar os sentimentos!

Oh saudade, aflição dura e suave!

Oh saudade, que o rosto me descoras,

Saudade, que me apertas, que nos lábios

   decas-me o almo riso,
110

e o pensamento meu absorves todo,

como uma esponja o líquido, e o repartes

co'o passado, o presente, e co'o futuro.

   Oh saudade! Oh saudade!

Minhas endechas mal carpidas colhe;
115

dá-me um lúgubre som, como o das vagas

   que nas praias se quebram

sem ordem, como os meus chorados cantos;

uma voz sepulcral, como a da rola

que em solitária selva se lamenta;
120

um acento funéreo, um eco lúgubre,

como o eco das grotas, quando a chuva

   goteja reboando.

Ah! corram minhas lágrimas, ah! corram

a quantos meus gemidos escutarem.
125

   Oh saudade! Oh saudade!

   Pois que em minha alma habitas,

e sem cessar me lembras pais, e Pátria,

minhas tristes endechas serão tuas,

saudade, serei teu... Saudade, és minha.
130


Adeus à pátria

   Adeus, oh Pátria amada,

terra saudosa, onde eu abri meus olhos

pela vez prima ao sol americano;

onde nos braços maternais suspenso,

   o teu amor co'a vida
5

no albor dos anos meus fruí gostoso.

   Oh margens do Janeiro,

eu me ausento de vós com mágoa e pranto!

Adeus, brilhante céu da terra minha!

Adeus, oh serras que vinguei difícil!
10

   Adeus, sombrias várzeas,

que vezes passeei meditabundo.

   Adeus, augustas torres

Do templo, onde lavei-me do pecado!

O som funéreo dos sagrados bronzes
15

ainda vem magoar os meus ouvidos,

   e n'alma despertar-me

tristíssimas, cruéis reminiscências.

   Eis ali a montanha

cujos pés beija o mar que em flor se esbarra.
20

Quantas vezes ali triste, sentado,

minha alma no infinito se espraiava,

   os olhos vagueando

sobre este mar, que deve hoje levar-me!

   Sim, eu te deixo, oh Pátria;
25

e deixo-te lutando co'as procelas,

que no teu horizonte se abalroam.

Ah! quanta dor o coração me punge,

   por ver alguns teus filhos,

baldos de pundonor, como te olvidam.
30

   Teus filhos... Ah! cubramos,

se algum há, com desprezo o seu opróbrio.

feras serpentes qu'entre mansas aves

se aqueceram nos ovos, e mal nascem

   dilaceram os filhos,
35

e as próprias aves que lhes deram vida.

   Malévolos sicários,

raça espúria, sem Pátria, ermos de brio,

já traidores alfanges afiando,

o ensejo só aguardam favorável
40

   de ensopá-los no sangue

daqueles a quem bens, e honra devem.

Não é pavor, nem susto

de aos pés calcado ser de intrusos Neros,

nem de rojo levado ao cadafalso,
45

que hoje arrancar-me de teu grêmio pode;

nem a ambição me acena

qu'eu vá mercadejar por longes terras.

   Não, eu não temo a morte,

nem dos tiranos temo a catadura;
50

ei firme assoberbar adversos fados;

que o varão, que o dever toma por norte,

   sempre a Pátria antolhando,

morte honrosa prefere à vida escrava.

   Amor da sapiência,
55

desejo de colher lições do mundo

leva-me às margens do soberbo Sena,

para, se me não for avessa a sorte,

   ante o altar da Pátria

meus serviços prestar vir respeitoso.
60

A ti me voto inteiro,

tu és o meu amor, minha alma é tua.

Só para te ofertar flores cultivo

nos mágicos jardins da Poesia;

   se te apraz seu aroma,
65

Ah! como fico de prazer ufano!

Ah! praza a Deus que a nuvem,

que obumbra ora teu céu, tão belo sempre,

a cólera do Eterno não desabe

sobre as tristes cabeças de teus filhos!
70

Ah! praza a Deus que nunca

teu Anjo tutelar fuja a teus lares!

   Oh Senhor, tu protejes

o povo que se vota à Liberdade;

a Liberdade é dom que nem tu mesmo
75

aos homens tiras; como um mortal ousa,

erguido pó da terra,

eclipsar os teus dons, manchar teu nome?

   Cara Pátria, sem susto

tua fronte levanta majestosa,
80

como tuas montanhas, e teus bosques!

Não sejas só no mundo conhecida

   por teus ricos tesouros,

pelos prodígios da sem-par Natura.

   Oh Pátria, ovante marcha;
85

já em teu seio encerras Varões dignos

de renome imortal; não te envergonhes

de cingir-lhes as frontes, de apontá-los.

   são eles que te escoram,

e que te hão de elevar à Eternidade.
90

   As solitárias ondas

que hoje sonoras tuas: praias beijam,

já outrora, não pedras, não espuma,

mas cadáveres, e sangue arremessaram,

   cadáveres, e sangue
95

dos nascidos nos teus sagrados bosques.

   Se inimigos ousarem,

armados contra ti, em frágeis lenhos,

expelir o trovão, o raio, e a morte,

abrir-se-hão estes mares a sorvê-los;
100

   seus lívidos cadáveres

tuas areias juncarão de novo.

   O coração pressago

veemente palpita, e voz suave

em meu peito ressoa, e me anuncia
105

que o céu destes horrores te preserva;

   o coração não mente;

a paz firmou-se em ti; seja ela eterna.

   Como a enchente do Nilo

que estendendo-se sobre a terra Egípcia,
110

deixa após si fertilidade aos campos,

assim, propicia paz, tu vivificas

   o povo que te hospeda,

e por ti bafejada a indústria medra.

   Como serei ditoso
115

se dado ainda me for correr teus campos,

beijar de anosos pais as mãos rugosas,

abraçar os amigos, e arroubado

   nesse celeste instante

Novos, oh Pátria, cânticos tecer-te.
120


Rio de Janeiro, 3 de julho de 1833

À minha família

Choram por mim... Por mim a mãe querida

em soluços -adeus- nem dizer pode...

Debalde balbucia; os lábios tremem,

   e a dor a voz lhe embarga...

   Banhado tem o rosto
5

de cristalino pranto, e cor de sangue

   os olhos já cansados.

Lá vejo o caro pai sisudo e grave,

a quem anos as faces enrugaram,

   e a fronte encaneceram;
10

a mão ao filho estende, e a bênção lança:

Boa viagem, diz, boa viagem;

   Deus te guie, e te traga

   na sua santa guarda,

sempre digno de mim, da Pátria digno.
15

Memorandas palavras!

Palavras de meu pai... n'alma do filho

ausente, eternas ficarão gravadas.

Ternos irmãos -adeus- me estão dizendo

com tão fúnebre acento,
20

como se eu condenado à morte fosse.

Um por um os abraço, e adeus lhes digo.

Quero partir... forcejo; os olhos cerro...

Porém a dor que o coração me preme,

forças me tira, e me fraqueia os passos;
25

   em borbotões rebentam

lágrimas, que enxugar em vão pretendo.

Que mão gelada é esta, que me embebe

duro alfange no íntimo do peito?

Que mão desapiedada me retalha
30

   o coração magoado?

Mão da saudade, és tu, eu te conheço.

Oh momento de ausência, como és agro!

Mais agro não me foi aquele dia

   em que co'a morte ao lado,
35

quase caí do leito à sepultura.

Já brilhava a meus olhos moribundos

a luz de bento círio,

que ante um sagrado Crucifixo ardia.

Chorava minha mãe, e seus cabelos
40

sobre meu frio peito debruçavam-se.

Colocado entre o mundo e a Eternidade,

meu ser se dividia, e ingente peso

o aflito coração me comprimia,

como se férreos braços me cerrassem.
45

Ah! porque inteiro conservou-se o estame

em luta tão cruel? E' qu'eu devia

sofrer mais este golpe, e da existência

não estava inda o círculo completo;

assaz não tinha o Mundo conhecido,
50

   conhecê-lo devia.

Neste instante que a dor absorve todo,

não me vigoram de um porvir brilhante

   lisonjeiras lembranças,

sonhos falaces, esperanças loucas,
55

que embriagam a mente do acordado.

Quisera aqui morrer, quisera nunca

estranhas terras visitar, que outrora

   eu tanto cobiçara,

antes que os pais deixar, irmãos e Pátria.
60

   Mas uma estrela guia

   a seu destino o homem.

Quem de Deus penetrar pode os arcanos?

Quem do Eterno à vontade opor-se pode?

Cumpra-se a minha estrela... E nós choremos,
65

que num vale de lágrimas estamos.

Chorando nossas mães vida nos deram,

chorando à luz nascemos, e mil vezes

esta vida choramos, e na morte

uma lágrima ainda se desliza
70

   dos revirados olhos:

Das lágrimas a fonte só se estanca,

quando da vida apaga-se a centelha.

   Pais, irmãos me rodeiam.

Onde estão os amigos? Um ao menos
75

não me vem abraçar neste momento?

Um só não terei eu, que me acompanhe

   até à triste praia,

e o ósculo da amizade aí me imprima

   na hora da partida?
80

   Eu vos conheço, amigos!

Convosco fique a paz, fique a alegria,

   venha o pesar comigo.

Caro pai, boa mãe, irmãos queridos,

meu último suspiro vosso seja...
85

Adeus... adeus; eu parto.


Rio de Janeiro, 3 de julho de 1833

A tempestade

Desaparece o sol, o céu negreja,

o rígido aquilão em fúrias brama,

e em cada vaga a morte armada se ergue.

   Hei de eu morrer, oh Pátria,

sem que um suspiro teu sequer mereça?
5

Sem que minha existência útil te fosse?

E este mar cavará o meu sepulcro?

Meu corpo rolará entregue às ondas,

té que os marinhos tigres o devorem?

Não terei uma campa, um epitáfio,
10

onde no dia aos mortos consagrado

as lágrimas de amigo se deslizem?

   Eu estava tranqüilo...

Como um brando regato serpenteia

entre florida, perfumada relva,
15

ou como a lua plácida fulgura

   na abóbada celeste,

recamada de nítidas estrelas,

assim os dias meus se devolviam

em suaves vigílias, brandos sonos.
20

Tinha um pai, uma mãe, irmãos, amigos;

debaixo de meus passos se movia,

   sem qu'eu sentisse, a terra;

ora de humana voz ternas cadências

as passageiras mágoas me adoçavam,
25

ora coberto com dosséis de folhas,

que em chuveiros de flores me cobriam,

terno cantava ao som da frauta agreste

   que o sabiá simula.

se no cume da serra a tempestade
30

Caliginosos braços estendia;

se nas torres dos templos se esbarravam

   lampejantes coriscos;

na paterna mansão, ermo de susto,

escutava o trovão, e o hino excelso
35

que entoavam meus pais venerabundos.

Oh! com que rapidez tudo se muda!

o homem nem prevê próximos males!

   Aqui, neste Oceano,

sem que sequer um só prazer desfrute,
40

tudo é horror, e um vasto cemitério.

De cada lado gigantescas vagas,

irritadas elevam-se, curvando

sobre o navio que sem tino vaga.

negras nuvens do sol a face enlutam;
45

soltos trovões se embatem, troam, bramam;

rijo sibila o vento nas enxárcias;

ante a proa em montanhas espumosas

pulveriza-se o mar, roncando horríssono;

   gemendo as vergas beijam
50

a onda que se empola, ou já se afunda,

quais débeis canas que o tufão acurva.

Que horror, oh céus! Que sorte nos aguarda!

Se é nossa estrela que morramos todos,

   quero ser o primeiro
55

em quem, oh ondas, sacieis a fúria.

Procuro embalde, cintilar não vejo

   Santelmo de esperança;

só vejo a morte abrir a foz medonha

em cada vaga, que engolir promete
60

o lenho, surdo à voz do palinuro.

As velas ferram desmaiados nautas,

rouqueja o capitão, soa a buzina,

mulheres tremem, criancinhas choram,

e sobre a bomba passageiros curvos
65

   arquejando se afanam.

Fitas de fogo ardentes, inflamadas,

entre rotos listões de negras nuvens,

   no horizonte se estendem;

vasto lago de sangue o mar parece;
70

relâmpagos mil chovem, mil se apagam;

raios dardeja o céu enfurecido,

e os vermelhos coriscos no ar se cruzam,

como cipós que os bosques emaranham,

ou qual num rio amontoadas serpes,
75

Curvilíneas se enlaçam, sobem, descem.

Oh meu Deus! Oh meu Deus, teus olhos volve

   sobre os filhos dos homens.

É verdade, Senhor, eles ingratos

no tempo da bonança se esqueciam
80

   da tua onipotência;

ousamos, ímpios, profanar teu nome;

mas piedade, Senhor, hoje invocamos.

   Como filhos rebeldes,

que os sãos conselhos paternais desprezam,
85

Zombam mesmo dos pais, e de delírio

em delírio à desgraça se encaminham;

e quando já no poço da miséria

   lhes brada a consciência,

   então os pais invocam;
90

e se os pais os não salvam, ali morrem.

tu és pai, oh meu Deus! Misericórdia!

Um sopro de teus lábios foi bastante

para armar contra nós a tempestade;

   um sopro de teus lábios
95

   basta para acalmá-la.

À tua voz, Senhor, tudo se humilha,

o mar, a terra, o céu, o vento, o raio;

   fala, seremos salvos.

Amaina o vento, o mar se tranqüiliza!...
100

Maravilha de Deus!... As nuvens subam

   a teus pés os meus hinos,

hinos acesos nos transportes d'alma;

voem de mundo em mundo, de astro em astro,

de Anjo em Anjo, até qu'eles se harmonizem,
105

e dignos sejam, oh Senhor, que os ouças.

Glória! glória ao Senhor! estamos salvos!

   Desaparece a morte,

raia o sol, ri-se o céu, o mar se aplana!

Glória! glória ao Senhor! estamos salvos!
110

   Afaga-me a esperança,

que renasce no fundo de minha alma,

   como a fênix das cinzas.

Oh Pátria, serei teu; minha existência

ao louvor do meu Deus, a teus louvores
115

de ora avante a consagro.


O dia 7 de setembro, em Paris

Longe do belo céu da Pátria minha,

   que a mente me acendia,

em tempo mais feliz, em qu'eu cantava

das palmeiras à sombra os pátrios feitos;

sem mais ouvir o vago som dos bosques,
5

nem o bramido fúnebre das ondas,

   que n'alma me excitavam

altos, sublimes turbilhões de idéias;

   com que cântico novo

o Dia saudarei da Liberdade?
10

Ausente do saudoso, pátrio ninho,

   em regiões tão mortas,

para mim sem encantos, e atrativos,

gela-se o estro ao peregrino vate.

Tu também, que nos trópicos te ostentas
15

fulgurante de luz, e rei dos astros,

tu, oh sol, neste céu teu brilho perdes.

Oh fantasia, reproduz se podes

o enérgico quadro, que meus olhos

   outrora extasiara;
20

as cenas reproduz de entusiasmo,

   Que o coração abrasa

como o sol quando a pino os homens fere;

memória, hoje recorda aquelas vozes

dos brasilenses peitos escapadas,
25

como do Chimboraço ardentes lavas,

e no templo de Deus gratas soavam.

   Recita aqueles hinos,

que angélicas donzelas, varões probos

alternos entoavam neste Dia,
30

   Da Liberdade em honra.

Mas em vão, que nos ares embruscados

o mimoso colibri não adeja,

nem longe do seu ninho o canto exala

o sabiá canoro.
35

Ah! se ao menos a dor que me alma punge,

   e a existência me azeda,

um pouco se aplacasse, e doce riso,

filho do coração, subisse aos lábios,

quiçá na ausência da querida Pátria
40

   pudesse, inda que rouco,

mais um hino ajuntar aos outros hinos,

com que de meu amor lhe fiz ofrenda,

quando no grêmio seu prazer gozava.

Lá, no teu seio, a vida respirando
45

   tranqüilo e sossegado,

ou no mar agitado, à morte exposto,

ou aqui nesta plaga tão remota,

fiel te sou, oh Pátria; não te olvido

pelas grandezas que me ofrece a Europa.
50

Estes eternos monumentos d'arte,

estas colunas, maravilhas mortas,

estas estátuas colossais de bronze,

estes jardins soberbos, estes templos

são belos; mas não são de minha Pátria.
55

Tuas virgens florestas, e teus templos

mais me aprazem que tudo que aqui vejo.

Ah! quem me dera agora, em grato sonho

   iludido, cuidar que me revolvo

ignorado entre os meus, entre o tumulto
60

do povo que no rosto traz impressa

   a glória deste Dia!

Quem me dera que os meus rústicos hinos

   por ele ouvidos fossem,

   e por ele aplaudidos
65

no delírio do sacro amor da Pátria!

Oh! como é doce memorar os tempos

da passada alegria!

Como é doce escutar ternas cadências

de branda voz de pudibunda virgem,
70

quando fora da terra a alma vagueia

   No celeste infinito!

Mais doce é celebrar os claros feitos

dos seus concidadãos, e unido a eles,

beber na mesma taça o entusiasmo,
75

   e no divino arroubo

os céus congratular, render-lhes graças!

Aqui da Liberdade repetido

não soa o mago acento em meus ouvidos;

nem o auriverde pavilhão tremula,
80

   imagem das riquezas

da terra minha, fértil, abundante;

nem o canhão ribomba, que assinale

que este Dia ao Brasil é consagrado.

   Só o estridor ressoa
85

de turbulento povo, indiferente

   da Pátria minha à glória.

   Dia da Liberdade!

Tu só dissipas hoje esta tristeza

   que a vida me angustia.
90

Tu só me acordas hoje do letargo

   em que esta alma se abisma,

de resistir cansada a tantas dores.

Ah! talvez que de ti poucos se lembrem

neste estranho país, onde tu passas
95

sem culto, sem fulgor, como em deserto

caminha o viajor silencioso.

Mas rápidos os dias se devolvem;

e tu, oh sol, que pálido me aclaras

   nestas longínquas plagas,
100

brilhante ainda raiarás na Pátria,

   e ouvirás meus hinos

em honra deste Dia, não magoados

co'os fúnebres acentos da saudade.


Adeus ao meu amigo M. de Araújo Porto Alegre

Não posso duvidar, nem tu duvides;

há uma estrela que ao porvir nos guia,

malgrado as ondas do inconstante mundo.

Os destinos dos homens são patentes

   da Providência aos olhos,
5

pois que aos olhos de Deus não há futuro;

   duvide embora o ímpio.

Com insolúvel nó a ti me liga

   sagrada, oculta força.

Fitos na Pátria os olhos, sempre avante,
10

araújo, marchemos.

Amamo-nos; que importa Grécia, e Roma

vás ver sem mim?11 Assim stá destinado.

na Pátria de Platão, e de Lionides,

   de Rafael na Pátria
15

não, não te esquecerás do teu amigo.

Vai; sapiência colhe em solo estranho;

depois conosco pródigo reparte.

Assim de flor em flor errante abelha

o néctar frui, que em mel ofrece aos homens;
20

assim de gotas pluviais se embebe

   o ancho seio do monte,

que em límpidas correntes depois mana.

Vai; ao Parnaso sobe; aí meu nome

entoa para o céu, e atento escuta;
25

   se os ecos responderem,

junto do nome teu meu nome grava

   no mármore que achares.

Ah! lembra-te de mim quando de Tasso

   visitares o cárcer.
30

Quando do longo meditar cansado

estiveres de Roma nas ruínas;

quando só passeando n'Ápia estrada,

ou da morte os segredos contemplando

dos Mártires Cristãos nas catacumbas;
35

quando ouvires soar de amigo o nome,

de mim te lembrarás, dirás contigo:

quem sabe se por força da amizade,

em mim pensa ele agora, como eu nele?

   Vai; teu gênio alimenta.
40

breves os dias são, os anos breves,

e dos filhos dos homens breve corre

   a vida afadigada,

como nos ares rápido meteoro.

   Ah! quanto a missão custa
45

cumprir na terra, onde atalaias somos!

   Na começada empresa

somente ao fraco arrepiar é dado;

não se releva ao campeão donoso,

   que desde o albor da idade
50

n'alma ferveu-lhe em turbilhões o engenho,

   que lhe inspirara a Pátria.

Enganados num dia os mortais podem

às mãos de um néscio confiar o mando,

   com que depois os curva;
55

podem coroas repartir, e cetros,

e púrpuras reais, e tit'los nobres;

podem rolar seus ídolos dos tronos,

tomar os louros que iludidos deram;

mas tu, raro no mundo, dom sublime,
60

   gênio, quem te reparte?

Deus só, Deus só te envia a seus diletos.

Gênio, filho de Deus, fogo celeste

baixado à terra em prol da Humanidade!

Aquele em cuja fronte resplendeces,
65

   cujos lábios inflamas,

um Homero será, Platão, ou Fídias,

radiantes padrões, astros de glória,

   de estrelas escoltados,

que como o sol, do oriente ao ocidente,
70

   giro farão eterno.

Sinal em tua fronte tens do Gênio;

não pertences a ti, tu és da Pátria.

   Com teus pincéis divinos

deves seus feitos esmaltar, preclaros;
75

eu a teu lado cantar-lhe-hei a glória.

Unidos, sempre amigos, sempre à mesma

   vontade obedecendo,

que doce nos será então a vida!

Tempo, tempo, não voes; Pátria, aguarda;
80

   Araújo, marchemos.


No álbum de um jovem amigo

Amigo, eu parto, e deixo-te saudoso.

Pois que sempre tua alma bem formada

minhas vozes ouviu, vozes sinceras;

pois que sempre os conselhos da experiência

   com prazer escutaste,
5

   inda que às vezes duros;

no momento do adeus recebe, atende

esta, de amor, não lisonjeira prova.

É qual sereno rio a mocidade,

que as imagens retrata, e não conhece
10

o bem, e o mal, e as ilusões do mundo:

é como verde, flácida vergôntea,

que a forma toma que o cultor lhe imprime,

e boa, ou má, não mais depois se muda.

Quem, como tu, da Pátria longe vive,
15

longe dos paternais, úteis ditames,

assaz tem que lutar, se à glória aspira.

filósofos não faltam que te instruam;

mas da vida, nas páginas de um livro,

   não se aprende a ciência.
20

Estuda, sim estuda, mas pratica

dignas ações de ti; e eu te asseguro,

pois que a Natura te protege, e inspira,

qu'inda um dia serás brilhante estrela

entre os astros que a Pátria nossa adornam.
25

A Deus praza que a Pátria não iludas,

e os votos de teus pais, e dos amigos.

A todo o instante que este livro abrires,

lendo estes versos, dize: hei um amigo.


Ao deixar Paris

Sim, a custo te deixo, augusto alcáçar

do progresso, da luz, da liberdade.

Vivífico remanso, onde perene

bebe o estrangeiro quanto apraz à mente,

do néctar das ciências sequiosa.
5

Sim, com justa razão te ornas de orgulho,

pátria de heróis, refúgio de infelizes,

vítimas do erro, que ainda a Europa preme

com cem braços de ferro; fugitivos,

em teu grêmio cabal abrigo encontram.
10

mãe desvelada não mais pronta acode

com bondadoso peito ao tenro infante.

Qual da torrente que de alpestre fraga

jorrando em catadupas marulhosas

se ala equóreo vapor que o campo orvalha,
15

e em rios dividindo-se, e em regatos

a longes terras nutrimento envia;

assim os sábios, que em teu seio abundam,

manam nome, e saber aos outros povos.

Para teatro de espantosas cenas
20

teu solo assinalou a Providência.

Aqui rompeu esse vulcão terrível,

que o mundo inteiro alumiou co'as lavas,

e à fileira dos reis alçou os homens;

aqui o rei dos reis, terror da Europa,
25

no trono colossal, firme no povo,

honras, louros, e cetros repartia.

O jugo antigo, que a razão curvava,

quebrou, em ti nascido, esse Descartes,

que por novo teor, método novo,
30

sublime estrada abriu à Inteligência.

Malebranche o seguiu, também teu filho.

As boas Artes, do progresso amigas,

filhas da Liberdade, irmãs da glória,

foragidas da Itália, atravessaram
35

Alpes, e Reno, em ti seu templo ergueram.

Paris, citar teu nome é pôr remate

aos elogios teus; eu te venero.

Lições em ti frui; como eu mil outros

brasileiros, que a Pátria hoje adereçam,
40

em ti juvenis passos amestraram.

Da sapiência o brilho ofusca o do ouro;

só de alma estreme a gratidão é paga;

grato te sou no tributar encômios

não lisonjeiros, que a verdade os sela.
45

Arando o crespo Oceano, à Pátria minha

as ciências passaram triunfantes

do santuário teu, nas mãos levando

o archote da razão; ali brilhante

luz difundindo, as trevas sacudiram,
50

que em nossos horizontes negrejavam.

No facundo clarim soa a Verdade;

então do avaro Lusitano as peias,

e as erguidas barreiras rotas caem,

quando Montesquieu, Rousseau troando,
55

as cidades, e os campos repercutem.

Assim de Jericó outrora os muros,

das Hebréias trombetas sons ouvindo,

caem aos pés de Josué submissos.

Então pautando os seus pelos teus passos,
60

mais e mais o Brasil terreno avança

na escala das Nações, que no orbe avultam.

Como da lira consoante vibra

uma corda, quando outra foi ferida,

o Brasil teus triunfos aplaudindo,
65

co'as tuas explosões harmonizando,

assim empeços vence, e igual triunfa.

Oh Brasil, porventura lisonjeiro

serei no meu dizer? Donde te veio

a Ciência das Leis, a Medicina,
70

a Moral, os costumes que hoje ostentas?

Quem te ensinou a perscrutar teus campos,

a pesquisar segredos, que a Natura

em cada verme, em cada flor oculta?

Quem teu gênio subiu ao firmamento,
75

e os mistérios dos astros revelou-te?

Quem a tela, de cores matizando,

mostrou-te retratada a Natureza,

teus heróis, tua história, teus costumes?

Responda a gratidão. -Avulta, oh França!
80

Marcha, prospera; e tu, Brasil, prospera;

estes meus votos são, outros não tenho.

Um povo sempre é filho de outro povo;

um homem sem cultura não avança;

sem ensino os espíritos não brilham.
85

Quem, Paris, sem amar-te pode ver-te?

E quem pode deixar-te sem saudade?

Ah! não beberei mais as eloqüentes

lições, que me apraziam, de teus mestres!

Não verei mais teu Louvre apinhado
90

de maravilhas tantas! Teus colégios,

onde vozes troavam sapientes!

Ainda a mente me pinta os de Sorbonne

vastos anfiteatros coroados

de atenta juventude! -Tudo deixo...
95

Ah! deixo ainda mais, deixo um amigo,

que raros são, e que tão poucos tenho!

Sabes com que pesar te deixo, oh Sales!

Companheiro da infância; às portas, juntos,

da Ciência batemos; ela ouviu-te,
100

abriu-te, e franqueou-te os seus tesouros.

Ainda jovem, da Pátria és já um astro,

que no seu horizonte alto rutila;

eu mísero, fosfórico meteoro

sem nome vago. -E morrerei sem nome?
105

E tu, pintor dos brasilenses bosques,

tu, que em quadros multíplices ao mundo

nossos costumes eloqüente mostras;

venerando Ancião, amigo, e mestre,

por quem já uma vez chorei saudoso,
110

e tu também choraste; hoje de novo

se reproduz tal cena; mas ao menos

tu ficas no teu lar, co'os teus, e eu parto,

parto, não para o meu. Debret, teu nome

comigo eterno irá, como ele eterno
115

passará de uma idade à outra idade.

Adeus, Paris; adeus do mundo empório.

Adeus, Sales, Debret, adeus... Amigo,

que ao teu o meu destino unir quiseste,

hoje a minha saudade igual te punge;
120

não agravemos mais nossos pesares;

vamos, meu Araújo; é tempo, vamos.


À Suíça

Tal como o caçador afadigado,

depois de em vão correr ingratos montes,

se alfim vê belo pássaro que pousa

   sobre um tronco do bosque,

alegre e duvidoso a arma prepara;
5

e quando cuida já que é presa sua,

manso o vê que se escapa, e que desliza

nos leves ares co'as talhantes plumas,

triste, desesperado à casa volta:

ou como terno amante, que de longe
10

o bem-amado avista, passeando

no jardim de seus pais; contente investe,

já em doces idéias engolfado;

   e quando perto chega,

e cuida ir desfrutar gratos momentos,
15

ela modesta e temerosa, os olhos

brandamente volvendo, se retira,

   e o malfadado deixa

entregue à dor, carpindo-se saudoso;

assim eu, oh belíssima Suíça,
20

viteus montes, teus bosques de pinheiros,

teus campos férteis co'o suor dos homens;

viteu lago tranqüilo, onde se espelha

de cima desse trono de alabastro,

o sol, mal que amanhece faiscante.
25

Assim jovem guerreiro de ouro armado,

no polido pavês atento se olha,

e contempla seu garbo, antes que saia

a discorrer os campos, coruscante.

Vi a tua cidade de Genebra,
30

tão linda como o lírio junto d'água,

tão graciosa como pura virgem,

que a roca empunha, e que meneia o fuso.

vi-te, e meu coração portas abria

   ao prazer fugitivo,
35

que mais ligeiro corre que o teu Ródano.

alma alegria a mente me orvalhava,

   tão seca de pesares;

e a saudade da Pátria que me punge,

como que adormecida, menos dura,
40

   A farpa descansava.

Esquecido de mim, do meu destino,

começava a gozar-te; -e já me foges!

Mas se tu de meus olhos disapareces,

desenhada na mente a imagem tua,
45

jamais consentirei que se esvaeça.

Oh Suíça, oh Genebra, oh país livre!

culta Cítia da Europa, solo honrado

pelos Euler, Rousseau, Haller, e Géssner,

recebe inda este adeus de um estrangeiro;
50

e praza ao céu que o último não seja,

que a ti volte, e te veja uma, e mais vezes.


Genebra, 11 de outubro de 1834

O gênio e a música

À Senhora Catalani

Sim, é certo; a Natura não se esgota;

mas providente de seu seio tira

um a um esses Gênios, que benigna

   co'os séculos reparte;

assim, sem fatigar, encômios cobra,
5

e co'a força do mágico artifício

os homens doma, os encadeia, e guia.

Dos Gênios a importância se conhece

quando, enchendo a missão, desaparecem.

se os rios as campinas fertilizam,
10

   os lavradores folgam;

mas extintas as fontes d'alma veia,

   atenuam-se os campos,

e a Natureza em torno empalidece;

aos pedregosos, descobertos leitos,
15

o homem chega, e d'água uma só gota,

para a sede aplacar, não acha, e chora;

mas lágrimas a sede não saciam!

então do bem se lembra que gozara,

   do bem que já não goza.
20

Quem não respeita o Gênio? Quem não sente

bater-lhe o coração inopinado,

quando escuta os angélicos acentos

   do ser misterioso,

   que a Natureza inspira?
25

Na culta Grécia, na guerreira Roma

endeusada a Harmonia cultos teve;

entre bárbaros povos, Galos, Francos,

Celtas, Bretões a música divina

os cruentos costumes adoçava.
30

Nos Brasílios sertões, duros Tamoios,

intrépidos Caités ao som se curvam

   da harmonia selvagem;

como divinos, de Tupã mimosos,

   seus músicos respeitam.
35

   a iluminada Europa

não desdenha entoar sagrados salmos

no Templo do Senhor; atado ao remo

o pescador ao som das vagas canta,

canta o proscrito sobre estranhas plagas,
40

e o peregrino em solitárias selvas.

O canto maternal o infante acalma,

e a cólera dos homens se desarma,

quando escuta suave melodia.

   Eis em campo o guerreiro;
45

como brioso marcha, quando troa

   a bélica trombeta!

Patrióticos hinos entoando,

sente para o valor estreito o peito.

Entre selvas de lanças, e de espadas,
50

coberto co'uma abóbada de fumo,

através de pelouros sibilantes,

   assoberbando a morte,

   vai nos braços da glória

arvorar os pendões vitoriosos!
55

   Na guerra hinos guerreiros,

   na paz canções de amores!

Tanto, oh música, podes sobre os homens,

que em toda parte imperas!

sim, que os Anjos, os céus, o sol, os mares,
60

os vales, as montanhas, as florestas,

   aves, brutos, e homens,

e essas centenas de milhões de mundos,

que cadentes vagueiam no infinito,

é um sistema harmônico, perpétuo,
65

em glória do Supremo Ser dos seres!

Rara mulher, tu viste humildes servos

deporem a teus pés dons preciosos,

que os Reis, e os Potentados te enviavam.

Tu viste os próprios Reis, e seus validos,
70

e deles homenagem recebeste.

Viste os povos da Europa arrebatados

aqui e ali ao som de teus acordos,

que embebiam nos seios d'alma o encanto.

Viste, sim viste inúmeras coroas
75

lançadas a teus pés; e prosseguias

ufana a deslizar as sibilinas

   dulcíssonas cadências.

   eis do Gênio o triunfo!

Glória ao Gênio se dê, perene, eterna!
80

Sobre um leito de rosas, e de louros,

hoje repousas, não no esquecimento,

   mas no arroubo da glória:

Como o guerreiro que na paz desfruta,

vendo os despojos dos vencidos povos,
85

grata consolação que a alma embriaga.

Tudo o que te rodeia manifesta

   teu imortal renome.

Altares te ergueria a prisca Grécia,

se a prisca Grécia te embalasse o berço.
90

Da própria filha tua a voz canora,

voz que tão alto sobe, e já promete

outro novo milagre de harmonia,

   também te louva, e exalta;

que se o nome dos pais herdam os filhos,
95

a glória filial os pais sublima.

Ah! não desdenhes receber louvores

do peregrino incógnito, que passa

   por estrangeiras plagas

sem arruído, como o mudo sopro
100

das matutinas, solitárias auras.

Mil vezes proferir ouvi teu nome

no novo, e velho mundo, e jamais pude

   augurar-me a ventura

de te ver, de te ouvir, e mais ainda,
105

de receber de ti sinais de estima.

Longe da Pátria o viajor saudoso

bem raras vezes o prazer encontra.

De cidade em cidade andado tenho,

reinos atravessei, cantões, e vilas,
110

vinguei gelados Alpes, e Apeninos,

vales desci sombrios, subi torres,

sempre co'a Pátria minha na lembrança;

como a andorinha que de teto em teto

salta, sem que se esqueça de seu ninho.
115

Tudo da Pátria a idéia me revive,

   mas nada me consola;

em parte alguma não achei ainda

um coração de pai, de mãe, de amigo,

que vendo-me partir, pesar sentisse,
120

e ao menos me dissesse: -Deus te guie.

Sublime Catalani, tu me honraste!

Talvez única sejas, que te lembres

   do peregrino errante,

quando ele, já na Pátria rodeado
125

dos velhos pais, de irmãos, e dos amigos,

refrescando a memória das viagens,

   entre, os que viu, prodígios,

cheio de comoção, citar teu nome,

e dizer: eu a vi; falei com ela!
130

Pago ao Gênio um tributo merecido,

que a gratidão me inspira;

fraco tributo, mas nascido d'alma.


Florença, 20 de novembro de 1834

No álbum da ilustríssima e excelentíssima senhora D. Joana Marques Lisboa

Um mundo oculto, mais real, mais belo

que o mundo exterior, nossa alma encerra.

Aí a fantasia, hábil pintora,

ora mil quadros reproduz da terra,

ora de outros mil quadros criadora,
5

   quadros de alma doçura,

instantes nos outorga de ventura.

Oh fantasia, oh único refúgio

   do mísero proscrito!

Tu, para consolar o peito aflito,
10

os passados prazeres nos retratas;

as pandas asas das prisões desatas,

e pelos pátrios ares deslizando,

que sublimes visões nos vais pintando!

Oh! se é belo, sentado à sombra amiga
15

   do pátrio cajueiro

   de frutos esmaltado,

onde o saudoso sabiá se abriga,

onde pousa o colibri, e o gaturamo;

se é doce ouvir terníssimo reclamo
20

   do lindo coro alado,

   da aurora pregoeiro,

que àceleste mansão nossa alma eleva

   quanto é mais belo, ausente,

à parca sombra do álamo estrangeiro,
25

ouvindo o rouxinol cantar amores,

   da Pátria então lembrar-se,

   lembrar-se de um parente,

de um amigo da infância, de um remanso,

onde, fruindo o aroma de mil flores,
30

ao som estrepitoso da corrente,

tantas vezes achamos o descanso

às infantis fadigas!

Oh! como é doce então a alma engolfar-se

nas cenas do passado!
35

Tudo vem ante nós apresentar-se

nesse querido instante!

Nossa alma, entre mil cenas delirante,

ouve a voz da saudade que murmura;

   a saudade, a saudade,
40

esse triste prazer que não se explica,

agro prazer de um coração magoado,

   prazer que se mistura

com dor, com aflição, saudosa angústia

que nos punge, nos rói, nos vivifica.
45

assim nestas estranhas, longes plagas

   se nos antolha a Pátria!

E por ela em cada inverno

de contínuo suspiramos,

e mesmo na primavera
50

inda dela nos lembramos.

Cada quadro nos desperta

a cadeia interrompida

de gratas reminiscências

da nossa passada vida.
55

   Assim, assim um dia,

   já sob o céu Brasílio,

como um sonho, da Europa a bela imagem

ressurgindo na nossa fantasia,

despertará saudades deste exílio.
60

Então entre mil cenas divagando,

do passado as idéias refrescando,

ante nós se erguerá também Bruxelas,

seus parques, seus jardins, e as torres belas

dos seus templos, e góticos palácios.
65

Então, talvez então, vendo este livro,

que quadros vos recorda tão diversos,

vos lembrareis do errante, jovem vate,

que estes versos traçou, saudosos versos.

Os gratos dias,
70

que aqui gozei,

ante minha alma

sempre os terei.

Os inocentes,

gratos penhores,
75

anjos da terra

encantadores,

que tantas vezes

eu afagava,

e em grato enlevo,
80

os abraçava;

esta harmonia

do par ditoso;

em vós beleza,

amor no esposo;
85

candura em todos,

terna bondade,

dotes sublimes

da Divindade

jamais minha alma
90

olvidará,

e de vós sempre

se lembrará.


Bruxelas, 21 de junho de 1836

- XII -

Adeus à Europa

Adeus, oh terras da Europa!

Adeus, França, adeus, Paris!

Volto a ver terras da Pátria,

vou morrer no meu país.

Qual ave errante, sem ninho,
5

oculto peregrinando,

visitei vossas cidades,

sempre na Pátria pensando.

De saudade consumido,

dos velhos pais tão distante,
10

gotas de fel azedavam

o meu mais suave instante.

As cordas de minha lira

longo tempo suspiraram,

mas alfim frouxas, cansadas
15

de suspirar, se quebraram.

Oh lira do meu exílio,

da Europa as plagas deixemos;

eu te darei novas cordas,

novos hinos cantaremos.
20

Adeus, oh terras da Europa!

Adeus, França, adeus, Paris!

Volto a ver terras da Pátria,

vou morrer no meu país.


Paris, agosto de 1836

FIM