A comadre em exercício
Os leitores devem estar lembrados de que o nosso antigo conhecido, de quem por algum tempo nos temos esquecido, o Leonardo-Pataca, apertara-se em laços amorosos com a filha da comadre, e que com ela vivia em santa e honesta paz. Pois este viver santo e honesto deu em tempo oportuno o seu resultado. Chiquinha (era este o nome da filha da comadre), achou-se de esperanças e pronta a dar à luz. Já vêem os leitores que a raça dos Leonardos não se há de extinguir com facilidade. Leonardo-Pataca não perdia por modo algum aqueles hábitos de ternura com que sempre o conhecemos, e nas atuais circunstâncias, quando ele via às portas da vida um fruto do seu derradeiro amor, crescia-lhe n'alma aquela violenta chama do costume; o pobre homem ardia todo por dentro e por fora, e desfazia-se em carinhos para com sua companheira.
Chegou finalmente o dia de aparecer o desejado resultado: ao amanhecer manifestara os primeiros sintomas. Leonardo levantou logo uma poeira em casa: andava de dentro para fora pretendendo fazer mil coisas, e sem fazer coisa alguma, atrapalhado e tonto. Mandou chamar a comadre, que pronta acudiu ao chamado, e começaram-se a arranjar os preparativos. Talvez alguns leitores tenham idéia do mundo infinito de arranjos que naquele tempo se punha em giro em semelhantes ocasiões. A primeira coisa a que o Leonardo-Pataca providenciou foi a que se mandassem dar as nove badaladas no sino grande da Sé. Esta prática só costumava ter lugar quando a parturiente se achava em perigo, porém ele quis prevenir tudo a tempos e a horas. Mandou-se depois pedir à vizinha, pois por um descuido imperdoável não havia em casa, um ramo de palha benta; a comadre trouxe um par de bentinhos da Senhora do Monte do Carmo que tinham grande reputação de milagrosos, e o lançou ao pescoço da Chiquinha. Pôs a palha benta ao lado da cabeceira; na sala improvisou-se um oratório com uma toalha, um copo com arruda e uma imagem de Nossa Senhora da Conceição de louça, enfeitada com cordões de ouro. Chiquinha, para nada esquecer das regras estabelecidas, amarrou à cabeça um lenço branco, meteu-se embaixo dos lençóis, e começou a rezar ao santo de sua devoção. A comadre assentou-se aos pés da cama em uma banquinha, e desunhava também em um grande rosário, observando entretanto a Chiquinha, e interrompendo-se a cada instante para dar ordens ao Leonardo-Pataca, e responder ao que fora do quarto se dizia.
Leonardo-Pataca, depois de tudo arranjado, quando viu que a única coisa que restava era esperar a natureza, como dizia a comadre, pôs-se em menores, quero dizer, despiu os calções e o colete, ficou em ceroulas e chinelas, amarrou à cabeça, segundo um antigo costume, um lenço encarnado, e pôs-se a passear na sala de um lado para outro, com uma cara de fazer dó: parecia que era ele e não Chiquinha quem se achava com dores de parto. De vez em quando parava à porta do quarto que se achava cerrada, lançava para dentro um olhar de curiosidade e medo, e abanando a cabeça murmurava:
-Não sirvo para isto... estas coisas não se dão com o meu gênio... Estou a tremer como se fosse o negócio comigo...
E realmente a cada gemido forte que partia do quarto o homem estremecia e fazia-se de mil cores.
Dentro do quarto a comadre exortava a padecente, pouco mais ou menos nestes termos:
-Não vos façais de criança, menina... isso não é nada... é um pau por um olho... Não tarda aí um Bendito, e estais já livre. Estas coisas na minha mão andam depressa. Verdade seja que é o primeiro, e isto causa seu medo, mas não é coisa que valha estares agora tão desanimada; é preciso também ajudar a natureza. «Faze da tua parte que eu te ajudarei!» São palavras de Jesus Cristo.
A padecente estava porém a morrer de susto: nem se moveu à exortação da comadre. Entretanto o tempo ia passando, e a pobre rapariga a sofrer; já lhe tinha a comadre arranjado de um modo diverso os bentinhos no peito, já tinha inclinado mais sobre a cama a palma benta, e ainda nada de novo. O Leonardo-Pataca começava a impacientar-se; de vez em quando chegava à porta do quarto, e perguntava com voz esmorecida:
-Então?...
-Compadre, respondia a comadre, já lhe disse que não é bom a quem está neste estado estar ouvindo voz de homem: esteja calado e espere lá.
Continuava o tempo a passar: a comadre saiu do quarto e veio acender uma nova vela benta a Nossa Senhora, e depois de uma breve oração voltou ao seu posto. Tirou então do bolso da saia uma fita azul comprida e passou-a em roda da cintura da Chiquinha; era uma medida de Nossa Senhora do Parto. Depois disse com ar de triunfo:
-Ora, agora vamos a ver, porque isto já não vai do meu agrado... Mas a culpa também é sua, menina, já lhe disse que é preciso ajudar a natureza. Passou-se ainda algum tempo. De repente a comadre gritou para fora:
-Ó compadre, dê cá lá uma garrafa...
O Leonardo-Pataca obedeceu prontamente. Ouviu-se então dentro do quarto o som que produziria uma boca humana a soprar com toda a força dentro de alguma coisa. Era Chiquinha que por ordem da comadre soprava a morrer de cansaço dentro da garrafa que esta mandara vir.
-Com força, menina, com bem força, e Nossa Senhora não desampara os fiéis. Ânimo, ânimo; isto o mais que sucede é uma vez por ano. Desde que nossa mãe Eva comeu aquela maldita fruta ficamos nós sujeitas a isto. «Eu multiplicarei os trabalhos de teu parto.» São palavras de Jesus Cristo!
Já se vê que a comadre era forte em história sagrada.
Ao Leonardo-Pataca tremiam-lhe cá fora tanto as pernas, que não pudera mais continuar no passeio, e achava-se sentado a um canto com os dedos nos ouvidos.
-Soprai, menina, continuava sempre dentro a comadre, soprai com Nossa Senhora, soprai com S. João Batista, soprai com os Apóstolos Pedro e Paulo, soprai com os anjos e serafins da Corte Celeste, com todos os santos do paraíso, soprai com o Padre, com o Filho e com o Espírito Santo.
Houve finalmente um instante de silêncio, que foi interrompido pelo choro de uma criança.
-Ora, lá vai o mau tempo, exclamou a comadre; bem dizia eu que isto não era mais do que um pau por um olho... Ah! Sr. compadre, chegue, que é agora a sua vez, venha ver a sua pequerrucha...
-É uma pequerrucha!... exclamou o Leonardo-Pataca fora de si; ora, isto é de bom agouro, porque com o outro que saiu macho não fui feliz.
Recendeu então pela casa um agradável cheiro de alfazema; a comadre veio à sala, apagou as velas que estavam acesas a Nossa Senhora; foi depois desatar a fita da cintura da Chiquinha e tirar-lhe do pescoço os bentinhos.
A recém-nascida, enfraldada, encueirada, encinteirada, entoucada e com um molho de figas e meias-luas, signos de Salomão e outros preservativos de maus-olhados presos ao cinteiro, passava das mãos de Chiquinha para as do Leonardo-Pataca, que não cabia em si de contentamento; era uma formosa criancinha, em tudo o oposto de seu irmão paterno o nosso amigo Leonardo, mansa e risonha.
O Leonardo-Pataca recorreu imediatamente à folhinha para ver que nome trazia a menina; porém como este lhe não agradasse, travou logo com Chiquinha uma questão a respeito do nome que se lhe devia dar.
A comadre aproveitou-se disso para dar conta dos últimos arranjos, e depois envergou a mantilha e saiu para acudir a outras necessitadas.
Trama
Como esta cena que acabamos de pintar tinha a comadre muitas outras todos os dias, porque era uma das parteiras mais procuradas da cidade; gozava grande reputação de muito entendida, e ainda nos casos mais graves era sempre a escolhida com os seus milagrosos bentinhos, a palma benta, a medida de Nossa Senhora, a garrafa soprada, e com a invocação de todas as legiões de santos, de serafins e de anjos livrava-se ela dos maiores apertos. E ninguém lhe fosse dar regras, que as não ouvia, nem do físico-mor, se nisso se metesse: era só olhar para uma mulher de esperanças, e dizia-lhe logo sem grande trabalho o sexo, o tamanho do filho que trazia nas entranhas, e com uma pontualidade miraculosa o dia e hora em que teria de ver-se desembaraçada; até às vezes, por certos sinais que só ela conhecia, chegava a dizer qual seria o gênio e as inclinações do ente que ia ver à luz. Já se vê que esta vida era trabalhosa e demandava sérios cuidados; porém a comadre dispunha de uma grande soma de atividade; e, apesar de gastar muito tempo nos deveres do ofício e na igreja, sempre lhe sobrara algum para empregar em outras coisas. Como dissemos, ela havia tomado a peito a causa dos amores de Leonardo com Luizinha, e jurara pôr José Manuel, o novo candidato, fora da chapa.
Começou pois a ocupar o seu tempo disponível nesse grave negócio, e movia uma intriga surdíssima e constante contra o rival de seu afilhado. Gozando da intimidade e do crédito de D. Maria, não perdia junto dela ocasião de desconceituar José Manuel, o que era-lhe tanto mais fácil quanto ele prestava-se a isso, e D. Maria, de espírito demandista e chicaneiro, dava o cavaco por um mexerico. Eis aqui uma das que ela armou ao adversário.
Todos sabem nesta cidade onde é o Oratório de Pedra; mas o que todos talvez não saibam é para que serviu ele em outros tempos. Sem dúvida naquele oratório havia a imagem de algum santo, e o povo devoto ia ali rezar? Exatamente. Mas por que é que hoje não continua essa prática, por que apenas se conserva sobre a parede aquela espécie de guarita de pedra, sem imagem alguma, sem luz à noite, e diante da qual passam todos irreverentemente sem tirar o chapéu e curvar o joelho? Primeiro que tudo extinguiu-se isso pela razão por que se extinguiram muitas coisas boas daquele bom tempo; começaram todos a aborrecer-se de achá-las boas, e acabaram com elas. Depois houve a respeito do Oratório de Pedra muito boas razões policiais para que ele deixasse de ser o que era.
O leitor, que sem dúvida sabe muito bem de quanto eram nossos pais crentes, devotos e tementes a Deus, se admirará talvez de ler que houve razões policiais para a extinção de um oratório. Entretanto é isso uma verdade, e se fosse ainda vivo o nosso amigo Vidigal, de quem já tivemos ocasião de falar em alguns capítulos desta historieta, poderia dizer quanto garoto pilhou em flagrante delito, ali mesmo aos pés do oratório, ajoelhado, contrito e beato.
Quando passava a via-sacra e que se acendia a lâmpada do oratório, o pai de família que morava ali pelas vizinhanças tomava o capote, chamava toda a gente de casa, filhos, filhas, escravos e crias, e iam fazer oração ajoelhando-se entre o povo diante do oratório. Mas se acontecia que o incauto devoto se esquecia da filha mais velha que se ajoelhava um pouco mais atrás e embebido em suas orações não estava alerta, sucedia-lhe às vezes voltar para casa com a família dizimada: a menina aproveitava-se do ensejo, e sorrateiramente escapava-se em companhia de um devoto que se ajoelhara ali perto, embrulhado no seu capote, e que ainda há dois minutos todos tinham visto entregue fervorosamente a suas súplicas a Deus.
Aquilo era a execução do plano concertado na véspera ao cair de ave-marias, através dos postigos da rótula. Outras vezes, quando estavam todos os circunstantes entregues à devoção, e que a ladainha entoada a compasso enchia aquele circuito de contrição, ouvia-se um grito agudo e doloroso que interrompia o hino; corriam todos para o lugar donde partira, e achavam um homem estendido no chão com uma ou duas facadas.
Não levamos ainda em conta as inocentes caçoadas que a todo o instante faziam os gaiatos. Eis aqui pois por que, além de outros motivos, dissemos que tinham havido razões policiais para que se acabasse com as piedosas práticas do Oratório de Pedra.
No tempo em que se passavam as cenas que temos narrado, ainda o Oratório de Pedra estava no galarim. Um ou dois dias depois do nascimento do segundo filho de Leonardo-Pataca correu pela cidade a notícia de um grande escândalo que se passara nesse lugar clássico dos escândalos: uma moça, que vivia em companhia de sua mãe, velha, rica e devota, indo com ela rezar junto ao Oratório, na ocasião da passagem da via-sacra, fugira, tendo levado consigo um pé de meia preta contendo uma boa porção de peças de ouro. Falava-se muito no caso, não porque fosse naquele tempo coisa de estranhar-se, mas porque havia um mistério no sucesso: ninguém sabia com quem tinha fugido a moça.
D. Maria, como todos, estava ansiosa por ver deslindada a questão, quando lhe apareceu em casa a comadre que a vinha visitar.
D. Maria estava sentada na sua banquinha, tendo diante de si uma enorme almofada de renda carregada com seis ou sete dúzias de bilros, e esmerava-se em fazer um largo pegamento. A seu lado, sentada em uma esteira, cercada por uma porção de negrinhas, crias de D. Maria, estava Luizinha também ocupada em fazer renda.
Quando a comadre entrou, D. Maria largou imediatamente a almofada do colo, tirou do nariz e pôs na testa um par de óculos de aros de prata com que trabalhava, e começou logo por tocar no caso que a preocupava. A comadre fez sinal que mandasse retirar Luizinha e as mais crianças; e a conversa caminhou livremente.
-Então que me diz, senhora, da desgraça da pobre velha? Criar a gente uma rapariga com todo o carinho, e no fim ter aquela recompensa!... no meu tempo não se viam coisas destas...
-Que quer, senhora? respondeu a comadre; pois foi ali, nas barbas de todos. Não havia um instante que ela havia chegado com a velha, e que se tinham todas duas ajoelhado ao pé de mim...
-Ao pé da comadre? Pois a comadre estava lá?...
-Estava... que antes não estivesse...
-Mas o diabo, senhora, acrescentou D. Maria, é ninguém saber quem foi o maldito que fugiu com ela...
A comadre interrompeu, dando uma risadinha sardônica.
-Tenho perguntado a todos, e ninguém sabe dizer-me.
-É porque todos estavam cegos...
-Como?
-Mas não o estava eu, por mal de meus pecados, que antes estivesse...
-Pois viu e sabe com quem foi... disse D. Maria, remexendo-se de prazer em cima da banquinha.
A idéia de poder saber de uma novidade que todos ignoravam encheu-a de contentamento.
-Mas então quem foi, vamos; quero saber quem foi o ladrão da moça e do dinheiro...
-Só lhe direi, respondeu a comadre depois de alguma hesitação, se me prometerdes guardar todo o segredo, que o caso é muito sério.
-Ora, bem sabe que eu... é o mesmo que cair num poço.
Apesar de estarem sós, a comadre inclinou-se ao ouvido de D. Maria, e disse-lhe o mais baixinho que pôde:
-Foi o nosso grande camarada... a boa peça do José Manuel...
-O que é que diz, comadre?
-Vi, respondeu esta, arregalando com dois dedos os olhos, com estes que a terra há de comer... Se eles estavam ao pé de mim...
D. Maria ficou por algum tempo muda de estupefação.
Derrota
Aquelas últimas palavras da comadre produziram sobre D. Maria o efeito de um raio: a velha remexeu-se na banquinha, tomada do maior desapontamento.
-Ora, comadre, exclamou depois da primeira emoção, esta não lembra ao diabo... por isso eu sigo a regra antiga de me não fiar em coisa que traz calções... Safa... que esta pôs-me sal na moleira.
A comadre, vendo estas boas disposições, aproveitava-se delas para fazer melhor o seu papel, e respondeu:
-Pois também o que se havia de esperar de um sujeito como aquele?... Um homem que não abre a boca que não minta... que tem uma língua de Lúcifer?... Quem contasse com aquilo era mesmo para se perder.
-É verdade, senhora; nunca vi mentiroso, nem maldizente maior...
Nunca D. Maria até então tinha encontrado em José Manuel as qualidades que agora descobria tanto em relevo.
-Se eu fosse parente da rapariga havia pôr uma demanda ao tal diabo que o havia ensinar... Por isso é que ele me não aparecia por cá há tanto tempo... andava cuidando nos seus arranjos.
Mal tinha D. Maria acabado de pronunciar estas últimas palavras quando se ouviu bater à porta, e a voz de José Manuel pedir licença.
-Aí está ele... segredo... não quero que se saiba que fui eu, disse a comadre apressada.
-Ora, respondeu D. Maria, eu cá para isso sou boa.
José Manuel entrou. D. Maria, que não costumava guardar o que sentia, recebeu-o friamente; a comadre porém fez-lhe um rasgado cumprimento.
-Seja bem aparecido, disse, bons olhos o vejam.
-Tenho andado aí ocupado com alguns arranjos...
-Arranjos... disse D. Maria trocando com a comadre um olhar significativo.
José Manuel, inocente em tudo, ficou pasmo, sem entender o que queria aquilo dizer; entretanto, segundo o costume, não perdeu ocasião de armar uma peta.
-Sim, uns arranjos, acrescentou; houve um negócio muito sério em que estive metido, e que me ia dando bem que fazer; sinto não lhe poder contar, porque é segredo.
A comadre fez um gesto, como quem queria dizer -aí vem uma peta; D. Maria, porém, que estava preocupada pela conversa que há pouco tivera, entendeu que José Manuel se referia ao roubo da moça; e abanando a cabeça, disse por entre os dentes:
-Hum... entendo...
A comadre estremeceu temendo que D. Maria não desse com a língua nos dentes, e que a questão do roubo da moça tivesse de ser averiguada em sua presença; porque nesse caso seria ela apanhada em flagrante mentira, e estava tudo perdido. Começou portanto a provocar a José Manuel a que declarasse qual era o negócio sério em que estivera metido; contava com algumas das petas continuadas, e assim se desviaria a conversa do ponto que ela não queria ver tratado em sua presença.
Deixemo-la nesse empenho lutar com as negaças e fingidos mistérios de José Manuel.
Desde o dia em que Leonardo fizera a sua declaração amorosa, uma mudança notável se começou a operar em Luizinha, a cada hora se tornava mais sensível a diferença tanto do seu físico como do seu moral. Seus contornos começavam a arredondar-se; seus braços, até ali finos e sempre caídos, engrossavam-se e tornavam-se mais ágeis; suas faces magras e pálidas, enchiam-se e tomavam essa cor que só sabe ter o rosto da mulher em certa época da vida; a cabeça, que trazia habitualmente baixa, erguia-se agora graciosamente; os olhos, até aqui amortecidos, começavam a despedir lampejos brilhantes; falava, movia-se, agitava-se.
A ordem de suas idéias alterava-se também; o seu mundo interior, até então acanhado, estreito, escuro, despovoado, começava a alargar os horizontes, a iluminar-se, a povoar-se de milhões de imagens, ora amenas, ora melancólicas, sempre porém belas.
Até então indiferente ao que se passava em torno de si, parecia agora participar da vida, de tudo que a cercava; gastava horas inteiras a contemplar o céu, como se só agora tivesse reparado que ele era azul e belo, que o sol o iluminava de dia, que se recamava de estrelas à noite.
Tudo isto dava em resultado, pelo que diz respeito ao nosso amigo Leonardo, um aumento considerável de amor; também ele foi o primeiro que deu fé daquelas mudanças em Luizinha. Entretanto, apesar de lhe crescer o amor nem por isso lhe nasciam mais esperanças.
Depois da declaração não se tinha adiantado nem mais uma polegada, e a única coisa talvez que o alentava era um certo rubor que súbito subia às faces de Luizinha quando acontecia (raras vezes) que se encontrassem os olhos dela com os seus. A soma total destas adições era uma raiva que lhe crescia n'alma, aumentando todos os dias de intensidade contra José Manuel, a quem em seus cálculos atribuía todo o seu atraso.
Dadas estas explicações, voltemos a dar conta do resto da cena que deixamos suspensa.
À força de instâncias a comadre conseguiu que José Manuel referisse qual o negócio de alto segredo em que se tinha achado envolvido.
-Pois bem, disse ele finalmente, se prometem toda a discrição, contarei.
-Ora, nem tem que recomendar isso.
Com as negaças e mistérios que tinha guardado até então, José Manuel não fizera mais do que ganhar tempo para imaginar a mentira que havia de pregar: a comadre contava com isso.
Ele começou:
-Saibam vm.cês que fui um destes dias chamado a palácio...
-Ui! exclamou a comadre.
-Aí está o resultado, disse D. Maria; mas não se pagam na outra vida, é mesmo nesta.
-Resultado de quê? perguntou José Manuel surpreendido.
-De nada; continue.
José Manuel enfiou então tomando por tema aquelas primeiras palavras que lhe tinham vindo à boca, uma mentira muito sem sabor, que nós poupamos aos leitores. Não foram porém satisfeitas as vistas da comadre, que queria desviar a conversa do furto da moça.
Terminada a história, José Manuel começou a instar com D. Maria para que lhe desse explicação das palavras duvidosas que há pouco havia dito a seu respeito. A comadre, assim que viu o negócio neste pé, foi tratando de retirar-se, depois de trocar com D. Maria um olhar que queria dizer: -Não me comprometa.
D. Maria a princípio quis sustentar o segredo; afinal não se pôde conter, e soltou contra José Manuel uma grande alicantina, dizendo que toda a cidade estava cheia do horroroso escândalo que ele acabava de cometer roubando uma filha-família.
O homem foi às nuvens, e jurou e trejurou que estava inocente em tudo aquilo. Nada porém lhe valeu.
D. Maria foi inflexível.
Protestou de novo que se ela fosse parenta da moça o Sr. José Manuel se havia de ver em calças pardas com o negócio; e terminou por dar-lhe a entender que ele era um homem muito perigoso para ser admitido em uma casa de família.
José Manuel saiu completamente corrido e cismando em quem poderia ter sido o autor de semelhante intriga.
Quanto a D. Maria, ficou muito satisfeita, pois, tendo no seu caráter um grande fundo de honestidade, julgava ter feito uma boa ação rompendo com José Manuel, que ficara com efeito, como o calculara a comadre, perdendo muito no seu conceito.
O mestre-de-reza
Tudo que ultimamente se passara em casa de D. Maria havia posto a andar à roda a cabeça de José Manuel; conheceu que tinha ali inimigo, fosse quem fosse, pois que aquilo não passava certamente de intriga que lhe tinham armado. Restava-lhe porém saber quem seria esse inimigo; e por mais que desse voltas ao miolo não atinava com ele. Pelo gênero da intriga conheceu que a causa do que lhe faziam era seguramente a sua pretensão a respeito de Luizinha, que sem dúvida tinha sido percebida; começou a suspeitar que tinha de haver-se com um rival. Na roda que freqüentava a casa de D. Maria ninguém via que lhe parecesse poder estar nesse caso: passou-lhe muitas vezes pela lembrança o moço Leonardo; porém achava-o incapaz de se meter nessas coisas.
Assim são os velhacos!! Quantas vezes estão tocando o inimigo com as mãos, e não o vêem, e não o sentem!
Partisse porém donde partisse o golpe que o ferira, o caso é que fora dado certeiro, e a duas mãos.
D. Maria, extremosa em suas afeições, como em seus ódios, consentiria com imensa dificuldade na reabilitação de José Manuel; entretanto ele não esfriou por isso, e pôs mãos à obra. Por uma singularidade, assim como Leonardo tinha achado na comadre uma protetora à sua causa, também José Manuel achou um procurador para a sua.
Vamos já dizer aos leitores quem era o procurador de José Manuel.
Havia no tempo em que se passam estas cenas instituições muito curiosas no Rio de Janeiro; algumas eram notáveis por seu fim, outras por seus meios. Entre essas uma havia de que ainda em nossa infância tivemos ocasião de ver alguns destroços, era a instituição dos mestres-de-reza.
O mestre-de-reza era tão acatado e venerado naquele tempo como o próprio mestre de escola; além do respeito ordinariamente tributado aos preceptores, dava-se uma circunstância muito notável, e vem a ser que os mestres-de-reza eram sempre velhos e cegos. Não eram em grande número, por isso mesmo viviam portanto em grande atividade, e ganhavam sofrivelmente. Andavam pelas casas a ensinar a rezar aos filhos, crias e escravos de ambos os sexos.
O mestre-de-reza não tinha traje especial: vestia-se como todos, e só o que o distinguia era ver-se-lhe constantemente fora de um dos bolsos o cabo de uma tremenda palmatória, de que andava armado, compêndio único por onde ensinava a seus discípulos.
Assim que entravam para a lição reunia em um semicírculo diante de si todos os discípulos; puxava do bolso a tremenda férula, colocava-a no chão, encostada à cadeira onde se achava sentado, e começava o trabalho.
Fazia o mestre em voz alta o pelo-sinal, pausada e vagarosamente, no que o acompanhavam em coro todos os discípulos. Quanto a fazerem os sinais era ele quase sempre logrado, como facilmente se concebe, porém pelo que toca à repetição das palavras, tão prático estava, que, por maior que fosse o número dos discípulos, percebia no meio do coro que havia faltado esta ou aquela voz, quando alguém se atrevia a deixar-se ficar calado. Suspendia-se então imediatamente o trabalho, e o culpado era obsequiado com uma remessa de bolos, que de modo nenhum desmentiam a reputação de que goza a pancada de cego. Feito isto, recomeçava o trabalho, voltando-se sempre ao princípio de cada vez que havia um erro ou falta. Acabado o pelo-sinal, que, com as diversas interrupções que ordinariamente tinha, gastava boa meia hora, repetia o mestre sozinho sempre e em voz alta e compassada a oração que lhe aprazia; repetiam depois o mesmo os discípulos do primeiro ao último, de um modo que nem era falado nem cantado; já se sabe, interrompidos a cada erro pela competente remessa de bolos. Depois de uma oração seguia-se outra, e assim por diante, até terminar a lição pela ladainha cantada.
Ao sair recebia o mestre uma pequena espórtula do dono da casa.
D. Maria, tendo em sua casa um número não pequeno de crias, não se dispensava de ter, como todos que estavam em suas circunstâncias, o seu mestre-de-reza. Era este um cego muito afamado pelo seu excessivo rigor para com os discípulos, e por conseqüência um dos mais procurados; nesse tempo exigia-se antes de tudo essa qualidade. Tinha também outro mérito: corria a seu respeito a fama de bom arranjador de casamentos.
Eis aí o procurador de José Manuel.
José Manuel já antes o tinha posto de mão, e agora que se viu em perigo recorreu a ele; expôs-lhe o caso, comunicou-lhe suas intenções, e pediu-lhe a sua cooperação. Fez-lhe sentir sobretudo que havia um rival a combater, e muito temível, pois que não era conhecido. O velho começou então a tomar as mais minuciosas informações, e depois de calcular por algum tempo disse:
-Já sei com quem me tenho que haver...
-Então com quem é?... acudiu José Manuel apressado.
-Vá descansado, não se importe com o resto.
-Mas, homem, olhe que é preciso muito cuidado; porque, quem quer que é, é fino como os trezentos...
-Ora qual... histórias... desses arranjos entendo eu dormindo, e vejo nisso, sendo cego, melhor do que muitos com seus olhos perfeitos.
-É uma coisa que me põe à roda o miolo não poder descobrir quem se intromete nos meus negócios... olhe que a tal entrega do furto da moça foi de mestre.
-Eu também sou mestre, e veremos quem ensina melhor.
Ficaram os dois nisto; e o cego pôs mãos à obra.
Devemos prevenir o leitor que a causa em semelhantes mãos, se não se podia dizer decididamente ganha, pelo menos ficava arriscada; e o que vale é que do outro lado estava a comadre.
O velho começou o seu trabalho em regra: logo na primeira noite que foi dar lição à casa de D. Maria começou por fazer cair a conversa a respeito do roubo da moça, e deu a entender que sabia do caso e conhecia perfeitamente quem tinha sido o autor dele. D. Maria disse também que sabia quem era, e que até o conhecia muito. O velho sorriu-se, deixando apenas escapar em tom de dúvida um significativo -Qual... - D. Maria franziu o sobrolho, levantou os óculos e exclamou:
-Pois então pensa que eu ando atrasada nestas coisas?... Ora deixe-se... Sei quem foi, e sei muito e muito bem. É um pedaço de mariola com cara de sonso, que só me há de morar em casa se eu algum dia for carcereira.
-É isso tudo, mas a Sra. D. Maria não conhece o homem, digo-lhe eu, que também ando ao fato deste negócio todo.
-Bem sei, bem sei... mas olhe que eu também soube de parte muito certa... e não há nada mais fácil do que ver quem está enganado... Diga lá o senhor quem foi.
-Oh! Não! Isso nunca, exclamou apressadamente o velho pondo-se em pé; nada, eu cá não quebro segredo de ninguém.
D. Maria remexeu-se toda de aflição; e por mais que instasse nada pôde arrancar do velho, que, para fazer melhor o seu papel, se foi logo retirando, dando assim a entender que queria cortar a conversa naquele ponto.
Quando mais não tivesse conseguido, o velho tinha ao menos lançado a dúvida no espírito de D. Maria a respeito do fato, que era para ela a pedra e escândalo contra José Manuel.
Transtorno
Enquanto todas estas coisas se passavam, um triste sucesso, e da mais alta importância, veio alterar a vida de Leonardo, ou transtorná-la mesmo: o compadre caiu gravemente enfermo. A princípio a moléstia pareceu coisa de pouca monta, e a comadre, que foi a primeira chamada, pretendeu que todo o incômodo desapareceria dentro de dois dias, tomando o doente alguns banhos de alecrim. Nada porém se conseguiu com a receita; o mal continuou. Recorreram então a um boticário conhecido da comadre, que juntara ao seu mister, não sabemos se com permissão das leis ou sem ela, o mister de médico.
Era um velho, filho do Porto, que aqui se viera estabelecer há muitos anos, e que ajuntara no oficio boas patacas. Apenas chegou e viu o doente declarou que em poucos dias o poria de pé; bastava que ele tomasse umas pílulas que lhe ia mandar da sua botica: eram um santo remédio, segundo dizia, mas custavam um bocadinho caro, porém valia a vida de um homem. A comadre quando ouviu falar em pílulas franziu a testa.
-Pirolas, disse consigo; então o negócio é sério; e eu, que tenho má-fé com pirolas; ainda não vi uma só pessoa que as tomasse que escapasse.
E avermelharam-se-lhe imediatamente os olhos.
O boticário retirou-se levando consigo o Leonardo, que trouxe as pílulas. A comadre, olhando para elas, abanou a cabeça.
-Ora, disse, eu pensei que ele lhe mandasse dar alguns banhos; cá por mim com alecrim havia de pô-lo bom.
A comadre tinha razão até certo ponto, pois que no fim de três dias, depois de feitos todos os preparos religiosos, o compadre deu a alma a Deus.
D. Maria tinha sido chamada nesse mesmo dia, e compareceu com Luizinha e com todo o seu batalhão de crias; tinham vindo também algumas outras pessoas da vizinhança.
Estavam todos sentados em um grande canapé, na varanda, e conversavam muito entretidos sobre os objetos mais diversos; algumas achavam mesmo na conversação motivo para boas risadas; de repente abriu-se a porta do quarto, e a comadre saiu de dentro com o lenço nos olhos, soluçando desabridamente e repetindo em altos gritos:
-Bem dizia eu que tinha pouca fé nas pirolas; está para ser o primeiro que eu as veja tomar e que escape... Coitado do compadre... tão boa criatura... nunca me constou que fizesse mal a ninguém...
Estas palavras da comadre foram o sinal de rebate dado à dor dos que se achavam presentes; desatou tudo a chorar, e cada qual o mais alto que podia. O Leonardo sofreu um grande choque, e no meio do seu atordoamento encolheu-se em cima do canapé com a cabeça sobre os joelhos, chegando-se, naturalmente sem o querer, porque a dor o perturbava, o mais perto possível de Luizinha. Continuaram as mais no seu coro de pranto dirigido pela comadre; mas não se contentavam só com o pranto, soltavam também algumas vezes exclamações em honra do defunto.
-Sempre foi muito bom vizinho, nunca tive escândalos dele, dizia uma.
Era a vizinha que augurava mau fim ao Leonardo, e com quem o compadre brigara por este motivo umas poucas de vezes.
-Boa alma, dizia D. Maria, boa alma; havia de ser como ele quem quisesse ter boa alma.
-Eu que lidei com ele, dizia a comadre, é que sei o que ele valia; era uma alma de santo num corpo de pecador.
-Bom amigo...
-E muito temente a Deus...
Prolongada esta cena por algum tempo, despediram-se algumas pessoas, outras ficaram ainda. Foi serenando o pranto, e daí a pouco D. Maria, enxugando ainda os olhos, explicava detalhadamente a uma outra senhora que se achava junto dela a história genealógica de cada uma de suas crias que se achavam presentes.
Finalmente retiraram-se todos, exceto D. Maria, a sua gente e a comadre, que estava desde que o compadre adoecera tomando conta da casa.
Aproximou-se a noite; acenderam-se velas junto do defunto; fizeram-se todos os mais arranjos do costume.
D. Maria e a comadre começaram a conversar, porém baixinho.
-Então, senhora, principiou D. Maria, este homem não havia morrer assim sem ter feito seu testamento; pois ele não havia de querer deixar no mundo o afilhado ao desamparo para os ausentes se gozarem do que a ele lhe custou tanto trabalho.
-A mim, respondeu a comadre, nunca me falou em semelhante coisa; mas enfim, como isso são lá negócios de segredo... talvez.
-Seria bom procurar-se; talvez em alguma gaveta por aí se ache; é impossível que o defunto não dispusesse sua vida; bem vezes lhe aconselhei eu semelhante coisa.
-Tem razão, D. Maria, eu acho também que deve haver alguma coisa.
E foram as duas tratar de procurar o testamento nas gavetas de uma grande cômoda que havia no quarto do defunto. Enquanto nisso se ocupavam, Luizinha e Leonardo conversavam, ou antes cochichavam, como se diz vulgarmente. O que eles se diziam não posso dizê-lo ao leitor, porque o não sei; sem dúvida a rapariga consolava o rapaz da perda que acabava de sofrer na pessoa do seu amado padrinho.
Finalmente as duas acharam com efeito um testamento, e ficaram com isso muito satisfeitas.
Voltaram à varanda e surpreenderam os dois no melhor da sua conversa. A comadre vendo-os sorriu-se, e D. Maria, fazendo sem dúvida a respeito do que estavam eles falando o mesmo juízo que nós, disse enternecida:
-Ela tem muito bom coração!
-E o dele não é pior, respondeu a comadre.
E acrescentou com intenção:
-Estava um bom casal.
-Oh! Senhora, disse D. Maria com ingenuidade, deixe a menina, que ainda é muito cedo...
-Também não digo já, mas a seu tempo.
D. Maria sorriu-se com um sorriso de que a comadre não desgostou. Mudaram de conversa.
Passou-se a noite; no outro dia saiu o enterro com todas as formalidades do estilo. Depois disso tratou-se de resolver uma importante questão: para a companhia de quem iria o Leonardo? A abertura do testamento feita nesse mesmo dia resolveu a questão. O compadre havia instituído a Leonardo por seu universal herdeiro. A comadre informou de semelhante coisa ao Leonardo-Pataca, e este apresentou-se para tomar conta de seu filho. Não pareceu o rapaz muito satisfeito com a graça: não sei como veio-lhe à idéia aquele terrível pontapé que o fizera fugir de casa; além disso raríssimas vezes vira depois disso a seu pai, e estava completamente desacostumado dele. Não havia porém outro remédio; foi preciso obedecer e acompanhá-lo para casa, onde encontrou sua pequena irmã, e quem a pusera no mundo.
O Leonardo-Pataca começou a cuidar no testamento como homem entendido na matéria, e em pouco tempo deu volta a tudo aquilo.
Cumpre notar que, se em vida do compadre corriam boatos que pareciam exagerados a respeito do que ele possuía, quando morreu pôde ver-se que esses boatos tinham ainda ficado muito aquém da verdade, pois deixara ele um bom par de mil cruzados em espécie. Entregues alguns legados de pouca monta, etc. tudo o mais veio a cair nas mãos do Leonardo-Pataca como herança de seu filho.
Nos primeiros dias tudo foram flores por casa de Leonardo-Pataca, ainda que, para falar a verdade, desde a primeira vista não simpatizara muito o moço Leonardo com a cara do objeto dos novos e últimos cuidados de seu pai.
A comadre assentou que devia substituir ao compadre no amor pelo afilhado, e determinou-se a vir morar com ele em casa de Leonardo-Pataca; assim ficava também reunida à sua filha, e à sua neta. O Leonardo-Pataca, que era condescendente, esteve pelo caso, e reuniu-se desse modo à família toda.
Tudo foram flores a princípio, como dissemos; o moço Leonardo e a comadre continuaram as suas visitas por casa de D. Maria; e digamo-lo já, o rapaz e a rapariga iam pondo as mangas de fora; verdade seja que José Manuel trabalhava ajudado do seu cego mestre-de-reza, e não perdia também as esperanças.
Pouco tempo durou o sossego em casa de Leonardo-Pataca; Chiquinha (tal era o nome da filha da comadre) começou a embirrar com o seu filho adotivo; este que, como dissemos, não simpatizara muito com ela, começou uma balbúrdia de todos os pecados. Todos os dias travavam-se por qualquer ponta, e lá ia tudo pelos ares. O Leonardo-Pataca e a comadre faziam o papel de conciliadores, mas os dois eram ambos altanadíssimos, e muitas vezes o conciliador saía mal servido, porque aquele a quem não dava razão se revoltava contra ele. Se era por exemplo a comadre, e dava razão a Leonardo, acudia a filha queixando-se de que sua mãe a abandonava para tomar o partido do afilhado: se pelo contrário dava razão a Chiquinha, acudia o Leonardo queixando-se de que desgraçado era o filho sem mãe, pois nunca achava quem lhe desse razão. Outro tanto acontecia ao Leonardo-Pataca quando se metia a apaziguar os dois.
Os negócios assim iam mal, pois mais dia menos dia haveria grande barulho em casa.
Pior transtorno
Um dia o Leonardo recolhera-se para casa muito mortificado, pois que tendo ido visitar D. Maria estivera com ela longo tempo sem que Luizinha lhe tivesse aparecido; de maneira que lhe fora forçoso no fim de algumas horas retirar-se sem vê-la. Quem já teve um namoro, por menos sério que seja, e que levou um logro destes; quem se viu obrigado a aturar por muito tempo a conversação de uma velha, tendo de concordar com ela em tudo e por tudo para não incorrer-lhe no desagrado, só com o fim de trocar com alguém um olhar rápido, um sorriso disfarçado ou outra coisa assim, e que por fim de contas nem isso mesmo conseguiu, há de concordar que o Leonardo tinha toda a razão de estar ardendo com o que lhe sucedera, e o desculparia de qualquer arrebatamento que na ocasião o acometesse. Há espíritos porém de tal maneira serrazinas, que se divertem em aumentar a irritação alheia, e que quanto mais enfiado pilham um infeliz, tanto mais gostam de atirar-lhe alfinetadas.
Chiquinha, a amante de Leonardo-Pataca, era de um gênio assim; e depois que moravam todos juntos, não perdia uma só dessas ocasiões em virtude da antipatia que tinha ao rapaz, para fustigar de língua ao pobre Leonardo. Este, de um gênio colérico e pouco acostumado a ser contrariado, ia às nuvens com semelhante coisa; e, se em ocasiões ordinárias em que estava de bom humor eram constantes as brigas em casa, calcule-se o que não faria nas ocasiões como naquela a que nos referimos, que estivesse cheio de razões, e então por que motivo! Vendo Chiquinha entrar o Leonardo pela porta adentro de cara amarrada e sem dar -Deus te salve- a ninguém, sorriu-se com malignidade e concertou a garganta, dizendo entre dentes:
-Melhor cara traga o dia de amanhã.
Leonardo, que percebera o que aquilo queria dizer, fez um gesto arrebatado sentando-se em uma cadeira, porém com tanta infelicidade, que atirou ao chão uma almofada de renda que se achava junto dele: com a queda rebentaram-se os fios, e uma porção de bilros rolou pela casa. Por maior infelicidade ainda a almofada era de Chiquinha, e Chiquinha tinha grandes ciúmes pela sua almofada. Levantou-se ela do seu lugar já fervendo de raiva; pôs as mãos nas cadeiras, e, balançando a cabeça à medida que falava, exclamou:
-Ora, dá-se um desaforo de tamanha grandeza?... vir da rua com os seus azeites, todo esfogueteado, e de propósito, e muito de propósito, fazer-me o que estão vendo, só para me desfeitear, como se fosse aqui um dono de casa que pudesse desfeitear a qualquer sem quê nem para quê!...
Leonardo ouviu tudo sem interromper, procurando sopear a raiva; e enquanto Chiquinha tomava fôlego, respondeu com voz trêmula e entrecortada:
-Não se meta com a minha vida, porque eu também não me importo com a sua; se estou com os azeites...
-Ah! Bom côvado e meio! atalhou Chiquinha, ah! bordo da nau!... Ah! Major Vidigal!...
-Já lhe disse...
-Qual já lhe disse, nem meio já lhe disse!... namorado sem ventura...
Estas palavras fizeram o efeito de uma faísca em um barril de pólvora. Avançou o Leonardo para Chiquinha com os punhos cerrados e espumando de cólera.
-Se me diz mais meia palavra... perco-lhe o respeito... eu nunca lhe dei confiança; e apesar de ser a senhora lá o quer que é de meu pai... perco-lhe o respeito...
-Você sempre mostra que tem raça de saloio, disse Chiquinha empertigando-se e sem recuar um passo.
O Leonardo-Pataca, que estava no interior da casa, acudiu apressado ao barulho, e veio achar os dois ainda em atitude hostil; vendo o filho quase não quase a desfeitear o adorado objeto de seus derradeiros afetos, não trepidou em desbaratar com ele.
-Pedaço de mariola... pensas que isto aqui é como a casa de teu padrinho donde saíste... quero aqui muito respeito a todos... do contrário... se já uma vez te dei um pontapé que te fiz andar muitos anos por fora, dou-te agora outro que te ponha longe daqui para sempre...
-Nunca pensei, interrompeu Chiquinha dirigindo-se ao Leonardo-Pataca, querendo afear mais o caso; nunca pensei que na sua companhia se viesse a sofrer semelhante coisa...
-Não faças caso, menina, isto é um pedaço de mariola a quem hei de ensinar; por causa de ninguém dou-lhe eu uma rodada, se não por tua causa...
-Por causa dela!... atalhou o rapaz; tinha que ver! há de lhe dar bom pago; tão bom como a cigana...
-Mas nunca lhe hei de dar, acudiu Chiquinha enfurecida com este insulto; nunca lhe hei de dar o que lhe deu tua mãe...
Com isto o Leonardo-Pataca desacoroçoou completamente; que dilúvio de amargas recordações não fizeram tão poucas palavras cair sobre sua cabeça!
-Espera, maltrapilho, espera que te ensino, exclamou vermelho de cólera; espera que te ensino...
E entrando repentinamente no quarto da sala, saiu de lá armado com o espadim do uniforme, e investiu para o filho. Convém dizer que o espadim ia embainhado.
-Não se ponha a perder por minha causa, exclamou Chiquinha agarrando-o pela camisola de chita com que ele estava vestido.
Era inútil porém o medo de Chiquinha, porque o rapaz, vendo que o negócio ia-se tornando feio, tendo-lhe ficado um terror instintivo do pai depois daquele pontapé que nunca lhe saíra da memória, tinha-se posto ao fresco na rua, fechando a rótula sobre si.
-Ah! Maroto, disse ainda o Leonardo-Pataca, que te havia desancar...
O Leonardo que fugia por um lado e a comadre que entrava por outro, pois estivera ausente durante toda a cena. Apenas foi largando a mantilha e viu os dois atores que tinham ficado em cena ainda nas posições do último quadro, tratou de indagar qual fora o drama que se acabava de representar.
-Ora, foi uma das costumadas do afilhado dos seus amores, respondeu Chiquinha, ainda não sossegada.
-Porém ia-lhe saindo caro desta vez, acudiu Leonardo-Pataca.
-Pois deveras, atalhou a comadre indignada; pois deveras o compadre estava armado de espada para dar no rapaz?
-Olá! Que levava tão duro como osso!
-Mas então por quê? Quantas mortes fez ele de uma vez? onde é que pôs fogo na casa? Triste coisa é um filho sem mãe!... Aposto que se eu cá estivesse nada havia de suceder?...
-Sim, respondeu Chiquinha, porque logo havia de tomar as dores por ele, segundo é seu costume. Aí está; muitos filhos têm mãe, e entretanto elas servem-lhes para isto: tomam as dores por outros, e deixam-nos de banda.
-Qual! Histórias! É que tudo leva seu bocado de mau caminho.
-Oh! Senhora! atalhou Leonardo-Pataca, se isto vai assim, não há um momento de sossego nesta casa; acabada uma, começa outra; o que não há de dizer esta vizinhança? Olhem que isto aqui é casa de um Oficial de Justiça.
-Mas enfim, disse a comadre, onde está o rapaz? onde é que o enterraram?
-Saiu por ali desencabrestado, e tomara que cá não volte.
-Ora, está bonito! Oh! Mas isto não pode ser assim; correrem com o rapaz de casa para fora!... Ele não é nenhum desgraçado, pois sempre tem o que lhe deixou seu padrinho.
-Essas e outras é que o puseram a perder.
-Sim, metam-lhe fumaça de rico na cabeça, e hão de ver no que dá.
-Coitado, disse lamentando a comadre, aquele nasceu com má sina.
E, tomando de novo a mantilha, saiu com as lágrimas nos olhos em procura de Leonardo.
Ao sair escoravam-na à janela três ou quatro vizinhas.
-Então, o que é que fizeram ao moço?
-Que foi isso, Sra. comadre?
-Ele passou por aqui pondo dez léguas por hora.
-Deixe-me, deixe-me, respondeu a comadre, que isto não acaba bem.
Remédio aos males
O pobre rapaz saíra, como dissemos, pela porta fora, e caminhando apressadamente olhava de vez em quando para trás, pois julgava ver ainda enristado contra si o espadim com que o pai o ameaçara, que parecia com ele querer acabar a obra que com um pontapé começara. Andou a bom andar por largo tempo, e foi dar consigo lá para as bandas dos Cajueiros: cansado, ofegante, sentou-se sobre umas pedras, e quem o visse com ar tristonho e pensativo julgaria talvez que ele cismava na sua posição e no caminho que havia tomar. Pois enganava-se redondamente quem tal julgasse: pensava em coisa muito mais agradável; pensava em Luizinha. Pensando nela não podia, é verdade, abster-se de ver surgir diante dos olhos o terrível José Manuel; e isto explicava certos movimentos de impaciência que de vez em quando se lhe podiam observar. Tinha gasto largo tempo nesta meditação, quando foi repentinamente acordado por umas poucas de gargalhadas partidas detrás de umas moitas vizinhas. Estremeceu da cabeça aos pés; pareceu-lhe que lhe tinham lido os pensamentos que lhe passavam pela mente e que se riam dele. Voltou-se, nada viu; guiado por um rumor que ouvia, começou a procurar, e sem grande trabalho viu, atrás de umas moitas um pouco altas, uns poucos de rapazes e raparigas, que, assentados em uma esteira entre os restos de um jantar, debruçavam-se curiosos sobre dois parceiros, que, com um baralho de cartas amarrotado e sujo, desencabeçavam uma intrincada partida de bisca! As gargalhadas que ouvira há pouco tinham sido a conseqüência de um capote que um deles acabava de levar. À vista daqueles restos de um jantar, que, se não parecia ter sido abundante, fez-lhe lembrar que saíra de casa na ocasião de pôr-se a mesa, deu-lhe então o estômago umas formidáveis badaladas. Tentou entretanto voltar, porque não se queria meter em festa alheia, quando, levantando um dos jogadores a cabeça, conheceu nele um seu antigo camarada, o menino que fora sacristão da Sé. Ainda que apesar disso se quisesse retirar, já era tarde, porque com o movimento que fizera, o jogador, dando com ele, o havia também conhecido.
-Olá Leonardo! Por que cargas-d'água vieste parar a estas alturas? Pensei que te tinha já o diabo lambido os ossos, pois depois daquele maldito dia em que nos vimos em pancas por causa do mestre-de-cerimônias, nunca mais te pus a vista em cima.
Leonardo chegou-se ao rancho, e trocados os cumprimentos com o seu antigo camarada foi convidado a servir-se de alguma coisa do que ainda havia. Quis fazer cerimônia, mas não estava em circunstâncias disso: uma das moças serviu-o, e, enquanto continuava a bisca, comeu ele a barrete fora.
-Escorropicha essa garrafa que aí resta, disse-lhe o amigo, e vê se o vinho tem o mesmo gosto daquele que em outro tempo escorropichávamos juntos das galhetas da Sé, com desespero de meu pai e furor do mestre-de-cerimônias.
Quando Leonardo acabou de comer, acabaram também os dois parceiros de jogar; chamou então o amigo à parte, e perguntou-lhe:
-Então que gente é esta com que te achas aqui de súcia?
-É minha gente.
-Tua gente?
-Sim, pois não vês aquela moça morena que ali está?
-Sim, e então?
-Ora!...
-Pois tu casaste?
-Não... mas que tem isso?
-Ah!... Estás de moça!
-E tu?
-Eu... ora, nem te digo... morreu meu padrinho.
-Sim, ouvi dizer.
-Fui para a casa de meu pai... e, de repente, hoje mesmo, brigo lá com a cuja dele; ele corre de espada atrás de mim, e eu safo-me. Parei ali adiante, e as gargalhadas que vocês aqui davam...
-Sei do resto... E agora tu não tens para onde ir?
-Homem, eu ia ver...
-Ver o quê?
-Ver por aí...
-Por aí, por onde?
-Nem mesmo eu sei...
E desataram os dois a rir. Quando temos apenas 18 a 20 anos sobre os ombros, o que é um peso ainda muito leve, desprezamos o passado, rimo-nos do presente, e entregamo-nos descuidados a essa confiança cega no dia de amanhã, que é o melhor apanágio da mocidade.
-Sabes que mais? continuou o amigo do Leonardo, vem conosco, e não te hás de arrepender.
-Mas com vocês, para onde?
-Para onde? Sem dúvida algum partido melhor tens a escolher? queres fazer cerimônias?
Começava a cair a noite.
-Vamos levantar a súcia, minha gente, disse um dos convivas.
-Sim, vamos.
-Nada, inda não: Vidinha vai cantar uma modinha.
-Sim, sim, uma modinha primeiro; aquela: Se os meus suspiros pudessem.
-Não, essa não, cante antes aquela: Quando as glórias que eu gozei.
-Vamos lá, decidam, respondeu uma voz de moça aflautada e lânguida.
Vidinha era uma mulatinha de 18 a 20 anos, de altura regular, ombros largos, peito alteado, cintura fina e pés pequeninos; tinha os olhos muito pretos e muito vivos, os lábios grossos e úmidos, os dentes alvíssimos, a fala era um pouco descansada, doce e afinada.
Cada frase que proferia era interrompida com uma risada prolongada e sonora, e com um certo caído de cabeça para trás, talvez gracioso se não tivesse muito de afetado.
Assentou-se finalmente que ela cantaria a modinha: Se os meus suspiros pudessem.
Tomou Vidinha uma viola, e cantou acompanhando-se em uma toada insípida hoje, porém de grande aceitação naquele tempo, o seguinte:
Se os meus suspiros pudessemaos teus ouvidos chegar,verias que uma paixãotem poder de assassinar.Não são de zelosos meus queixumes,nem de ciúmeabrasador;são das saudadesque me atormentamna dura ausênciade meu amor.
O Leonardo, que talvez hereditariamente tinha queda para aquelas coisas, ouviu boquiaberto a modinha, e tal impressão lhe causou, que depois disso nunca mais tirou os olhos de cima da cantora. A modinha foi aplaudida como cumpria. Levantaram-se então, arrumaram tudo o que tinham levado em cestos, e puseram-se a caminho, acompanhando o Leonardo o farrancho.
Novos amores
Chegaram todos depois de longo caminhar, e quando já brilhava nos céus um desses luares magníficos que só fazem no Rio de Janeiro, a uma casa da rua da Vala. Naqueles tempos uma noite de luar era muito aproveitada, ninguém ficava em casa; os que não saíam a passeio sentavam-se em esteiras às portas, e ali passavam longas horas em descantes, em ceias, em conversas, muitos dormiam a noite inteira ao relento.
Como os nossos conhecidos já tinham dado um grande passeio, adotaram o expediente das esteiras à porta, e continuaram assim pela noite em diante a súcia em que haviam gasto o dia, pois aquilo que Leonardo vira nos Cajueiros, e em que também tomara parte, era o final de uma patuscada que havia começado ao amanhecer, de uma dessas romarias consagradas ao prazer, que eram então tão comuns e tão estimadas.
Agora devemos dar ao leitor conhecimento da nova gente, no meio da qual se acha o nosso Leonardo. Se nós pudéssemos socorrer aqui do amigo José Manuel, sem dúvida nos desfolharia ele toda a árvore genealógica dessa família a quem o amigo do Leonardo chamava a sua gente: porém contentem-se os leitores com o presente sem indagar o passado. Saibam pois que a família era composta de duas irmãs, ambas viúvas, ou que pelo menos diziam sê-lo, uma com três filhos e outra com três filhas; passando qualquer das duas dos seus quarenta e tantos; ambas gordas e excessivamente parecidas. Os três filhos da primeira eram três formidáveis rapagões de 20 anos para cima, empregados todos no Trem; as três filhas da segunda eram três raparigas desempenadas, orçando pela mesma idade dos primos, e bonitas cada uma no seu gênero. Uma delas já os leitores conhecem; é Vidinha, a cantora de modinhas; era solteira como uma de suas irmãs; a última era também solteira, porém não como estas duas. O amigo do Leonardo que explique o que isso quer dizer, e explicando dará também a conhecer o que era ele próprio na família. Os mais que se achavam presentes eram pela maior parte vizinhos que se reuniam para aquelas súcias, que eram tradicionais na família.
Quando chegaram à casa, o amigo do Leonardo tomou as duas velhas de parte, e começou a conversar com elas, sem dúvida a respeito do Leonardo, pois que o olhavam todos três durante a conversa; e mesmo quem tivesse o ouvido atilado teria escutado às velhas estas palavras:
-Coitado do moço!...
-Ora, vejam que pai de más entranhas!...
Outro qualquer que tivesse mais idade, ou antes, falando claro, mais juízo e outra educação, envergonhar-se-ia talvez muito de achar-se na posição em que se achava o Leonardo, porém ele nem nisso pensava, e o que é mais, nem mais pensava naquilo que até então lhe não saía da cabeça, isto é, em Luizinha de um lado e José Manuel do outro: agora não via senão os olhos negros e brilhantes, e os alvos dentes de Vidinha; não ouvia senão o eco da modinha que ela cantara. Estava pois embebido num êxtase contemplativo.
No mais pensaria quando lhe restasse tempo.
Mal se haviam todos sentado em uma larga esteira junto à soleira da porta sobre a calçada, o Leonardo propôs logo que se cantasse uma nova modinha.
-Qual... respondeu Vidinha acompanhando este qual da sua costumada risada; estou já tão cansada... que nem posso!
-Ora... ora... disseram umas poucas de vezes. Além do costume das risadas tinha Vidinha um outro, e era o de começar sempre tudo que tinha a dizer por um qual muito acentuado; respondeu ainda portanto:
-Qual... pois se eu também já cantei tudo que sabia. Qual, meu Deus! Nem eu posso mais!
-Ainda não cantou a minha favorita, disse um dos presentes.
-Nem a minha, disse outro.
-Eu também, acrescentou outro, ainda não lhe pedi aquela cá do peito.
-Qual, meu Deus! onde é que isto vai parar!
-Ora, mana, não se faça de boa.
-Ai, criatura, disse uma das velhas, quereis que vos reze um responso para cantardes uma modinha?
Leonardo, vendo a sua causa advogada por tantas vozes, conservou-se calado. Tentados mais alguns meios, e feitas mais algumas negaças, Vidinha decidiu-se, e tomando a viola cantou, segundo a indicação de uma das velhas, o seguinte:
Duros ferros me prenderamno momento de te ver;agora quero quebrá-los,é tarde não pode ser.
Este último passo acabou de desorientar completamente o Leonardo: ainda bem não tinham expirado as últimas notas do canto, e já, passando-lhe rápido pela mente um turbilhão de idéias, admirava-se ele de como é que havia podido inclinar-se por um só instante a Luizinha, menina sensaborona e esquisita, quando haviam no mundo mulheres como Vidinha.
Decididamente estava apaixonado por esta última.
O leitor não se deve admirar disto, pois não temos cessado de repetir-lhe que o Leonardo herdara de seu pai aquela grande cópia de fluido amoroso que era a sua principal característica. Com esta herança parece porém que tinha ele tido também uma outra, e era a de lhe sobrevir sempre uma contrariedade em casos semelhantes. José Manuel fora o primeiro; vejamos agora qual era, ou antes quem era a segunda.
Se o leitor pensou no que há pouco dissemos, isto é, que naquela família haviam três primos e três primas, e se agora acrescentarmos que moravam todos juntos, deve ter cismado alguma coisa a respeito. Três primos e três primas, morando na mesma casa, todos moços... não há nada mais natural; um primo para cada prima, e está tudo arranjado. Cumpre porém ainda observar que o amigo do Leonardo tomara conta de uma das primas, e que deste modo vinha a haver três primos para duas primas, isto é, o excesso de um primo. À vista disto o negócio já se torna mais complicado. Pois para encurtar razão, saiba-se que haviam dois primos pretendentes a uma só prima, e essa era Vidinha, a mais bonita de todas; saiba-se mais que um era atendido e outro desprezado: logo, o amigo Leonardo terá desta vez de lutar com duas contrariedades em vez de uma.
Mas por ora de nada sabia ele, e entregava-se tranqüilo às suas emoções sem se lembrar do que qualquer se lembraria, que entre primos e primas há assim um certo direito mútuo em negócio de amor, que muito prejudica a qualquer pretendente externo.
Gastaram grande parte da noite ali sentados, e trataram de recolher-se já muito tarde.
O amigo do Leonardo, a quem daqui em diante trataremos pelo seu próprio nome de Tomaz com o apelido -da Sé- ambos herdados de seu pai, declarou que o seu amigo ficava ali por aquela noite, por já ser muito tarde; quis assim poupar-lhe um vexame, e mostrou nisto ser bom amigo.
Agora que o nosso Leonardo está instalado em quartel seguro, vamos ocupar-nos de alguma coisa de importante que havíamos deixado suspensa.
José Manuel triunfa
A comadre correra toda a cidade, e em parte alguma encontrara o Leonardo; enquanto cansava-se assim a procurá-lo, estava ele tranqüilo e descansado mirando-se nos olhos de Vidinha, regalando-se a ouvir modinhas, como sabem os leitores, sem se lembrar do que ia pelo mundo.
A pobre mulher, depois de muito cansada, foi ter à casa de D. Maria. Era já noite fechada.
Quando ela entrava saía o mestre-de-reza que acabava de dar a sua lição às crias de casa. A comadre há algum tempo que andava desconfiada do mestre-de-reza; combinando o que por aí se dizia do seu crédito com certas coisas que tivera ocasião de presenciar, estava quase a concluir que era ele emissário de José Manuel junto à corte de D. Maria. Não gostou portanto do encontro, e doeu-lhe o cabelo vê-lo sair àquela hora, pois que de ordinário as lições não se demoravam até tão tarde; e para metê-lo à bulha disse-lhe:
-A lição hoje foi comprida, devoto... as raparigas parece que gostam mais da cambetice do que da reza.
-Não, respondeu o velho com sua voz fanhosa, elas não vão mal, empacam em alguns lugares, mas sempre vão indo; bem sabe também que sempre trago comigo o santo remédio.
E afagou o cabo da palmatória com que sempre andava armado.
-Ah! então esteve o devoto de conversa; gosta também de dar à língua...
-Não desgosto; mas também não digo senão aquilo que sei, isto é, aquilo que ouço; os outros gastam o seu tempo a ver e a ouvir; eu, como não posso senão ouvir, emprego a falar o que os mais empregam a ver; falo, e falo muito; mas que quer se me sobra tempo para isso; e demais, bem sabe que não é trabalho que canse. Meus pais eram Algarves, e eu não quero desmentir a minha paternidade.
-Então já sei que hoje desenterraram-se mortos e enterraram-se vivos; pois eu não posso fazer outro tanto, porque vou aqui muito e muito zangada de minha vida. Se o devoto, como é homem que muito gira por toda esta cidade, souber por aí notícias de meu afilhado Leonardo, queira vir dar-me parte, pois saiu-nos ele hoje de casa lá por causa de umas histórias, e não sei por onde andará dando com os ossos.
-Ora, isto fica por minha conta; não há nada mais fácil do que dar com ele.
E aqui terminou esta conversa que tinha lugar na porta da rua, e com a qual não ficara a comadre muito contente. D. Maria, que ouvira tudo, veio ao encontro da comadre, e foi-lhe logo dizendo antes de lhe dar tempo de tirar a mantilha:
-Então já o rapaz não está em casa? Senhora, aquilo é gênio, nasceu com ele, e com ele há de ir à sepultura. Bem me diziam o que ele era, e apesar do seu ar sonso nunca lhe fiz fé.
-Adeus, que me está a senhora a pôr culpas em quem não as tem; o rapaz desta vez tem toda a razão...
-Ora, histórias da vida; isso diz você porque o estima como se fosse sua mãe; mas vá com esta que eu lhe digo: os rapazes de agora andam de cabeça levantada... Mas o defunto padrinho -Deus lhe fale n'alma- foi o próprio que teve culpa de tudo isso com aquelas fumaças de Coimbra que lhe meteu na cabeça...
-Mas, senhora de Deus, se o bruto do pai até chegou a corrê-lo de espada na mão...
-Que tal não faria ele! Mas que tinha isso? O pai não o havia esquartejar... por certo, que eu bem lhe conheço o gênio; aquilo era raiva, e havia de passar; devia ele sujeitar-se... sempre é seu pai.
-Com a Virgem Santa! Pois se tudo isso foi por uma coisa de nada, por causa de uma almofada de renda... Isto é coisa em que se creia?!... E agora para onde é que há de ir aquele coitado?...
-Há de estar por aí metido em algum fado de ciganos; não se lembra do que ele fez quando o padrinho era vivo?
-Ora, criançadas... para que falar nisso?
Este diálogo ia continuando interminável sobre o mesmo assunto, quando D. Maria, mudando repentinamente de conversa, disse à comadre:
-Ora, é verdade, sente-se para cá que temos contas que ajustar...
-Contas!...
-E muito compridas, começo por dizer, acrescentou D. Maria, que não parecia estar nesta ocasião de muito bom humor; começo por dizer-lhe mesmo na bochecha que quando for à confissão este ano trate de desobrigar-se de um grande pecado que cometeu.
-E eu que já não tenho poucos: mas então o que é?
-É um aleive, senhora, um aleive muito grande que levantou a pessoa que tal não merecia.
A comadre não precisou de mais nada para conhecer onde é que tudo aquilo ia parar; o aleive mais moderno de que a acusava a sua consciência bem sabia ela qual era. Começou a ver tudo claro como o dia; viu José Manuel justificado completamente aos olhos de D. Maria a respeito da história do roubo da moça no Oratório de Pedra, e viu também como medianeiro dessa justificação o cego mestre-de-reza. Ficou pois visivelmente incomodada; volvia-se de um para outro lado, como se estivesse cheia de espinhos a banquinha em que estava sentada, e teve um forte acesso de tosse quando D. Maria acabou de pronunciar aquelas últimas palavras.
-Tudo quanto me disse a respeito de José Manuel naquela história do roubo da moça, continuou D. Maria fazendo-se vermelha, o que era nela mau sinal, é falso, e muito falso. Sei isto de parte muito certa...
Novo acesso de tosse acometeu a comadre.
-Pois olhe, prosseguiu D. Maria, tinha eu dado todo o crédito, tanto que havia rompido por um excesso com o pobre do homem, mas não caio noutra; esta me serviu de emenda.
A comadre viu que o vento se lhe ia tornando absolutamente contrário; compreendeu que D. Maria estava muito bem informada, e que inútil seria qualquer sustentação que pretendesse fazer de tudo quanto havia avançado; isso só serviria para agravar-lhe a posição.
Forjou pois repentinamente um novo plano e disse:
-Não me dá nada de novo, senhora; sei muito bem de tudo; o homem está nesse negócio como Pilatos no Credo.
-Mas lembre-se que me havia dito que tinha visto com seus próprios olhos.
-Ah! Senhora, era o diabo por ele; nunca vi coisa assim tão parecida. Outro dia porém soube de tudo, e agora estou arrependida.
-Mandei por isso chamar o pobre homem, continuou D. Maria, que, de ofendido que estava com o modo por que eu o tratava, custou muito a vir, e abri-me aqui com ele.
E uma coisa lhe digo, é que a comadre não está bem no negócio; ele expôs-me certas coisas... a que eu enfim não quis dar crédito.
-Pois então a senhora lhe disse que eu é que...
-Não fui eu quem lhe disse; ele já o sabia, e não era possível negar-lho. Foi então que ele me quis abrir os olhos sobre outros pontos...
A comadre, que via todo o caldo entornado naqueles outros pontos, tratava de desviar a conversação, fazendo que não dera atenção a essas últimas palavras.
-Mas então, perguntou, por quem foi que soube como tinha sido o negócio? quero ver se combina cá com o que sei.
-Ainda há pouco acabou de sair daqui quem me pôs o negócio todo em pratos limpos.
-Ah! disse a comadre.
E mordeu os beiços, fazendo um gesto que queria dizer: «nunca me enganei»!
D. Maria prosseguiu contando à comadre, que, tendo falado em semelhante negócio ao mestre-de-reza, ele lhe havia negado tudo quanto esta lhe dissera a respeito de José Manuel; que muito tempo lutara com o velho para que lhe dissesse o que sabia a respeito e em que fundava a denegação que fazia; que, finalmente, depois de grande resistência, lhe tinha ele trazido à casa, mesmo no dia antecedente, o pai da moça, que tudo confessara, declarando até o nome da pessoa com quem se achava sua filha, que ele já conhecia, e com quem tinha feito as pazes.
-É exatamente o que eu sabia, disse a comadre no fim da narração; foi tudo assim mesmo. Veja, senhora, a que está sujeita a gente nesta vida: a levantar falsos aos mais.
Agora informemos ao leitor que tudo que se acabava de passar tinha sido com efeito obra do mestre-de-reza. Pouco a pouco se tinha instruído do que se passava em casa de D. Maria a respeito do seu cliente José Manuel; tinha conseguido saber quem havia armado a intriga; indagou também o que se passava em casa de Leonardo-Pataca; e como lá se falava um pouco alto a respeito das pretensões de Leonardo, combinando umas coisas com outras, chegaram à conclusão certíssima daquilo que com efeito se passara.
D. Maria pareceu dar crédito ao arrependimento da comadre, e começou-lhe a aplacar o humor um pouco desabrido em que se achava.
Voltaram à questão da saída do Leonardo de casa, e desta vez já D. Maria não se mostrou tão inflexível para com o rapaz. Entretanto à comadre não lhe saíram da cabeça aquelas palavras de D. Maria: abriu-me os olhos sobre outros pontos; e depois que viu D. Maria mais apaziguada, tentou chamar de novo a conversa para esse ponto, e como que pedir explicações. Ela previa a significação daquelas palavras, sem dúvida nenhuma que se referiam às suas pretensões ou às de seu afilhado sobre Luizinha, porém queria saber as cores com que esse negócio tinha sido pintado a D. Maria por José Manuel.
Isso foi-lhe porém fatal, porque soube (o que lhe não foi nada agradável) que o negócio estava muito mal parado a respeito do seu afilhado, e pelo contrário muito adiantado a favor do seu adversário. D. Maria, depois de declarar que José Manuel se tinha queixado da comadre, atribuindo-lhe tudo que se havia passado, que não era mais do que uma intriga urdida com o fim de o apartar de sua casa, porque tinham sobre ele caído suspeitas, que confessava justas, acrescentou finalmente que José Manuel, completamente justificado, graças à intervenção do mestre-de-reza, acabara por lhe dar a entender alguma coisa a respeito de Luizinha, o que D. Maria confessou não lhe ter sido totalmente desagradável, porque enfim, segundo alegava, José Manuel era um homem sisudo e de juízo, tinha corrido mundo, e não era nenhuma criançola (esta palavra doeu à comadre) que não fosse capaz de tratar bem de uma moça. A comadre descoroçoou completamente com estas últimas declarações; porém o que fazer na ocasião? Ela mesma tinha há pouco confessado o risco em que se está a cada momento de ser injusto com o próximo, e não podia sem risco aventurar, pelo menos naquela ocasião, alguma coisa contra José Manuel, tanto mais que tão mal se havia saído da primeira intriga que armara. Contentou-se pois com repetir uma observação que D. Maria mesma lhe havia feito há pouco tempo, e disse, referindo-se a Luizinha:
-Gente, pois aquela criança já está para essas!...
-Sim, respondeu D. Maria, está ainda verdezinha, mas também isso não é sangria desatada.
A comadre respirou, pois viu que ainda havia tempo a ganhar.
O agregado
Passaram-se assim algumas semanas: Leonardo, depois de acabadas todas as cerimônias, foi declarado agregado à casa de Tomaz da Sé, e aí continuou convenientemente arranjado. Ninguém se admire da facilidade com que se faziam semelhantes coisas; no tempo em que se passavam os fatos que vamos narrando, nada havia mais comum do que ter cada casa um, dois, e às vezes mais agregados.
Em certas casas os agregados eram muito úteis, porque a família tirava grande proveito de seus serviços, e já tivemos ocasião de dar exemplo disso quando contamos a história do finado padrinho de Leonardo; outras vezes porém, e estas eram em maior número, o agregado, refinado vadio, era uma verdadeira parasita que se prendia à árvore familiar, que lhe participava da seiva sem ajudá-la a dar os frutos, e o que é mais ainda, chegava mesmo a dar cabo dela. E o caso é que, apesar de tudo, se na primeira hipótese o esmagavam com o peso de mil exigências, se lhe batiam a cada passo com os favores na cara, se o filho mais velho da casa, por exemplo, o tomava por seu divertimento, e à menor e mais justa queixa saltavam-lhe os pais em cima tomando o partido de seu filho, no segundo aturavam quanto desconcerto havia com paciência de mártir, o agregado tornava-se quase rei em casa, punha, dispunha, castigava os escravos, ralhava com os filhos, intervinha enfim nos mais particulares negócios.
Em qual dos dois casos estava ou viria estar em breve o nosso amigo Leonardo? O leitor que o decida pelo que se vai passar.
Principiemos por declarar que as duas velhas irmãs tinham concebido desde o primeiro momento uma decidida simpatia por ele, e era esse o único ponto por onde o podemos julgar um pouco feliz: se a cada passo encontrava contrariedades e antipatias, também lhe não faltavam por contrabalanço simpatias e favores. Isto já era meio caminho andado para qualquer projeto que ele formasse, qualquer intenção que tivesse ou desejo que se lhe despertasse. Mas note-se que para não falhar a lei das compensações, que pesava constantemente sobre ele, logo o projeto, a intenção e desejo que teve sucedeu ser a respeito de uma coisa que já tinha despertado igual projeto, intenção e desejo em duas outras pessoas, o que equivale a dizer-se, como já o fizemos, que tinha ele de lutar com duas dificuldades.
Vidinha era uma rapariga que tinha tanto de bonita como de movediça e leve: um soprozinho, por brando que fosse, a fazia voar, outro de igual natureza a fazia revoar, e voava e revoava na direção de quantos sopros por ela passassem; isto quer dizer, em linguagem chã e despida dos trejeitos da retórica, que ela era uma formidável namoradeira, como hoje se diz, para não dizer lambeta, como se dizia naquele tempo. Portanto não foram de modo algum mal recebidas as primeiras finezas do Leonardo, que desta vez se tornou muito mais desembaraçado, quer porque já o negócio com Luizinha o tivesse desasnado, quer porque agora fosse a paixão mais forte, embora esta última hipótese vá de encontro à opinião dos ultra-românticos, que põem todos os bofes pela boca pelo tal -primeiro amor:- no exemplo que nos dá o Leonardo, aprendam o quanto ele tem de duradouro. Se um dos primos de Vidinha, que dissemos ser o atendido naquela ocasião, teve motivo para levantar-se contra o Leonardo como seu rival, o outro primo, que dissemos ser o desatendido, teve dobrada razão para isso, porque além do irmão apresentava-se o Leonardo como segundo concorrente, e o furor de quem se defende contra dois é, ou deve ser sem dúvida, muito maior do que o de quem se defende contra um. Declarou-se portanto, desde que começaram a aparecer os sintomas do quer que fosse entre Vidinha e o nosso hóspede, guerra de dois contra um, ou de um contra dois. A princípio foi ela surda e muda; era guerra de olhares, de gestos, de desfeitas, de más caras, de maus modos de uns para com os outros; depois, seguindo o adiantamento do Leonardo, passou a ditérios, a chasques, a remoques. Um dia finalmente desandou em descompostura cerrada, em ameaças do tamanho da torre de Babel, e foi causa disto ter um dos primos pilhado o feliz Leonardo em flagrante gozo de uma primícia amorosa, um abraço que no quintal trocava ele com Vidinha.
-Aí está, minha tia, dissera enfurecido o rapaz dirigindo-se à mãe de Vidinha; aí está o lucro que se tira de meter-se para dentro de casa um par de pernas que não pertence à família...
-Onde é, onde é que está pegando fogo? disse a velha em tom de escárnio, supondo ser alguma asneira do rapaz, que era em tudo muito exagerado.
-Fogo, replicou este; se ali pegar fogo não haverá água que o apague... e olhe o que lhe digo, se não está pegando fogo... está-se ajuntando lenha para isso.
Vidinha, que vinha chegando nessa ocasião, tomou a palavra e falou durante meia hora sem interrupção, soltando contra os dois primos (pois que o outro já tinha também intervindo) uma tremenda catilinária em que a palavra -qual- foi repetida enorme número de vezes. Leonardo teve também de defender-se, e falou pelos cotovelos. As duas velhas acompanharam os quatro seguidas das outras duas moças, que metiam também de vez em quando a sua colherada.
Seria inútil a tentativa de querermos repetir as palavras textuais de cada um dos faladores; isso seria coisa pouco mais ou menos semelhante a querer contar-se numa tempestade os pingos de chuva que caem. Só quem já teve ocasião de assistir pode bem avaliar o que era e talvez ainda é uma dessas brigas no interior de uma família. Todos falam a um tempo, esforçando-se cada um por falar mais alto do que todos os outros; ninguém parece atender as desculpas que se apresentam, nem as recriminações que se fazem, e entretanto de minuto em minuto cada qual tomando mais calor, se julga dobradamente ofendido; as juras se cruzam, as ameaças se chocam; não fica no dicionário termozinho de escolha que não saia à frente; umas questões trazem outras, estas ainda outras; recorre-se às ofensas passadas, presentes e futuras para fazer-se carga aos adversários. Tudo enfim se diz, e nada se consegue; a briga dura muitas horas, ao termo dos quais os contendores, fatigatis sed non saciatis, abandonam o campo, ficando mais encarniçados uns contra os outros do que o estavam a princípio. E se por acaso, tocando já em retirada, algum ousa ainda soltar uma derradeira imprecação, pega de novo a coisa, e dura ainda bom pedaço. As mais das vezes fica tudo em palavras.
Desta vez porém não sucedeu assim: um dos primos, que era esquentadete, avançou para o Leonardo depois de lhe ter mandado, como batedor, uma grande injúria, e deu-lhe dois safanões, agarrando-o pela gola da camisa. Leonardo, que neste mundo só tinha medo do pai, reagiu contra o agressor; as duas velhas e Vidinha, tentando apartá-los, não faziam mais do que romper-lhes a roupa e aumentar-lhes a raiva; as demais pessoas ocupavam-se em bater nas paredes e chamar os vizinhos. Lutaram os dois por algum tempo sem que disso resultasse acidente grave para nenhum deles, e afinal apartaram-se. Leonardo, apenas se viu livre do seu adversário, foi querendo pôr-se no andar da rua: pesava sobre o infeliz desde criança uma espécie de sina de Judeu Errante. As velhas, que em todo o barulho tinham tomado o partido dele, não consentiram porém nisso; alegaram que estavam em sua casa, e podiam mandar como quisessem. Leonardo insistiu apesar disso e apesar dos rogos de Vidinha; porém no momento em que tentava abrir a porta da rua, entrou por ela a comadre.
-Ora, graças que o encontro, senhor doido de pedras...
O Leonardo recuou dois passos: naquele momento, assim como lhe aconteceu desde que saiu de casa de seu pai, nem lhe passava pela idéia que tivesse no mundo uma madrinha, um pai, ou qualquer parente que fosse. Houve em todos um movimento de admiração e curiosidade, pois ninguém na casa conhecia a comadre.
Tantas coisas havia feito a boa mulher, que afinal soubera do ninho a que se acolhera o afilhado, e imediatamente para lá se dirigira. Tendo entrado e dito aquelas primeiras palavras, queria logo depois seguir com uma grande exortação ao sobrinho, quando, tendo visto as duas velhas, assentou que era melhor dirigir-se a elas em primeiro lugar. Com efeito dirigiu-se, e entraram as três em conferência.
Malsinação
As três velhas conversaram por largo tempo, não porque muitas coisas se tivessem a dizer a respeito do que se acabava de passar, porém porque a comadre, remontando ao mais remoto passado, entendera que para dizer que muito se interessava pela volta do afilhado para casa era mister contar desde sua origem a vida inteira deste, de sua mãe, de seu pai, e a sua própria, que fora mais comprida de todas, e porque as duas velhas entenderam que para dizerem que o Leonardo estava ali muito bem, e que não consentiriam que ele saísse, entenderam ser preciso fazer o que havia feito a comadre -contar a sua vida e de toda a família desde as eras primitivas.- Ora, como todas essas histórias contadas de parte a parte eram cheias de episódios, já sentimentais, já tocantes, já alegres, aconteceu que entre muita gargalhada correram também algumas lágrimas durante a conversação. Não há nada que mais sirva para fazer nascer e firmar a amizade, e mesmo a intimidade, do que seja o riso e as lágrimas: aqueles que se riram, e principalmente aqueles que uma vez choraram juntos, têm muita facilidade em fazerem-se amigos. Com efeito, no fim da conversa, as três velhas estimavam-se mutuamente de uma maneira incrível.
Se esta facilidade de expansão não fosse acompanhada da grande dificuldade de rompimentos e de intrigas, seria uma das grandes virtudes daquele tempo. Porém as simpatias que se criavam em uma hora de conversa transformavam-se em ódio num minuto de desavença.
Enquanto as velhas conversavam, os contendores acalmaram-se, passou a tormenta, e se tudo não ficou logo acabado, ficou pelo menos esquecido por algum tempo. Leonardo achava-se já disposto a atender às súplicas de Vidinha e das outras moças que o não queriam por modo algum fora de casa: os dois rivais derrotados pareciam resignar-se.
Quando terminou a conferência das três, a comadre entendeu que era chegado o momento de começar a pregação ao Leonardo, e começou nestes termos:
-Rapaz dos trezentos demos, valham-te os serafins... tu tens nessa cabeça pedras em vez de miolos; o sol não cobre criatura mais renegada do que tu. És um viramundo; andas feito um valdevinos, sem eira nem beira nem ramo de figueira, sem ofício nem benefício, sendo pesado a todos nesta vida...
-Se é cá conosco que fala, acudiu uma das velhas, deixe-o estar aonde está que está muito bem.
-Qual! Senhora, pois se vem levantar poeira na casa alheia! É um galo de brigas.
-Ora, isso é lá coisa entre rapazes e raparigas; deixá-los que eles se arranjarão, redargüiu a velha.
Ingenuidade infantil das velhas daquele tempo!
A comadre ia prosseguir; porém sendo a cada passo interrompida, tomou por seu barato dar a coisa por finda. Retirou-se, ficando convencionado que Leonardo permaneceria onde estava.
Vidinha ficou contentíssima com semelhante resultado; os primos porém fizeram má cara, porque tal não esperavam. Desde que viram que tudo ia continuar no mesmo pé, renasceu-lhes o despeito. Atiraram algumas indiretas, com as quais ia tudo pegando fogo novamente; porém contiveram-se ainda; um deles chamou o outro em particular, e começaram por seu turno a conferenciar, porém em segredo. Não havia nada mais natural: o inimigo era comum, juntavam-se para atacá-lo; depois que ele fosse derrotado, a questão se decidiria então entre os dois.
Depois desta última conferência serenou tudo definitivamente; cada qual recolheu-se a seu posto, e passaram-se muitos dias em santa paz. Durante esses dias mais se estreitaram os laços entre o Leonardo e Vidinha. É sempre assim que sucede: quereis que nos liguemos estreitamente a uma coisa? Fazei-nos sofrer por ela. Os dois tinham sofrido um pelo outro, e era isto uma forte razão para se amarem cada vez mais.
A comadre vinha regularmente ver o afilhado e visitar suas novas amigas.
Tudo parecia enfim nos seus eixos naturais; porém os dois primos tramavam, e tramavam largamente. Ninguém entretanto atinava com o que seria.
Leonardo passava vida completa de vadio, metido em casa todo o santo dia, sem lhe dar o menor abalo o que se passava lá fora pelo mundo. O seu mundo consistia unicamente nos olhos, nos sorrisos e nos requebros de Vidinha.
Um dia forjaram uma patuscada semelhante à que dera origem ao conhecimento do Leonardo com a família. Deviam sair de madrugada da cidade e passarem fora o dia. Preparou-se tudo: cestos de comida, esteiras e mais arranjos. Vidinha mandou encordoar de novo sua viola; avisaram-se os convivas do costume.
À hora aprazada partiram.
Quem estivesse menos distraído pelo prazer da patuscada do que estava qualquer dos suciantes, notaria que os dois primos deixavam-se de vez em quando ficar atrás, e cochichavam como se tramassem uma conspiração. Ninguém porém dera atenção a semelhante coisa.
Chegaram ao lugar determinado ao romper do dia. Apenas começavam a preparar-se para o almoço, viram surdir, ninguém soube bem de onde, a figura alta, magra, severa e sarcástica do nosso célebre major Vidigal. Correu por todos um sinal de pouco contentamento, exceto pelos primos, que trocaram entre si um olhar de inteligência e triunfo.
Os olhos de Vidinha dirigiram-se instintivamente para Leonardo.
O major Vidigal deixou passar o primeiro momento de surpresa, e depois, sorrindo-se, disse, como costumava, com sua voz descansada:
-Não tenham medo de mim, que não sou nenhum papa-crianças, nem eu venho desmanchar prazeres de ninguém. Quero só saber quem é aqui o amigo Leonardo.
Vidinha fez logo cara de choro. Leonardo levantou-se sem saber como, e disse todo trêmulo:
-Sou eu...
-Ora vejam, respondeu o Vidigal em tom de mofa, eu não sabia!... Pois, meus amigos, não se assustem que o caso não foi para tanto: um súcio de menos numa patuscada não faz falta nenhuma. Este amigo vai conosco. Se ele puder, voltará em breve... mas creio que já não chegará a tempo para acabar a patuscada.
-Qual, meu Deus! mas por que é então isto? que mal é que ele fez?
-Ele não fez nem faz nada; mas é mesmo por não fazer nada que isto lhe sucede. Leva, granadeiro.
E um dos granadeiros com que viera o major acompanhado foi tratando de conduzir o Leonardo.
O Vidigal seguiu-os tranqüilamente, sem alterar o passo, e dizendo polidamente:
-Adeus, minha gente.
Vidinha desatou a chorar, exclamando:
-Foi malsinação!
-Foi malsinação! repetiram todos, menos os dois primos.
A súcia levantou-se.
Triunfo completo de José Manuel
Era um sábado de tarde; em casa de D. Maria havia um lufa-lufa imenso; andavam as crias e mais escravos de dentro para fora; espanava-se a sala; arrumavam-se as cadeiras; corria-se, falava-se, gritava-se.
A dona da casa trajava, fora do ordinário, um rico vestido de cassa bordado de prata, de corpinho muito curto e mangas de um volume enorme. Seja dito de passagem que a prata do bordado estava já mareada, e o mais do vestido um pouco encardido. Trazia ainda D. Maria um penteado de desmedida altura, um formidável par de rodelas de crisólitas nas orelhas, e dez ou doze anéis de diversos tamanhos e feitios nos dedos.
Luizinha trajava também um vestido que qualquer menos entendido na matéria desconfiaria que era filho legítimo do de sua tia; trazia um toucado de plumas brancas na cabeça e um rosário de ouro de contas mui grossas na cintura.
Acabavam de sair as duas assim preparadas do quarto de vestir, quando se sentiu rodar uma carruagem e parar na porta da casa. Luizinha estremeceu; D. Maria levou o lenço aos olhos, e tirou-o em pouco tempo molhado de lágrimas.
-Está aí a carruagem, gritou uma das crias que estava de sentinela à janela.
A carruagem era um formidável, um monstruoso maquinismo de couro, balançando-se pesadamente sobre quatro desmesuradas rodas. Não parecia coisa muito nova; e com mais 10 anos de vida poderia muito bem entrar no número dos restos infelizes do terremoto, de que fala o poeta.
Mal tinha este trem parado à porta, sentiu-se o rodar de outro que veio parar junto dele. O que dissemos a respeito dos vestidos de D. Maria e sua sobrinha pode perfeitamente aplicar-se aos dois trens; o segundo parecia filho legítimo do primeiro.
Do último que chegara apeou-se José Manuel, e entrou em casa de D. Maria, que o veio receber à porta.
É inútil observar que a vizinhança estava toda à janela, e via todo aquele movimento com olhos regalados pela mais desabrida curiosidade.
José Manuel trajava casaca de seda preta, calções da mesma fazenda e cor; trazia meias também pretas e sapatos de entrada baixa, ornados com enormes fivelas de prata, espadim e chapéu de pasta.
Acompanhavam-o dois amigos vestidos pelo mesmo teor.
José Manuel estava com um ar entre compungido e triunfante, e desfazia-se em mesuras à D. Maria.
Depois de tudo isto quer ainda o leitor que lhe declaremos que a sobrinha de D. Maria casava-se naquela tarde com José Manuel?
Chegou o momento da partida. Luizinha, conduzida por D. Maria, que lhe ia servir de madrinha, embarcou num dos destroços da arca de Noé, a que chamamos carruagem; José Manuel, acompanhado por quem lhe ia servir de padrinho, fez outro tanto, e partiram depressa para a igreja. Fizeram bem em partir depressa, porque se se demorassem alguns minutos, corriam o risco de serem devorados pelos olhos dos vizinhos.
Apenas cessou a bulha das carruagens, começaram estes últimos em conversa renhida, de que damos aqui uma pequena amostra.
-Senhora, dizia uma sujeita que morava junto de D. Maria para outra que morava defronte, o tal noivo poderá ser coisa boa, mas não dou nada pela cara dele.
-E a noiva?... respondia a outra; arrenego também da lambisgóia...
-E o filho do Leonardo ficou vendo estrelas?...
-Por força: venceu este porque é um finório de conta.
-Se a velha deixar tudo à sobrinha, não é mau arranjo...
-Decerto. Pois não sabe que o seu defunto marido era um homem que viajava para a Índia?
Neste tom continuaram até a volta das carruagens.
Agora demos ao leitor algumas explicações a respeito do triunfo de José Manuel.
Depois das boas obras do mestre-de-reza, de que os leitores já foram informados, José Manuel reabilitara-se completamente junto a D. Maria; tornara a freqüentar a casa, e foi pouco a pouco pondo barro à sua parede. Um sucesso inesperado veio ajudá-lo com a maior eficácia. O testamenteiro do finado irmão de D. Maria, do pai de Luizinha, que já tinha tido com D. Maria, como talvez não estejam esquecidos os leitores, uma demanda por causa desta última, surdiu de repente com uma nova prebenda relativa a uma pontinha de testamento, e D. Maria teve de entrar de novo com ele em uma luta judiciária. Isto coincidiu com a morte inesperada do procurador de D. Maria. José Manuel ofereceu-se para cuidar da causa; e com tanto jeito arranjou tudo, que, em muito pouco tempo, coisa que procurador nenhum teria feito, venceu a demanda em favor de D. Maria.
Ora, os leitores hão de estar lembrados da mania que tinha D. Maria por uma demandazinha; atirava-se a ela com vontade, e tal era o empenho que empregava na mais insignificante questão judiciária, que em tais casos parecia ter em jogo sua vida. Daqui se poderá concluir a satisfação que teria ela no dia em que se achava vencedora, e como se não julgaria obrigada a quem lhe proporcionasse a vitória.
José Manuel aproveitou-se disto; e no dia em que veio ler a D. Maria a sentença final que resolvia a pendência em seu favor, pediu-lhe a mão da sobrinha, a qual lhe foi prometida sem grandes escrúpulos.
Luizinha estava nesta ocasião em um daqueles períodos de abatimento que se costumam produzir nos moços, e principalmente nas moças que ainda marcham por aquela estrada florida que leva dos 13 aos 25 anos, quando as oprime o isolamento.
Ora, como sabem todos os que me lêem, o Leonardo tinha abandonado Luizinha; ela aceitou portanto indiferentemente a proposta de sua tia.
Escapula
Deixemos aos noivos o gozo tranqüilo da sua lua-de-mel; deixemos D. Maria desfazer-se em carinhos e conselhos à sua sobrinha, que os recebia indiferentemente, e em atenções para com José Manuel, cuja cabeça se tinha tornado repentinamente uma aritmética completa, toda algarismos, toda cálculos, toda multiplicações; e voltemos a saber o que foi feito do Leonardo, a quem deixamos na ocasião em que fora arrancado pelo Vidigal dos braços do amor e da folia.
O Vidigal tinha-o posto diante de si, ao lado de um granadeiro, e marchava poucos passos atrás. Enquanto caminhavam o granadeiro pretendeu dar-lhe conversa; mas ele a nada respondia, parecendo absorto em grave cogitação.
Quem estivesse muito atento havia de notar que algumas vezes o Leonardo parecia, ainda que muito ligeiramente, apressar o passo, que outras vezes o retardava, que seu olhar e sua cabeça se voltavam de vez em quando, quase imperceptivelmente, para a esquerda ou para a direita. O Vidigal, a quem nada disto escapava, achava em todas estas ocasiões pretextos para dar sinais de si; tossia, pisava mais forte, arrastava no chão o chapéu-de-sol que sempre trazia na mão, como quem queria dizer ao Leonardo, respondendo aos seus pensamentos íntimos:
-Cuidado! Eu aqui estou. -E o Leonardo entendia tudo aquilo às mil maravilhas; contraía os lábios de raiva e de impaciência. Entretanto nem por isso abandonava a sua idéia: queria fugir. Desconfiava que ia para a Casa da Guarda, e pedia interiormente aos seus deuses que alongassem de muitas léguas as ruas que tinha de percorrer. Quando via de longe uma esquina dizia consigo: -É agora; quebro por ali fora, e bato pernas. - Porém ao chegar perto da esquina, o Vidigal achava alguma coisa que dizer ao granadeiro, e passava-se a esquina. Se lhe aparecia à direita ou à esquerda um corredor aberto, pensava consigo: -Embarafusto por ali adentro, e sumo-me. - Mas no momento em que ia tomar a última decisão, parecia-lhe sentir a mão do Vidigal que o agarrava pela gola da jaqueta, e esfriava. Não eram os granadeiros que lhe metiam medo; nunca em todos os planos de fugir que lhe passavam naquela ocasião pela cabeça contou uma só vez com eles; mas o Vidigal, o cruel major, era a quantidade constante de seus cálculos.
O pobre rapaz, durante aqueles combates íntimos, suava mais do que no dia em que fez a primeira declaração de amor a Luizinha. Só havia na sua vida um transe a que assemelhava, aquele em que então se achava, era o que se havia passado, quando criança, naquele meio segundo que levara a percorrer o espaço nas asas do tremendo pontapé que lhe dera seu pai.
Repentinamente uma circunstância veio favorecê-lo. Não sabemos por que causa ouviu-se um grande alarido na rua: gritos, assovios e carreiras. O Leonardo teve uma espécie de vertigem: zuniram-lhe os ouvidos, escureceram-se-lhe os olhos, e... dando um encontrão no granadeiro que estava perto dele, desatou a correr. O Vidigal deu um salto, e estendeu o braço para o agarrar; mas apenas roçou-lhe com a ponta dos dedos pelas costas. O rapaz tinha calculado bem: o Vidigal distraiu-se com o ruído que se fizera na rua, e aproveitou a ocasião. O Vidigal e os granadeiros soltaram-se imediatamente em seu alcance: o Leonardo embarafustou pelo primeiro corredor que achou aberto; os seus perseguidores entraram incontinenti atrás dele, e subiram em tropel o primeiro lance da escada. Apenas o haviam dobrado, e subiam o segundo, abriram-se as cortinas de uma cadeirinha que se achava na entrada, e pela qual tinham eles passado, sai dela Leonardo, e de um pulo ganha a rua. Ao entrar, tendo dado com aquele refúgio, metera-se dentro; os granadeiros e o Vidigal não haviam reparado em tal com a precipitação com que entraram, e isso lhe valeu.
É impossível descrever o que sentiu o Leonardo quando por entre as cortinas da cadeirinha viu-os passar e subir a escada. Foi uma rápida alternativa de frio e de calor, de tremor e de imobilidade, de medo e de coragem; veio-lhe outra vez à lembrança o pontapé paterno: era o termo constante de comparação para todos os seus sofrimentos.
Enquanto o Vidigal e os granadeiros varejavam a casa em que haviam entrado, Leonardo punha-se longe, e em quatro pulos achava-se em casa de Vidinha, que o recebeu com um abraço, exclamando:
-Qual! Aí está ele!
Um raio de alegria iluminou todos os semblantes, menos o dos dois irmãos rivais, que ficaram horrivelmente desapontados. As duas velhas tiraram da cabeça a mantilha que já haviam tomado para dar providências sobre o caso. A presença do Leonardo foi uma aura benfazeja que espalhou as nuvens de uma grossa tormenta, que, tendo começado a roncar quando Leonardo foi preso com aquelas palavras -foi malsinação- viera desabar de todo em casa, e prometia durar muito tempo.
Vidinha, tendo a princípio trocado com os primos algumas indiretas a respeito da prisão de Leonardo, julgara conveniente deixar-se de panos quentes, e fora direito a eles, como se diz, com quatro pedras na mão, atribuindo-lhes o que acabava de suceder.
Eles denegaram, e travaram-se com ela de razões. A princípio as duas velhas estavam ambas da parte de Vidinha, porém, tendo esta atirado três ou quatro ditos fortes demais aos primos, a tia ofendeu-se, e tomou o partido dos dois filhos: a outra velha, mãe de Vidinha, protesta contra a parcialidade de sua irmã, e reforça ainda mais, acompanhada dos que restavam, o partido de Vidinha. Divididos e extremados assim os dois campos, com terríveis campeões de lado a lado, fácil é prever-se o que teria sucedido se o Leonardo não viesse tão a tempo para acalmar tudo.
Tomado pelo prazer de ver-se livre, nem teve ele tempo de fazer recriminações aos seus inimigos: já sabia com certeza quem fora a causa do que acabava de sofrer, pois que o tinha percebido pela conversa que com ele tentara travar o granadeiro.
O major Vidigal fora às nuvens com o caso: nunca um só garoto, a quem uma vez tivesse posto a mão, lhe havia podido escapar; e entretanto aquele lhe viera pôr sal na moleira; ofendê-lo em sua vaidade de bom comandante de polícia, e degradá-lo diante dos granadeiros. Quem pregava ao major Vidigal um logro, fosse qual fosse a sua natureza, ficava-lhe sob a proteção, e tinha-o consigo em todas as ocasiões. Se o Leonardo não tivesse fugido, e arranjasse depois a soltura por qualquer meio, o Vidigal era até capaz, por fim de contas, de ser seu amigo; mas tendo-o deixado mal, tinha-o por seu inimigo irreconciliável enquanto não lhe desse desforra completa.
Já se vê pois que as fortunas do Leonardo redundavam-lhe sempre em mal: era realmente um mal naquele tempo ter por inimigo o major Vidigal, principalmente quando se tinha, como o Leonardo, uma vida tão regular e tão lícita.
Veremos agora o que se passou na casa em que entrara o Vidigal com os granadeiros em procura do Leonardo.
O Vidigal desapontado
O major Vidigal, vendo-se logrado, deu urros; e, como já fizemos sentir aos leitores, prometeu a si mesmo tomar séria vingança do Leonardo.
-Ora, dizia ele consigo, gastar meu tempo nesta vida, gastar os meus miolos a pensar nos meios de dar caça a quanto vagabundo gira por esta cidade, conseguir, à custa de muitos dias de fadiga, de muitas noites passadas sem pregar olho, de muita carreira, de muito trabalho, fazer-me temido, respeitado por aqueles que a ninguém temem e respeitam, os vadios e peraltas; e agora no fim de contas vir um mequetrefezinho pôr-me sal na moleira, envergonhar-me diante destes soldados e de toda esta gente! Agora, não há garoto por aí que, sabendo disto, não se esteja a rir de mim, e não conte já com a possibilidade de me pregar um segundo mono como este!...
O major tinha razão: riam-se com efeito dele; e os primeiros que o faziam eram os granadeiros. Apesar de que, escravos da disciplina, empregavam os mais sinceros esforços para coadjuvá-lo; e apesar também de que revertia para eles alguma glória das façanhas do major, não puderam entretanto deixar de achar graça no que acabava de suceder, pois conheciam a presunção do Vidigal, e repararam na cara desapontada com que ele havia ficado. Depois, apenas o major pôs pé fora da soleira da casa onde lhe tinha escapado Leonardo, uma multidão imensa que tudo havia presenciado desatou a rir estrondosamente.
-Então, Sr. major, dizia-lhe um dos da turba, desta vez:
Passarinho foi-se embora,deixou-me as penas na mão.
-Sr. major, dizia outro, procure nos bolsos.
-Dentro da barretina emendava outro.
-Atrás da porta, replicava aquele.
E um coro de risadas acompanhava cada um destes conselhos.
-Lá está o bicho dentro da cadeirinha! gritou um repentinamente.
-O Vidigal, como que instintivamente, correu à cadeirinha e abriu-lhe as cortinas.
Nessa ocasião as risadas foram homéricas: o major compreendeu então qual fora o meio por que lhe escapara o Leonardo, e soltou um -ah!- prolongadíssimo. Enfim retirou-se acabrunhado, e ruminando projetos para sua reabilitação.
-Se aqueles rapazes da Conceição, dizia consigo o Vidigal, que me foram levar a nota do tal malandro, me tivessem avisado que ele era desta laia, eu não teria passado por esta imensa vergonha.
Por estas palavras vêem os leitores que as imputações da Vidinha contra os primos tinham mais que muito fundamento. Com efeito, o que se acabava de passar não era senão o resultado do ajuste que no dia da grande briga, por aquele motivo que o leitor bem sabe, haviam feito os dois rivais: tinham eles malsinado ao Leonardo. Foram ter com o Vidigal, e sem precisar mentir armaram ao Leonardo uma cama muito bem-feita: era um homem sem ofício nem benefício, vivendo à custa alheia, enchendo de pernas a casa de duas mulheres velhas, a quem não tinha aproveitado a experiência, e, o que é mais, roubando aos primos o amor de sua prima.
O Vidigal regalara os olhos ouvindo a narração, e ficara muito agradecido aos dois rapazes pela nova que lhe levaram: era mais um pendão que ia juntar aos louros de suas façanhas policiais. A primeira tentativa custou-lhe porém bem caro.
Eis aqui pouco mais ou menos as reflexões em que o major ia engolfado: -Nada lhe seria mais agradável do que dia mais dia menos, quando ninguém pensasse em tal, acompanhado de uma escolta de granadeiros, dirigir-se à casa das duas velhas, cercá-la, e pilhar o Leonardo sem que lhe pudesse escapar. Isto porém repugnava ao seu orgulho ofendido. Muitas vezes se tinha, é verdade, servido desse meio, porém fora isso para poder pilhar a capadócios de longa data, tidos e havidos como tais, e velhos no ofício. Não queria pois servir-se do mesmo meio para agarrar um recruta no ofício, que ainda agora começava. Nada, tal não fazia; não havia fazer cerco, e o que é mais, não queria de modo algum o adjutório dos granadeiros; jurava a si mesmo que ele sozinho, sem o apoio de ninguém, havia de pôr a mão no Leonardo.
Ia o Vidigal entrando na casa da guarda, para onde se dirigia, depois da derrota, quando se sentiu repentinamente agarrado pelas pernas, e viu a seus pés uma mulher de mantilha, que chorava, soluçando muito, com o lenço no rosto.
-Que é isto, senhora? Deixe-me. Ora, isto hoje é dia de má sina.
Continuaram os soluços por única resposta.
-Senhora, deixa-me ou não as pernas? Eu não gosto de carpideiras... entende?
Soluços ainda.
-Ora, não está má esta... Se lhe morreu alguém, vá chorar na cama, que é lugar quente.
Redobrou o pranto.
-Valham-me trezentos diabos!... Quando é que isto terá fim?... Esta mulher acaba por atirar-me no chão...
Estava já muita gente junta na porta.
Passado finalmente um pouco de tempo em silêncio, quando já o major estava disposto a empregar alguma medida de rigor para ver-se livre da carpideira, esta ergueu a cabeça, e tirando o lenço da cara exclamou entre lágrimas:
-Sr. major, solte, solte por quem é meu afilhado, solte, solte o pobre rapaz; ele é um doido, é verdade, mas...
E os soluços lhe embargaram muito a propósito a voz.
Era a comadre que, tendo sabido da prisão do afilhado, viera fazer em seu favor aquela choradeira, ignorando que ele se tivesse evadido. A cena produziu o efeito esperado. Os granadeiros, de cada vez que a comadre dizia - solte, solte - desatavam a rir; tendo por boca pequena explicado tudo aos demais circunstantes, estes os acompanhavam.
O major tomou tudo aquilo como um escárnio que o gênio da vadiação e do garotismo lhe fazia: era mister que ele, para ver-se livre da comadre, que não lhe largava os joelhos, declarasse por sua própria boca, diante de toda aquela gente, que o Leonardo havia fugido! Declarou-o, e fugiu de todos aqueles olhares, em cada um dos quais via um insulto.
A comadre apenas ouviu a declaração, tratou de retirar-se, e não pôde também deixar de achar graça no caso.
Caldo entornado
A comadre, tendo deixado o major entregue à sua vergonha, dirigira-se imediatamente para a casa onde se achava Leonardo para felicitá-lo e contar-lhe o desespero em que a sua fuga tinha posto o Vidigal. O Leonardo contava com isso, e não se admirou; Vidinha porém e as duas velhas, por entre muita praga e esconjuro, deram grandes risadas à custa do major. A comadre, segundo seu costume, aproveitou o ensejo, e depois que se aborreceu de falar no major desenrolou um sermão ao Leonardo, no qual, algumas exagerações de parte, havia grande fundo de justiça; e tanto que até a própria Vidinha chegou a dar-lhe inteira razão quanto a alguns trechos. O tema do sermão foi a necessidade de buscar o Leonardo uma ocupação, de abandonar a vida que levava, gostosa sim, porém sujeita a emergências tais como a que acabava de dar-se. A sanção de todas as leis que a pregadora impunha ao seu ouvinte eram as garras do Vidigal.
-Haveis de afinal cair-lhe nas unhas, dizia ela no fim de cada período; e então o côvado e meio te cairá também nas costas.
Esta idéia do côvado e meio fez brecha no espírito do Leonardo: ser soldado era naquele tempo, e ainda hoje talvez, a pior coisa que podia suceder a um homem. Prometeu pois sinceramente emendar-se e tratar de ver um arranjo em que estivesse ao abrigo de qualquer capricho policial do terrível major. Achar porém ocupação para quem nunca cuidou nela até certa idade, e assim de pé para mão, não era das coisas mais fáceis.
Entretanto o zelo da comadre pôs-se em atividade, e poucos dias depois entrou ela muito contente, e veio participar ao Leonardo que lhe tinha achado um excelente arranjo que o habilitava, segundo pensava, a um grande futuro, e o punha perfeitamente a coberto das iras do Vidigal; era o arranjo de servidor na ucharia real. Deixando de parte o substantivo ucharia, e atendendo só ao adjetivo real, todos os interessados e o próprio Leonardo regalaram os olhos com o achado da comadre. Empregado da casa real?! oh! isso não era coisa que se recusasse; e então empregado na ucharia! essa mina inesgotável, tão farta e tão rica!... A proposta da comadre foi aceita sem uma só reflexão contra, da parte de quem quer que fosse.
Como a comadre pudera arranjar semelhante coisa para o afilhado, é isso que pouco nos deve importar.
Dentro de poucos dias achou-se o Leonardo instalado no seu posto, muito cheio e contente de si.
O major, que o não perdia de vista, soube-lhe dos passos, e mordeu os beiços de raiva quando o viu tão bem aquartelado; só deixando a vida que levava podia o Leonardo cortar ao major pretextos para pôr-lhe a unha mais dia menos dia.
-Se ele se emenda?! dizia pesaroso o major; se ele se emenda perco eu a minha vingança... Mas... (e esta esperança o alentava) ele não tem cara de quem nasceu para emendas.
O major tinha razão: o Leonardo não parecia ter nascido para emendas. Durante os primeiros tempos de serviço tudo correu às mil maravilhas; só algum mal-intencionado poderia notar em casa de Vidinha uma certa fartura desusada na despensa; mas isso não era coisa em que alguém fizesse conta.
O Leonardo porém parece que recebera de seu pai a fatalidade de lhe provirem sempre os infortúnios dos devaneios do coração.
Dentro do pátio da ucharia morava um toma-largura em companhia de uma moça que lhe cuidava da casa; a moça era bonita, e o toma-largura um machacaz talhado pelo molde mais grotesco; a moça fazia pena a quem a via nas mãos de tal possuidor.
O Leonardo, cujo coração era compadecido, teve, como todos, pena da moça; e apressemo-nos a dizer, era tão sincero esse sentimento que não pôde deixar de despertar também a mais sincera gratidão ao objeto dele. Quem pagou o resultado da pena de um e da gratidão da outra foi o toma-largura.
Vidinha lá por casa começou a estranhar a assiduidade do novo empregado na sua repartição, e a notar o quer que fosse de esmorecimento de sua parte para com ela.
Um dia o toma-largura tinha saído em serviço; ninguém esperava por ele tão cedo: eram 11 horas da manhã. O Leonardo, por um daqueles milhares de escaninhos que existem na ucharia, tinha ido ter à casa do toma-largura. Ninguém porém pense que era para maus fins. Pelo contrário era para o fim muito louvável de levar à pobre moça uma tigela de caldo do que há pouco fora mandado a el-rei... Obséquio de empregado da ucharia. Não há aqui nada de censurável. Seria entretanto muito digno de censura que quem recebia tal obséquio não o procurasse pagar com um extremo de civilidade: a moça convidou pois ao Leonardo para ajudá-la a tomar o caldo. E que grosseiro seria ele se não aceitasse tão belo oferecimento? Aceitou.
De repente sente-se abrir uma porta: a moça, que tinha na mão a tigela, estremece, e o caldo entorna-se.
O toma-largura, que acabava de chegar inesperadamente, fora a causa de tudo isto. O Leonardo correu precipitadamente pelo caminho mais curto que encontrou; sem dúvida em busca de outro caldo, uma vez que o primeiro se tinha entornado. O toma-largura corre-lhe também ao alcance, sem dúvida para pedir-lhe que trouxesse desta vez quantidade que chegasse para um terceiro.
O caso foi que daí a pouco ouviu-se lá por dentro barulho de pratos quebrados, de móveis atirados ao chão, gritos, alarido; viu-se depois o Leonardo atravessar o pátio da ucharia à carreira, e o toma-largura voltar com os galões da farda arrancados, e esta com uma aba de menos.
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No dia seguinte o Leonardo foi despedido da ucharia.
Ciúmes
No dia seguinte já o Vidigal sabia de cor e salteado tudo quanto havia sucedido ao Leonardo, e pôs-se alerta, pois que a ocasião era oportuna.
O Leonardo entrara para a ucharia com o pé esquerdo: a tormenta por que havia passado nada foi em comparação da que lhe caiu nas costas, quando em casa se soube da causa verdadeira de sua saída.
É uma grande desgraça não corresponder à mulher a quem amamos aos nossos afetos; porém não é também pequena desventura o cairmos nas mãos de uma mulher a quem deu na cabeça querer-nos bem deveras. O Leonardo podia dar a prova desta última verdade. Vidinha era ciumenta até não poder mais: ora, as mulheres têm uma infinidade de maneiras de manifestar este sentimento. A umas dá-lhe para chorar em um canto, e choram aí em ar de graça dilúvios de lágrimas: isto é muito cômodo para quem as tem de sofrer. Outras recorrem às represálias, e nesse caso desbancam incontinenti a quem quer que seja: esta maneira é seguramente muito agradável para elas próprias. Outras não usam da mais leve represália, não espremem uma lágrima, mas assim por um espaço de oito ou quinze dias, desde que desponta a aurora, até que cai a noite, resmungam um calendário de lamentações, em que entram seu pai, sua mãe, seus parentes e amigos, seu compadre, sua comadre, seu dote, seus filhos e filhas, e tudo por aí além; isso sem cessar um só instante, sem um segundo de descanso: de maneira a deixar na cabeça do mísero que a escuta uma assuada eterna, capaz de fazer amolecer um cérebro de pedra. Outras entendem que devem afetar desprezo e pouco-caso: essas tornam-se divertidas, e faz gosto vê-las. Outras enfim deixam-se tomar de um furor desabrido e irreprimível; praguejam, blasfemam, quebram os trastes, rompem a roupa, espancam os escravos e filhos, descompõem os vizinhos: esta é a pior de todas as manifestações, a mais desesperadora, a menos econômica, e também a mais infrutífera. Vidinha era do número destas últimas.
Apenas pois, como há pouco dizíamos, se verificou a verdadeira causa da saída do Leonardo, desabou um temporal que só terá semelhante no que há de preceder ao aniquilamento do globo. Depois de gritar, chorar, maldizer, blasfemar, ameaçar, rasgar, quebrar, destruir, Vidinha parou um instante, concentrou-se, meditou, e depois, como tomando uma grande resolução:
-Minha mãe, disse dirigindo-se a uma das velhas, quero a sua mantilha...
-Filha de Deus, acudiu a velha, que desatino é esse? onde é que ides agora de mantilha?...
-Eu cá sei onde vou... quero a sua mantilha... tenho dito... quero a sua mantilha...
Foram todos reunindo-se em roda de Vidinha, surpreendidos por aquela resolução.
O Leonardo estava sentado, ou antes encolhido a seu canto, quedo e silencioso.
-Quero a sua mantilha, minha mãe; quero, e quero...
-Mas para onde ides, rapariga?... Ora, meu Deus!... Isso foi coisa que vos fizeram...
-Quero ir à ucharia...
-Jesus!...
-Quero ir... que me importa que seja a casa do rei?... Hei de ir... hei de procurar o tal toma-largura... quero fazer-lhe cá duas perguntas... e, ou o Menino Jesus não é filho da Virgem, ou na tal ucharia não fica hoje coisa sobre coisa.
-Que loucura, rapariga... que desatino!...
Os dois primos riam-se interiormente do que se estava passando.
Não há coisa mais eminentemente prosaica do que uma mulher quando se enfurece. Tudo quanto em Vidinha havia de requebro, de languidez, de voluptuosidade tinha desaparecido; estava feia, e até repugnante.
Ninguém houve que a pudesse desviar do seu propósito: ela foi tomando a mantilha e dispondo-se a sair; rogos, choros, nada a pôde conter.
O Leonardo viu que o caso estava malparado, e, tendo estado até então calado, decidiu-se também a pedir a Vidinha que não saísse. Foi, como se costuma dizer, pior a emenda que o soneto.
-Qual!... responde Vidinha... essa agora é que havia de ser bonita... Qual! pois eu não hei de sair?... Tinha que ver... então por pedido do senhor? Ora, qual...
E foi saindo.
Começava a anoitecer.
A gente de casa ficou toda na maior aflição; ninguém sabia o que se havia de fazer. O Leonardo tomou a resolução de acompanhar Vidinha a ver se a detinha em caminho.
Vidinha caminhava tão depressa que a princípio o Leonardo quase que a perdia de vista; finalmente conseguiu alcançá-la, e começou a pedir-lhe que voltasse, fazendo as maiores promessas de comedir-se dali em diante, e de lhe não dar mais motivos de desgosto. Vidinha porém a nada atendia, e caminhava sempre. O Leonardo recorreu a ameaças; Vidinha redobrou os passos: voltou de novo a rogativas; Vidinha caminhava sempre.
Já estavam no largo do Paço: Vidinha, quase a correr, deixou o Leonardo umas poucas de braças atrás de si, entrou muito adiante dele pelo portão da ucharia adentro, e desapareceu. O Leonardo parou um instante a resolver-se se entraria também ou não. Finalmente decidiu-se a entrar. No momento em que ia transpondo a soleira do portão, voltou repentinamente, e ia disparando uma carreira: uma mão magra, mas vigorosa, o deteve agarrando-o pela gola da jaqueta: era a mão do major Vidigal, com quem ele havia esbarrado ao querer entrar, e de quem pretendia fugir. Vendo que lhe seria inútil qualquer tentativa, porque ali perto havia guarda, o Leonardo resignou-se. O major olhou para ele soltando uma risadinha maligna, e disse-lhe apenas muito pausada e descansadamente:
-Ora, vamos...
O Leonardo entendeu bem a significação daquelas duas palavras, e caminhou, ao lado do major, na direção que este lhe indicava.
Fogo de palha
Deixemos o Leonardo seguindo seu destino acompanhado do major Vidigal, e vamos ver o que se passou na ucharia depois de sua prisão. Vidinha indagou aqui, indagou ali, e lá entrou como um raio pela casa do toma-largura. A moça do caldo, achando-se nessa ocasião descuidada, sofreu um grande susto com a chegada de Vidinha, que, conhecendo por instinto ser aquela a causa de seus males, foi largando a mantilha sobre uma cadeira e investindo para ela.
-Venho aqui, disse, para lhe dizer mesmo na cara que vm.cê é uma criatura sem sentimentos...
A moça, não podendo atinar com a significação daquilo, ficou pasma e sem saber o que havia de responder.
Vidinha prosseguiu:
-Não tem sentimentos, digo-lho, e ninguém me há de desdizer.
-Vamos ver que diabo de história é esta, bradou uma voz de estentor.
Era o toma-largura que, achando-se em casa naquela ocasião, e tendo ouvido as duas primeiras apóstrofes de Vidinha, chegava para dar fé do que se passava.
Por mais arrogante que fosse a voz do toma-largura, e por mais ameaçadora que fosse a sua figura quase hercúlea, Vidinha não recuou um passo, não desfez uma ruga da testa, antes pareceu mostrar que a sua presença ali favorecia suas intenções; tanto que dirigindo-se a ele o foi logo apostrofando também pela seguinte maneira:
-É vm.cê um homem que eu não sei para que traz barbas nessa cara...
A surpresa, e mesmo também a figura de Vidinha, descomposta pela raiva, desarmaram-no um pouco; e respondeu mais mansamente:
-Então, menina, veio aqui só para dizer coisas assim tão bonitas? Quem a trouxe cá?
-Ora, quem me havia de trazer? respondeu Vidinha em tom de mofa, lançando para a terceira personagem desta cena um olhar significativo; ora, quem me havia de trazer?... Qual!... eu vim só ver se podia tomar um caldo!...
A moça do toma-largura empalideceu, este regalou os olhos, e abanou com a cabeça como quem dizia -entendo,- e quis ficar imediatamente muito zangado com a recordação daquele fato, que a humildade de sua companheira, e talvez mesmo o seu humor, tinha feito esquecer. Vidinha porém para dizer aquelas últimas palavras tinha serenado um pouco o seu semblante, e ganhara muito em seus encantos desfigurados até então pela raiva; além disso, ao pronunciar o -qual- do costume, descerrara um ligeiro sorriso, deixando ver seus magníficos dentes.
O toma-largura parecia pertencer talvez à família dos Leonardos; enterneceu-se imediatamente, e não teve ânimo senão de sorrir-se e responder em tom desconcertado:
-Ora!...
-Ora, replicou Vidinha; e então, ele não diz -ora?- Qual! É preciso não ter pinga de vergonha: estas duas criaturas nasceram uma para a outra: Deus os fez e o Diabo os ajuntou; uma toma caldo e o outro diz - ora...
E foi tomando a mantilha e tratando de sair.
Dera tudo em fogo de palha. Ela tinha esperado achar respostas enérgicas às suas invectivas, e neste pressuposto concertara mil planos de ataques, de defesa, de gritaria, de pancadas, de prisões, etc. Nada disto porém tinha sucedido, e sem saber por que, ela mesma se sentia um pouco aliviada, quase até mesmo satisfeita. Deu mais rajadas aos dois; explicou quem era, mas não disse o que queria. Afinal, sem nada ter feito saiu dizendo:
-Ah! Pensavam que a coisa havia de ficar assim? Disse-lhes poucas, porém boas...
O coração da mulher é assim; parece feito de palha, incendeia-se com facilidade, produz muita fumaça, mas em cinco minutos é tudo cinza que o mais leve sopro espalha e desvanece.
O toma-largura, apenas a viu sair, em vez de prorromper numa matinada contra sua companheira, como ela o esperava, pálida e trêmula, mostrou-se até tranqüilo, pretextou um afazer, e saiu também imediatamente. Andava-lhe na cabeça um plano cuja realização faria, como se costuma dizer, cair a sopa no mel. Vidinha tinha-o encantado; o Leonardo o havia ofendido; conquistar ainda que fosse uma diminuta parcela do amor da Vidinha, seria ao mesmo tempo vingar-se do Leonardo e alcançar o triunfo de um desejo. Por mais impossível que lhe parecesse o negócio, nem por isso esmoreceu; era tenaz e paciente.
Chegando ao portão da ucharia indagou da sentinela a direção que Vidinha tinha tomado, seguiu por ela, e em breve alcançou-a: acompanhou-a de longe para saber-lhe da morada, e viu-a entrar em casa.
Represálias
Quando Vidinha chegou à casa achou ainda toda a família no maior susto e confusão pelo desatino que ela acabava de praticar: as duas velhas, ao vê-la entrar, lançaram-se-lhe ao pescoço, e cobriram-na de abraços, de beijos e de lágrimas. Ela estava ainda porém sob a influência das emoções violentas por que acabava de passar, e não pôde corresponder àquelas provas de amizade; atirou-se sobre uma banquinha, e levou algum tempo calada, sem dar a menor resposta às mil perguntas que lhe eram dirigidas. Esse silêncio mais aumentava a ansiedade da família: finalmente resolveu-se ela a rompê-lo, exclamando:
-Pensavam que o caso havia de ficar assim? Enganaram-se... Qual!... Eu quero que fiquem sabendo para quanto presto...
-Então, rapariga, foste fazer alguma asneira...
-Asneira... qual... fiz o que faz qualquer mulher que tem sangue na guelra... E agora venha ele para cá, que temos ainda contas a ajustar...
-É verdade, e ele que ainda não veio... já tinha tempo de chegar, pois partiu logo no vosso alcance...
-É verdade... acrescentou Vidinha com certo susto; na tal cova da ucharia não entrou ele; e quando de lá saí não o vi mais...
-Não lhe vá ter sucedido alguma coisa!... O major o jurou!...
-O major!... repetiram todas com os sinais do mais visível susto.
E levantou-se de novo em casa a confusão, porque, como os leitores terão visto, apesar dos dissabores que o Leonardo causava àquela família, todos ali, exceto os dois primos rivais, queriam-lhe muito e muito bem. Falar a qualquer dos dois primos para que o fossem procurar, era coisa de que ninguém se lembrava, tão certos estavam que eles se haviam recusar. Tiveram pois de esperar que chegasse da rua o antigo sacristão da Sé para darem as providências precisas.
Os leitores terão talvez estranhado que em tudo quanto se tem passado em casa da família de Vidinha não tenhamos falado nesta última personagem; temo-lo feito de propósito, para dar assim a entender que em nada disso tem ele tomado parte alguma.
Causa remota e primordial de todos estes acontecimentos, pois foi em conseqüência de sua amizade que o Leonardo se juntou à família, por muito feliz se tem dado em que não tenham caído sobre ele inculpações de que com dificuldade se poderia defender; homem de tato, conservara uma posição absolutamente neutral em todas aquelas lutas. Eis aqui pois qual a causa do nosso silêncio sobre ele.
Infelizmente naquela noite recolheu-se mais tarde que de costume, e quando chegou já não era tempo de fazer coisa alguma. Toda a família passou a noite na maior ansiedade, desvanecidas de certa hora em diante as esperanças de ver chegar o Leonardo a cada momento. Ninguém duvidava mais que alguma coisa tivesse sucedido ao Leonardo, e nos quadros medonhos que cada qual imaginava, a figura do major Vidigal aparecia sempre em primeiro plano; ninguém também duvidava que no quer que fosse que houvesse sucedido ao Leonardo, o major teria por força parte ativa e importante, senão principal.
Assim, ao amanhecer do dia seguinte o primeiro lugar onde mandaram saber dele foi na Casa da Guarda. Mas, com surpresa geral, ele não se achava nela, nem sabiam notícias suas; procurou-se em diversos outros pontos, e nada de novo, nem novas nem mandados. Por lembrança de Vidinha foram procurar a comadre, e informaram-na de todo o ocorrido: a pobre mulher, que tudo ignorava, pôs as mãos na cabeça:
-Aquele rapaz nasceu em mau dia, disse ela, ou então aquilo é coisa que lhe fizeram; do contrário não pode ser...
E pôs-se logo a caminho a procurar o afilhado.
Na comadre estavam fundadas toda as esperanças; ninguém duvidava que apenas ela se pusesse na rua prontamente se saberia o destino do Leonardo. Enganaram-se todos, porque nem a própria comadre foi capaz de dar com ele, por tão bom caminho o tinha levado o major. Passaram muitos dias na mais completa ignorância a respeito do seu fim; e começaram desde então a aparecer suspeitas de que ele próprio teria talvez interesse em ocultar-se, e de que era essa a causa por que ainda o não haviam descoberto. Estas suspeitas tomaram vulto, e uma certa indignação começou a aparecer em toda a família contra semelhante proceder. A indignação cresceu e tomou repentinamente proporções de ódio intenso, até da parte das próprias duas velhas.
Realmente, a ser verdade o que pensavam, não haveria ingratidão mais negra do que a do Leonardo para com aquela que tão benignamente o acolhera. Nas invectivas a cada momento dirigidas contra ele, Vidinha tomava sempre o primeiro lugar, e tinha razão para isso; além de ter contra ele as razões que tinham todos os outros, tinha ainda o despeito do amor ofendido. Em certos corações o amor é assim, tudo quanto tem de terno, de dedicado, de fiel, desaparece depois de certas provas, e transforma-se num incurável ódio.
Uma coisa singular notara a Vidinha desde que fora à ucharia, e é que não se passava depois disto um só dia em que ela não visse pelo menos duas vezes o toma-largura. Tinha-o ela mostrado à família, e já todos o conheciam. A princípio isso incomodou-a, e tanto mais que ele não passava uma só vez que lhe não tirasse o chapéu com ar risonho: parecia-lhe semelhante coisa uma prova de desabrida falta de vergonha. Mais tarde começou a suspeitar que aquela passagem constante e aqueles cumprimentos deviam por força ter alguma explicação.
Aconteceu que uma das velhas, a mãe de Vidinha, confessasse não ter achado o toma-largura mal-apessoado, e esta idéia passou a toda a família. Um dia uma das velhas achando-se na janela com Vidinha, na ocasião em que passava o toma-largura, disse entre dentes, e como que indiferentemente:
-Se fosse comigo, bem sabia eu cá o que havia de fazer...
Vidinha, se bem que não pedisse explicação daquele dito, não deixou contudo de dar-lhe atenção e de cismar nele por algum tempo.
No dia seguinte a mesma velha chamou-a para a janela à hora do dia antecedente; e o toma-largura passou como sempre, e fez o seu cumprimento. A velha disse nessa ocasião, como completando o seu pensamento da véspera:
-Ora, eu pregava um mono ao tal Leonardo... e então este que era bem pregado, por ser ao mesmo tempo aos dois, a ele e a ela.
Lendo na intimidade do pensamento da velha, com a nossa liberdade de contador de histórias, diremos ao leitor, que o não tiver adivinhado, que aquele -ela- referia-se à moça do caldo.
Dada esta explicação, os menos perspicazes entenderão sem dúvida em que consistia o mono que a velha pregaria ao Leonardo.
Vidinha, que nada tinha de pouco inteligente, compreendeu tudo às mil maravilhas, e com tanto mais facilidade, digamo-lo aos leitores, quanto talvez que o pensamento da velha correspondesse a seus próprios pensamentos. Repetiram-se depois disto mais algumas indiretas da parte da velha, e Vidinha chegou finalmente a explicações.
Pouparemos aos leitores certos detalhes, e diremos que o resultado de tudo aquilo foi ver-se, poucos dias depois, o toma-largura em casa de Vidinha fazendo uma visita à família!!...
As visitas continuaram, e pela vizinhança começou a ouvir-se um rumor que tinha tanto de malévolo como de verdadeiro.
Estavam as coisas neste pé. A paz tinha sido restituída à família. Não sei quem propôs que se solenizasse o restabelecimento do sossego e as novas venturas com uma súcia para fora da cidade. Efetuou-se semelhante pensamento. Por uma singularidade escolheram para lugar da patuscada os -Cajueiros,- onde a família tinha feito conhecimento com o Leonardo.
O toma-largura fora convidado, nem podia deixar de sê-lo, porque era ele um dos motivos da festa. Infelizmente porém tinha ele um defeito: no estado ordinário costumava beber sofrivelmente; quando tinha algum motivo de alegria costumava dobrar a dose, e quando isto sucedia dava-lhe para valentão e desordeiro. Disto resultou que no meio da súcia, na ocasião de jantar, deu-se por ofendido, não sabemos por que, e começou por agarrar nas pontas da esteira que servia de mesa, e fazer voar sobre a cabeça dos convivas pratos, garrafas, copos e tudo o mais. Os dois primos quiseram contê-lo, mas não o conseguiram: Vidinha chorava, as velhas se maldiziam; uns tentavam restabelecer a paz, e outros aumentavam a desordem. Reinava por conseqüência uma algazarra infernal.
Quando menos o esperavam, viu-se surdir dentre as moitas o major Vidigal fechando um círculo de granadeiros que partiam de sua esquerda e de sua direita, e que encerravam toda a súcia.
-Segura aquele homem, granadeiro, disse o major a um dos seus soldados, apontando para o toma-largura que se achava em pé cambaleando, tendo numa mão um balaio em que viera a farinha, e na outra uma garrafa com que ameaçava os circunstantes.
À ordem do major o granadeiro hesitou: toda a família, reunindo-se em um grupo, soltou um grito de espanto apontando para o soldado.
-Então! replicou o major vendo aquela hesitação.
O granadeiro deu um passo para o toma-largura.
-Devagar com a louça, camarada, bradou este; lembre-se que ainda não ajustamos contas a respeito daquele caldo...
O toma-largura acabava de reconhecer no granadeiro o nosso amigo Leonardo, como toda a família o tinha reconhecido apenas ele apareceu.
Era com efeito ele.
O granadeiro
Estavam pois as contas ajustadas completamente entre o Leonardo e o toma-largura; haviam-se vingado um do outro: o último golpe na luta competira ao Leonardo: ele abençoou o acaso, e mesmo o major Vidigal, por lhe ter fornecido ocasião de ir arrancar dos lábios de seu rival a taça da ventura. Até quase que estimou que lhe tivessem sentado praça; e bem dissemos nós que para ele não havia fortuna que não se transformasse em desdita, e desdita de que lhe não resultasse fortuna.
O toma-largura, como dissemos, fora levado pelo Leonardo; e os leitores, familiarizados com o destino que tinham todos os prisioneiros do major Vidigal, adivinham já que lhe indicaram o caminho da Casa da Guarda no largo da Sé. O estado em que ele se achava não permitiu porém que o levassem até lá. Os vapores que do estômago lhe tinham subido à cabeça foram-se pouco a pouco condensando, e em meio do caminho pesavam-lhe sobre o cérebro vinte arrobas; a cabeça, não se podendo manter, abandonou-se ao tronco, que, achando o peso excessivo, quis apelar para as pernas; estas porém não eram mais fortes, e, curvando-se trêmulas e bambas, deram com o valentão de ainda há pouco estirado na calçada. Os soldados não o puderam levantar, porque era, como dissemos a princípio, de uma corpulência colossal. Foi mister pois abandonar a presa: o major não teve grande dificuldade nisso, primeiro, pelo trabalho que daria qualquer outra resolução, segundo, porque se bem que da última classe, sempre era o toma-largura gente da casa real, e nesse tempo tal qualidade trazia consigo não pequenas imunidades.
O Leonardo tentou ainda alguns meios para que lhe não escapasse assim sem resultado mais estrondoso a primeira presa que fazia, pois era isto de mau agouro para o seu futuro militar; mas também sua mais bela vingança estava tomada.
Ficou pois o toma-largura abandonado na calçada.
Satisfaçamos agora em poucas palavras a curiosidade que têm sem dúvida os leitores de saber o como chegara o Leonardo à posição em que se achava. Agarrado pelo major na porta da ucharia, como se sabe, fora por ele em pessoa conduzido a lugar seguro, donde só saíra para sentar praça no Regimento Novo. Todos os batalhões que havia na cidade tinham uma companhia de granadeiros, e, havendo uma vaga na companhia do Regimento Novo, fora o Leonardo escolhido para preenchê-la. Sabendo disto o major, reclamou-o para seu serviço (porque era dessas companhias de granadeiros que se tiravam soldados para o serviço policial), pois, como homem experimentado naquelas coisas, pressentira que ele lhe seria um valioso auxiliar. Até um certo ponto o major não se enganou. Com efeito o Leonardo, sendo naturalmente astuto, e tendo até ali vivido numa rica escola de vadiação e peraltismo, deveria conhecer todas as manhas do ofício. Havia porém uma circunstância que o impedia de prestar bons serviços, e era que com ele próprio, com suas próprias façanhas, tinha muitas vezes o major de gastar o tempo que lhe era preciso para o demais. O poder dos hábitos adquiridos era nele tal, que nem mesmo o rigor da disciplina lhe servia de barreira.
Contemos a primeira diabrura que lhe lembrou praticar depois que vestiu farda, e que foi tanto mais sensível quanto a princípio se mostrara um soldado por tal maneira sisudo que ia quase adquirindo reputação de rígido.
Os gaiatos e suciantes da cidade, a quem o major Vidigal dava constantemente caça, lembraram-se de imortalizar as suas façanhas por qualquer meio, e inventaram um fado com o seguinte estribilho nas cantigas:
Papai lêlê, seculorum.
Nesse fado a personagem principal representava o major, que, figurado morto, vinha estender-se amortalhado no meio da sala; as demais personagens cantavam-lhe em roda cantigas alusivas, que terminavam todas pelo estribilho que acima indicamos.
O major, que disto soubera, andava em busca de uma ocasião oportuna para tirar desforra de semelhante gracejo, que dava a entender qual era, a seu respeito, o desejo dos que o tinham inventado. Teve um dia denúncia que numa casa do morro da Conceição se preparava para essa noite um rigoroso -Papai lêlê,- e dispôs as coisas para pilhar os da roda em flagrante.
À hora oportuna mandou dois ou três granadeiros adiante, cada um por sua vez, para examinar o que havia, tendo combinado primeiramente um sinal positivo e outro negativo para indicarem uns aos outros se havia ou não ocasião e motivo de dar o assalto: estes sinais o granadeiro que devia aproximar-se mais da casa comunicaria ao que lhe ficasse imediato; este passaria adiante, o outro faria o mesmo até chegar ao lugar em que estava o major; era um verdadeiro sistema de sentinelas avançadas, como se se tratasse de uma grande campanha. No caso de ser dado o sinal positivo, marchariam todos vagarosamente, e se reuniriam para o assalto; dado o sinal negativo, dispersar-se-iam em silêncio, porque um dos maiores caprichos do major era nunca mostrar que havia sido logrado. Ao Leonardo coube a incumbência de ser a vedeta mais próxima ao inimigo, e de dar o primeiro sinal. Marchou pois adiante, e os companheiros postaram-se à espera. Esperaram por longo tempo, e cansaram de esperar; finalmente, quando já se iam dispondo a contravir as ordens e abandonar o posto para procurar o Leonardo, ouviram três vezes seguidas um longo assovio, que era o sinal negativo convencionado. Em virtude disto dispersaram-se exasperados, e foram depois reunir-se ao major embaixo da ladeira, no lugar que dá para a entrada do Aljube. Aí reunidos, esperaram muito tempo pelo Leonardo sem que ele aparecesse. O major principiou a cismar com o caso; de novo e repentinamente deu ordem de subir o morro. Subiram com efeito, e, marchando desta vez o major adiante, foram ter à casa indicada. Com surpresa de todos, apenas se foram aproximando viram luzes e ouviram o zunzum das violas e a toada das cantigas. Fervia dentro o fado rigoroso. Sem necessitar grandes precauções, porque todos pareciam entregues à maior segurança, cercou o major a casa, e apanhou tudo, como se costuma dizer, com a boca na botija. Estava-se exatamente no ponto solene da cerimônia.
Achava-se a personagem que representava o Papai amortalhado em um lençol, com a cabeça coberta, deitado no chão, e a chusma em roda a cantar e a dançar.
Quando o major bateu, e foi entrando, acompanhado da sua gente, ficou tudo gelado de medo: o sujeito que se achava amortalhado teve um grande estremeção e ficou depois imóvel, como se fosse de pedra, representando com mais propriedade do que talvez desejasse o papel de morto. Segundo seu costume, o major fez continuar por um pouco a brincadeira em sua presença. Depois começou a indagação das ocupações de cada um, e, conforme o que colhia, os foi mandando embora, ou pondo de parte, para lhes dar melhor destino. Durante toda esta cena, que levou seu tempo, o amortalhado deixou-se ficar imóvel, na mesma posição, com a cabeça coberta. Corrida toda a roda, disse-lhe o major:
-Olá, camarada da mortalha, então deveras você quer que o levem daí para a cova?
Nem um movimento em resposta.
-Ah! Está morto; perdeu a fala; é natural.
Silêncio profundo.
O major fez sinal a um dos granadeiros, que tocou no sujeito com a ponta do camarão: nem assim porém ele sequer moveu-se. A um novo sinal do major o granadeiro desandou-lhe uma tremenda lambada. Ressuscitou com isso o morto, e pôs-se de um salto em pé. Procurou porém evadir-se por uma janela, conservando sempre a cabeça coberta: os granadeiros seguraram-no, e o major disse-lhe:
-Homem, você por estar morto não tenha tanta pressa de ir para o inferno: fale primeiro com a gente.
E tirando-lhe o pano da cara acrescentou:
-Ora, vamos ver a cara do defunto...
Um grito de espanto, acompanhado de uma gargalhada estrondosa dos granadeiros, interrompeu o major. Descoberta a cara do morto, reconheceu-se ser ele o nosso amigo Leonardo!...
Novas diabruras
Não sabemos se valeu ao Leonardo ser aquela a primeira ocasião em que incorria em castigo, tendo até então guardado a mais rigorosa observância de todos os seus deveres, ou se a mesma audácia do fato lhe granjeara mais as simpatias do major; o caso foi que além das risadas, dos remoques dos camaradas e dos transes da meia hora que estivera amortalhado, nada mais lhe sucedeu, com espanto de todos, e principalmente dele mesmo: o major dera daquele modo uma grande prova de desusada benevolência. Andou pois o Leonardo por alguns dias cabisbaixo e pensativo, como esmagado ao peso de grandes remorsos; os camaradas tiravam daquilo um partido imenso para meterem-no à bulha, e não o deixavam parar um só instante sossegado na companhia.
-Ele ainda não está bem ressuscitado, dizia um passando-lhe por perto.
-Qual! dizia outro, ele já não é deste mundo.
-Papai lêlê, seculorum, entoavam outros em coro.
A nenhuma destas coisas dava ele a menor resposta, e tinha nisso bom aviso, porque desse modo poupava aos desapiedados camaradas tema para novos remoques. Passados aqueles transes tudo foi esquecido, e as coisas entraram de novo em seus eixos ordinários.
Um dia o major anunciou que tinha uma grande e importante diligência a fazer.
Havia um endiabrado patusco que era o tipo perfeito dos capadócios daquele tempo, sobre quem há muitos meses andava o major de olhos abertos, sem que entretanto tivesse achado ocasião de pilhá-lo: sujeitinho cuja ocupação era uma indecifrável adivinhação para muita gente, sempre andava entretanto mais ou menos apatacado: tudo quanto ele possuía de maior valor era um capote em que andava constantemente embuçado, e uma viola que jamais deixava. Gozava reputação de homem muito divertido, e não havia festa de qualquer gênero para a qual não fosse convidado. Em satisfazer a esses convites gastava todo o seu tempo. Ordinariamente amanhecia numa súcia que começara na véspera, uns anos, por exemplo; ao sair daí ia para um jantar de batizado; à noite tinha uma ceia de casamento. A fama que tinha de homem divertido, e que lhe proporcionava tão belos meios de passar o tempo, devia-a a certas habilidades, e principalmente a uma na qual não tinha rival. Tocava viola e cantava muito bem modinhas, dançava o fado com grande perfeição, falava língua de negro, e nela cantava admiravelmente, fingia-se aleijado de qualquer parte do corpo com muita naturalidade, arremedava perfeitamente a fala dos meninos da roça, sabia milhares de adivinhações, e finalmente, -eis aqui o seu mais raro talento,- sabia com rara perfeição fazer uma variedade infinita de caretas que ninguém era capaz de imitar. Era por conseqüência as delícias das espirituosas sociedades em que se achava. Quem dava uma súcia em sua casa, e queria ter grande roda e boa companhia, bastava somente anunciar aos convidados que o Teotônio (era este o seu nome) se acharia presente.
Agora quanto à sua ocupação ou meio de vida, que para muitos era, como dissemos, impenetrável segredo, o major Vidigal tanto fez que a descobriu: em dias designados da semana reunia-se no sótão onde ele morava certo número de pessoas que levavam até alta noite aí metidas: Teotônio era o banqueiro de uma roda de jogo.
Nesta conformidade andava o major a querer pilhá-lo em flagrante; e, como tentava isso desde muito sem que o pudesse conseguir, por ser sempre iludida a sua vigilância pela troca constante que faziam os da roda dos seus dias de reunião, resolveu pôr a mão no Teotônio na primeira ocasião, e servir-se depois dele para a captura dos outros companheiros.
Como os leitores estarão lembrados, o Leonardo-velho, isto é, o Leonardo-Pataca, vivia com a filha da comadre; dela tinha um descendente, a cujo nascimento nós os fizemos assistir. Pois, apesar de haver já passado algum tempo, a criança ainda não estava batizada. O Leonardo-Pataca, a instâncias da comadre, que muito se afligia com aquela demora, determinou finalmente o dia que ela se devia fazer cristã. Segundo os hábitos imutáveis, havia súcia por essa ocasião; e, segundo a moda, foi o Teotônio convidado. O major soubera de tudo, e era exatamente aí que o esperava, e tinha determinado pilhá-lo. Para isso dera aos seus soldados o aviso de que acima falamos.
Era má sina do major ter sempre de andar desmanchando prazeres alheios; e infelicidade para nós que escrevemos estas linhas estar caindo na monotonia de repetir quase sempre as mesmas cenas com ligeiras variantes: a fidelidade porém com que acompanhamos a época, da qual pretendemos esboçar uma parte dos costumes, a isso nos obriga.
À hora ajustada chegou o major à casa do Leonardo-Pataca; como não havia o menor motivo para violências, porque tudo corria na mais perfeita paz, o major entrou sozinho, com prévia permissão do Leonardo-Pataca, e assistiu ao divertimento. Quando ele chegou estava exatamente Teotônio em cena com as suas habilidades. Tendo esgotado já todas elas, ia recorrer à última, que era a das caretas. É preciso notar que ele não sabia só fazer caretas a capricho, sabia-as também fazer imitando, pouco mais ou menos, esta ou aquela cara conhecida: era isso o que fazia morrer de riso aos circunstantes.
Estavam todos sentados, e o Teotônio em pé no meio da sala olhava para um, e apresentava uma cara de velho; virava-se repentinamente para outro, e apresentava uma cara de tolo a rir-se asnaticamente; e assim por muito tempo mostrando de cada vez um tipo novo. Finalmente, tendo já esgotado toda a sua arte, correu a um canto, colocou-se numa posição que pudesse ser visto por todos ao mesmo tempo, e apresentou a sua última careta. Todos desataram a rir estrondosamente apontando para o major.
Acabava de imitar com muita semelhança a cara comprida e chupada do Vidigal.
O major mordeu os beiços percebendo a caçoada do Teotônio; e se já tinha boas tenções a seu respeito, ainda as formou melhor naquela ocasião.
As risadas continuaram por muito tempo; e ele, não podendo afrontá-las impassível, e não havendo, como já fizemos sentir, motivo justo para um rompimento, achou mais conveniente retirar-se, e pondo-se em posição conveniente, esperar que a súcia se debandasse, para então convidar o Teotônio a ir fazer algumas caretas aos granadeiros na Casa da Guarda.
Saiu pois completamente corrido.
Encontrando os seus granadeiros que tinham ficado a pouca distância, dirigiu-se ao Leonardo, e fez-lhe sentir que, querendo a todo o custo naquela noite segurar o Teotônio, temia que os de casa desconfiassem disso e lhe dessem escapula por qualquer meio; era-lhe pois mister uma pessoa que o fosse vigiar de perto sem que despertasse suspeitas: essa pessoa devia ser o Leonardo.
-Sou malvisto em casa de meu pai, replicou este à proposta do major.
-É hoje um bom dia de conciliação...
-Talvez não queiram receber-me...
-E sua madrinha que lá se acha?...
-Mas a filha que é uma víbora contra mim?...
-Víbora ou não, há de ir; que quando manda a disciplina... Não quero que aquele valdevinos ande tomando impunemente a minha cara para original de caretas.
Os granadeiros, que conheciam o Teotônio e lhe sabiam da habilidade, compreenderam logo o que tinha sucedido por aquele dito do major, e desataram por seu turno a rir. O Leonardo, por aquele apelo à disciplina, com a qual não se achava em muito bom pé de relações desde a noite do papai-lêlê, venceu todas as dificuldades e repugnância que manifestara no desempenho da missão de que o encarregara o major, e pôs-se a caminho para a casa de seu pai.
Chegou e bateu: assim que de dentro lhe perceberam as cores da farda e barretina houve um grito de medo, e por um movimento que parecia combinado (o major tinha razão!) foram repentinamente apagadas todas as velas da sala, e começou a reinar uma confusão tal que parecia haver-se travado uma luta entre todos.
O Leonardo viu nisso uma primeira contrariedade, porém não deixou de achar graça no susto que causara. Resolveu então falar da parte de fora para tranqüilizar os medrosos.
-Bom modo de ser recebido um filho em casa de seu pai! Para quarta-feira de trevas só lhe faltam as matracas...
A comadre, que ouvira e reconhecera a voz do afilhado, desatou a rir exclamando:
-Vejam que logro! É o Leonardo; tragam as velas, gente: não há novidade, que o cabo da guarda é nosso compadre.
-Aquele brejeiro, resmoneou o Leonardo-velho, sempre há de andar a fazer das suas: vejam que susto causou a toda essa gente... Ó amigo Teotônio, desça, que não há novidade...
À luz da primeira vela que traziam viu-se descer por uma porta o Teotônio do forro do quarto da sala onde se havia escondido.
Apenas pôs o pé em terra fez logo uma careta de medo, por tal forma expressiva, que houve em todos uma tremenda explosão de hilaridade. Começou a surdir gente de diversos cantos da casa, e em presença do Leonardo recomeçou a folia.
Algumas pessoas não deixaram de estranhar e recear a presença do Leonardo naquela ocasião e naqueles trajes logo depois da saída do major; porém a comadre a todos tranqüilizou, dizendo que, tendo ele obtido licença no quartel, por não estar de serviço naquele dia, viera assistir ao batizado de sua irmã.
-Ele é meio doido, repetia ela a todos, mas é muito amoroso, e nunca se esquece da família.
Leonardo confirmava esses protestos da comadre, e ia entretanto tomando parte na brincadeira, uma vez que contra as suas esperanças todos o haviam recebido bem em casa. À proporção que se ia esquentando no prazer do fado e das cantigas começou o Leonardo a sentir remorsos pelo papel de judas que ali estava representando: quando olhava para o Teotônio, que desde que entrara lhe havia feito dar tão boas risadas, pungia-lhe o coração lembrando-se que ele próprio o havia de entregar ao major. Não poucas vezes lhe passou pela cabeça dar-lhe escapula avisando-o, porém a disciplina, o papai-lêlê, vinham-lhe à idéia, e hesitava.
Enquanto era assaltado por estes pensamentos, olhava repetidas vezes para o Teotônio.
Este, que nada tinha de tolo, desconfiou da coisa; não sabemos por que instinto leu o que pensava o Leonardo, e pôs-se em guarda.
O Leonardo tomou repentinamente sua resolução.
-Ora, adeus disciplina, disse consigo; hei de dar escapula ao homem, seja lá como for.
E do lugar em que estava acrescentou alto:
-Ah! Sr. Teotônio, quer saber uma coisa? Pois se puser o pé daquela porta para fora, o major põe-lhe a unha, que para isso está ele à sua espera, e para aqui me mandou...
-Ó diabo! exclamaram todos.
-Mas nada de sustos; tudo se há de arranjar, que tenho eu boa vontade disto.
-Mas não te comprometas, rapaz, acrescentou a comadre ao ouvido do Leonardo; olha que o major não é de graças, e daí te pode vir mal.
-Ora, tenho pena dele só por aquelas caretas.
Juntaram-se então os dois, Leonardo e Teotônio, e juntos concertaram o seu plano de modo que este escapasse ao major, e que aquele não ficasse comprometido.
Estava já a noite muito adiantada, ordenaram os dois que saíssem ao mesmo tempo muitos convidados, e o Leonardo, partindo adiante deles, foi correndo ter com o major.
-Aí vem o bicho, Sr. major.
-Cerca, cerca! disse o major.
E cada um se dividiu para seu lado.
O major colou-se à porta de um corredor, e pôs-se de olho alerta.
Veio-se aproximando ao major um vulto assobiando tranqüilamente o estribilho de uma modinha. Quando se achou em pequena distância o major deu um salto donde estava e segurou-o.
Um ai franzino se fez ouvir, acompanhado de um:
-Me largue! Que é isto?
O major prestou atenção, não tendo reconhecido a voz do Teotônio, e viu que tinha segurado num pobre corcunda, aleijado, ainda em cima, da perna direita e do braço esquerdo.
-Ora, vá-se para o inferno, disse o major; suma-se daqui. Também não sei o que andam fazendo a estas horas pelas ruas estas figuras.
O aleijado safou-se apressadamente livre do susto, e lá foi continuando a assobiar o seu estribilho.
Fez-se depois disto o mais profundo silêncio, e o major não viu mais passar senão os convidados da patuscada, não vendo entre eles o Teotônio.
Então ardeu com o caso; e reunindo os granadeiros disse para Leonardo:
-Ele não saiu...
-Saiu, replicou este; até de jaqueta branca e chapéu de palha: eu o vi tomar ali para a porta onde estava o Sr. major.
-De jaqueta branca e chapéu de palha? perguntou o major.
-Sim, senhor, e de calça preta: não o peguei porque logo vi que não havia de escapar ao Sr. major.
-Ah! patife, patife, resmungou: destas nunca levei... Era o corcunda, o aleijado...
-Ele sabe fazer muito bem de corcunda e de aleijado, disse um dos granadeiros; já o vi uma vez fazer isso, que era mesmo tal e qual...
Era com efeito o Teotônio o aleijado que o major tinha segurado.
O Leonardo ria-se às furtadelas do logro que levara o major.
Não tardou porém muito tempo que lhe não amargasse aquele prazer, vindo o major a saber que tudo aquilo se fizera de combinação com ele.
Descoberta
É muito antigo dizer-se que há uma coisa ainda pior do que um inimigo, e é um mau amigo. Um dos convidados do Leonardo-Pataca dizia-se muito amigo do Teotônio, e pelo empenho que o Leonardo mostrara em livrá-lo das garras do major, protestara desde logo repartir com ele parte dessa amizade, sem que nenhum dos dois ficasse prejudicado. Poucos instantes depois desse protesto deu logo a primeira prova de que estava disposto a cumpri-lo.
Enquanto se passavam as cenas que acabamos de descrever tinha amanhecido: o major e sua gente punham-se em retirada: ainda se achavam porém nas imediações do lugar onde se havia feito a tentativa para prender o Teotônio, quando o tal amigo a que nos referimos, que fora um dos últimos a retirar-se, encontrando a patrulha, e vendo que o Teotônio não ia no meio dela, concluiu que os planos haviam surtido bem, e que o major ficara desta vez logrado. Teve por isso um acesso de alegria; e esquecendo a presença do major, correu ao Leonardo, abraçou-o, exclamando com arrebatado ímpeto:
-Bravo! Como esta não fazes duas em toda a tua vida; foi limpa; ele há de ficar-te obrigado para sempre, e eu com ele, porque sou seu amigo e teu também!
O Leonardo ficou estático diante de semelhante imprudência. O major, que ia cabisbaixo pensando no logro que acabara de levar, voltou-se repentinamente: a palavra ele, proferida pelo terrível amigo, abriu luz a seus olhos. O Leonardo foi tirado do torpor em que se achava pela voz do major a dizer-lhe compassadamente:
-Recolha-se preso ao quartel.
A esta sentença o Leonardo ergueu do fundo d'alma tudo quanto havia aí de despeito, de rancor, e lançou um olhar sobre o imprudente que a havia provocado, e que ainda muito senhor de si apertava-lhe desapiedadamente a mão, que parecia não estar disposto a largar tão cedo.
Deixemos agora o Leonardo, vítima de sua dedicação, caminhar preso para o quartel, e passemos a outras coisas. Há muito tempo que não falamos em D. Maria e na sua gente. Saibam os leitores que, passada a lua-de-mel, em que tudo foram rosas, o nosso José Manuel pusera, como se costuma dizer, as mangas de fora, e tais coisas fez, que em poucos meses estava tudo em guerra aberta: tinha-se ele com sua mulher Luizinha mudado de casa de D. Maria, e por causa de dote vai, dote vem, herança daqui, herança dali, havia-lhe D. Maria proposto uma ação por tal sorte complicada, que era de desconfiar que não bastassem para ver-lhe o fim os dias que restavam de vida à pobre velha.
Tinha-se José Manuel tornado para Luizinha um verdadeiro marido-dragão, desses que só aquele tempo os conta tão perfeitos, que eram um suplício constante para as mulheres. Depois que se havia mudado de casa de D. Maria, nunca mais Luizinha vira o ar da rua senão às furtadelas, pelas frestas da rótula: então chorava ela aquela liberdade de que gozava outrora; aqueles passeios e aquelas palestras à porta em noite de luar; aqueles domingos de missa na Sé, ao lado de sua tia com o seu rancho de crioulinhas atrás; as visitas que recebiam, e o Leonardo de quem tinha saudades, e tudo aquilo enfim a que não dava nesse tempo muito apreço, mas que agora lhe parecia tão belo e tão agradável. Tendo-se casado com José Manuel, para seguir a vontade de D. Maria, votava a seu marido uma enorme indiferença, que é talvez o pior de todos os ódios.
Pois a vida de Luizinha, depois de casada, representava com fidelidade a vida do maior número das moças que então se casavam: era por isso que as Vidinhas não eram raras, e que poucas famílias havia que não tivessem a lamentar um desgostozinho no gênero do que sofreu aquela pobre família, que, indo ao Oratório de Pedra, viera dizimada para casa, e cuja história serviu de tema às intrigas da comadre, quando quis pôr a José Manuel fora do lance.
Ora, é claro que tendo D. Maria ficado um pouco séria com a comadre por causa de toda aquela intriga que precedera ao casamento de José Manuel com sua sobrinha, agora, que estava com este de candeias às avessas, se reatasse o laço da amizade que por um pouco afrouxara: sucedia assim com efeito.
Um dia as duas encontraram-se na missa, tornaram-se a falar; as desgraças do Leonardo, que fizeram tema a essa conversação, enterneceram a D. Maria, que por seu turno também referiu à comadre tudo quanto sucedia agora à pobre Luizinha.
-Aí, senhora! dizia a comadre referindo-se a José Manuel, parece que me roncava cá o quer que seja quando via aquele maldito; arrenego do homem que é um valdevinos às direitas. Aquilo há de levar a pobre menina à sepultura. Coitada! bem-criada e malfadada.
-Nunca pensei, criatura, nunca pensei que sucedesse tal... Mas aquilo como era finório! que palavrinhas doces! Que santidade aquela! Agora, senhora, agora sou eu capaz de acreditar na história da moça furtada no Oratório de Pedra: ele tem bofes para tal... Mas hei de me ver vingada, oh! se hei de! tão certo como estar eu aqui: os desembargadores lá estão, que me hão de dar esse gosto: espero isso em Deus.
Desta conversa, e do mais que se seguiu, nasceu a conciliação das duas.
Quando certas amizades são uma vez interrompidas, tendo mesmo sofrido um leve estremecimento, é difícil que voltem depois ao estado primitivo; com outras amizades acontece porém o inverso; os estremecimentos aproveitam, porque é fácil a volta da paz, e parece que depois disto se tornam mais estreitas. A amizade que existia entre D. Maria e a comadre era deste último gênero. Portanto depois daquela conversa na missa, não só voltaram as relações entre as duas ao seu primitivo estado, como se tornaram mais que nunca sólidas. Daí em diante não houve um só segredo entre as duas que não fosse mutuamente comunicado, e elas fizeram pacto de se ajudarem reciprocamente para dar remédio, uma aos males da sobrinha, outra às diabruras do afilhado.
O Leonardo, como dissemos, achava-se preso; fizera disso ciente à madrinha, que se pôs logo em alvoroto, não só pelo fato em si, como pelo generoso motivo que o havia ocasionado. O primeiro passo pois que tiveram a dar as duas, D. Maria e a comadre, em virtude do seu pacto, foi tratar de alcançar a soltura do Leonardo, e livrá-lo do mais que (sabe Deus) lhe estaria preparado.
Vamos ver como se houveram em semelhante empenho.
Empenhos
O primeiro passo que deu a comadre foi dirigir-se à casa do major a interceder pelo Leonardo; o major porém mostrou-se inflexível: o caso era grave, já não era o primeiro; a disciplina não podia ser impunemente ofendida mais de uma vez; o castigo devia ser infalível e grande. A comadre, que fora cheia de boas esperanças, soube pelo major o que ignorava, o que nem mesmo supunha: o Leonardo não só ficaria por mais tempo preso, como teria de ser chibatado... A pobre mulher, apenas lhe declarou isto o major, caiu de joelhos, chorou, lamentou-se; tudo porém debalde. Saiu desesperada, e com a mantilha caída, toda em desalinho, correu, voou à casa da D. Maria. Ao vê-la entrar naquele estado, D. Maria ergueu-se de sua banquinha, e largou a almofada da renda.
-Que tendes, criatura? Que tendes? exclamou. Santo Cristo! O que é? Falai!...
-Ai, Sra. D. Maria do meu coração! que desgraça! respondeu a comadre: que má sina de rapaz... Ora, veja o que me sucede por ter feito uma boa ação!... E eu que sofro e que sinto como se fosse meu filho...
E os soluços a sufocaram.
-Fale, senhora, replicou D. Maria; fale, que me põe numa aflição...
-Vai apanhar, D. Maria... vai apanhar de chibata... ele... o Leonardo...
-Meu Deus, pobre rapaz: ora vejam tudo em que deu; é sina, coitado! aquele rapaz não nasceu em bom dia; não, comadre; isso sou eu capaz de jurar pela salvação da minha alma... Mas não falou com o major? Que lhe disse ele?
-Duro como uma pedra, senhora; a nada se moveu: pedi-lhe pelas Cinco Chagas, pela Senhora Santíssima... tudo embalde, tudo em vão.
-Está bom, não se aflija, comadre; ainda há um meio que eu penso que não há de falhar: vamos à casa dela, que por lá é caminho certo; ela dá-se muito comigo, há de pedir pelo moço.
-Já me tinha lembrado disso; mas na tribulação em que vinha tornou-me a esquecer; se com ela não se arranjar alguma coisa... está tudo perdido.
Os leitores estão já curiosos por saber quem é ela, e têm razão; vamos já satisfazê-los. O major era pecador antigo, e no seu tempo fora daqueles de quem se diz que não deram o seu quinhão ao vigário: restava-lhe ainda hoje alguma coisa que às vezes lhe recordava o passado: essa alguma coisa era a Maria-Regalada que morava na Prainha. Maria-Regalada fora no seu tempo uma mocetona de truz, como vulgarmente se diz: era de um gênio sobremaneira folgazão, vivia em contínua alegria, ria-se de tudo, e de cada vez que se ria fazia-o por muito tempo e com muito gosto: daí é que vinha o apelido -regalada- que haviam juntado ao seu nome.
Isto de apelidos, era no tempo desta história uma coisa muito comum; não estranhem pois os leitores que muitas das personagens que aqui figuram tenham esse apêndice ao seu nome.
Dizem todos, e os poetas juram e trejuram, que o verdadeiro amor é o primeiro; temos estudado a matéria, e acreditamos hoje que não há que fiar em poetas: chegamos por nossas investigações à conclusão de que o verdadeiro amor, ou são todos ou é um só, e neste caso não é o primeiro, é o último. O último é que é o verdadeiro, porque é o único que não muda. As leitoras que não concordarem com esta doutrina convençam-me do contrário, se são disso capazes.
Isto tudo vem para dizermos que Maria-Regalada tinha um verdadeiro amor ao major Vidigal; o major pagava-lho na mesma moeda. Ora, D. Maria era uma das camaradas mais do coração de Maria-Regalada. Eis aí por que falando dela D. Maria e a comadre se mostraram tão esperançadas a respeito da sorte do Leonardo.
Já naquele tempo (e dizem que é defeito do nosso) o empenho, o compadresco eram uma mola real de todo o movimento social.
-Vai mandar aprontar a cadeirinha, disse D. Maria a uma de suas escravas.
-Vamos, senhora, vamos que isto são os meus pecados velhos.
D. Maria aprontou-se, meteu-se na sua cadeirinha; a comadre tomou a mantilha, e partiram para a Prainha.
Maria-Regalada recebeu-as com uma boa risada.
-Que milagre de Santa Engrácia! Que fortuna! que alegrão! O que a traz por aqui? Isto é grande novidade!
-É novidade, sim, respondeu D. Maria, porém triste novidade.
Com as honras do estilo, que não eram muitas naquele tempo, foi a comadre apresentada, porque não era conhecida de Maria-Regalada. Primeiro D. Maria, depois a comadre, contaram, cada uma por sua parte, a história do Leonardo com todos os detalhes, e depois de inúmeros rodeios, que puseram a arder a paciência da ouvinte, e quase a fizeram morrer de curiosidade, chegaram finalmente ao ponto importante, ao motivo que ali as levara: queriam nada menos do que a soltura e perdão do Leonardo, e contavam para alcançar semelhante coisa com a influência da Maria-Regalada sobre o major.
-Ora, disse esta tomando um ar de modéstia, eu já não presto para nada... isso era bom noutro tempo... agora... o major... as coisas estão mudadas, D. Maria... depois que ele se meteu na polícia... nem mais nem ontem... quem sabe o que por lá vai!... Mas enfim, D. Maria, eu não sei dizer que não, tenho o coração assim, e sempre o tive... no meu tempo muita gente se aproveitou disto... Eu farei o que puder; vou falar-lhe... talvez que ele me queira atender...
-Há de atender, há de, respondeu a comadre; ele já não está tão velho que se tenha esquecido de todo do tempo de dantes.
-Veremos, veremos. A Sra. comadre sabe lá o que são homens?!...
-Diga-me a mim... se sei!... acudiu esta prontamente.
-Mas então, atalhou D. Maria, o negócio requer toda a pressa, porque de um instante para outro podem chegar a farda ao corpo do pobre rapaz, e depois nem Santo Antônio a tira.
-Não há de haver novidade; ainda havemos chegar a tempo, com a graça de Deus. Para maior segurança vamos todas três daqui à casa do major, e cada uma por nosso lado faremos tudo para livrar o moço.
Maria-Regalada vestiu-se à pressa, tomou a sua mantilha, e ao lado da cadeirinha em que ia D. Maria partiram para a casa do major.
As três em comissão
Partiram pois as três para a casa do major, que morava então na rua da Misericórdia, uma das mais antigas da cidade. O major recebeu-as de rodaque de chita e tamancos, não tendo a princípio suposto o quilate da visita; apenas porém reconheceu as três, correu apressado à camarinha vizinha, e envergou o mais depressa que pôde a farda; como o tempo urgia, e era uma incivilidade deixar sós as senhoras, não completou o uniforme, e voltou de novo à sala de farda, calças de enfiar, tamancos, e um lenço de Alcobaça sobre o ombro, segundo seu uso. A comadre, ao vê-lo assim, apesar da aflição em que se achava, mal pôde conter uma risada que lhe veio aos lábios. Os cumprimentos da recepção passaram sem novidade. Na atropelação em que entrara o major, a comadre enxergou logo um bom agouro para o resultado do seu negócio. Acrescia ainda em seu favor que o major guardava na sua velhice doces recordações da mocidade, e apenas se via cercado por mulheres, se não era um lugar público e em circunstâncias em que a disciplina pudesse ficar lesada, tornava-se um babão, como só se poderia encontrar segundo no velho Leonardo. Se estas lhe davam então no fraco, se lhe faziam um elogio, se lhe faziam uma carícia por mais estupidamente fingida que fosse, arrancavam dele tudo quanto queriam; ele próprio espontaneamente se oferecia para o que podiam desejar, e ainda em cima ficava muito obrigado. Contudo, posto que a comadre soubesse já desta circunstância com antecipação, ou o pressentisse pelas aparências, a gravidade do negócio de que se tratava era tal, que nem isso bastou para tranqüilizá-la. Dispôs-se para o ataque, ajudada por suas companheiras, que, apesar de mais estranhas à sorte do Leonardo, nem por isso se ligavam menos à sua causa. Houve um momento de perplexidade para decidir-se quem seria o orador da comissão. O major percebeu isto, e teve um lampejo de orgulho por ver assim três mulheres confundidas e atrapalhadas diante de sua alta pessoa; fez um movimento como para animá-las, arrastando sem querer os tamancos.
-Oh! De tamancos e farda não está má... Senhoras donas, coisas de velho; no meu tempo não fazia eu destas...
-D. Maria que o diga, acudiu logo a comadre referindo-se a Maria-Regalada, e querendo fazer brecha fosse por onde fosse: mas não importa; o negócio é outro...
-É verdade, Sr. major, o bom tempo já lá foi.
-E Deus perdoe a quem dele tem saudades, retorquiu o major rindo-se com um riso rugoso de velha sensualidade...
-Sim, sim, tornou a Maria-Regalada; mas deixe essas coisas todas para logo...
-Ai criatura, acudiu D. Maria, que até então estivera calada, cansada talvez do número prodigioso de mesuras que fizera ao entrar; deixai cada um lembrar-se do seu tempo, isto consola; eu cá gosto bem quando acho...
-É como eu, respondeu o major; em se me tocando cá nas feridas antigas...
-Pois é mesmo por me lembrar destas feridas antigas, atalhou a Maria-Regalada, que venho aqui com estas senhoras donas, que o Sr. major bem conhece; e se não foram elas cá não viera, pois o negócio é sério...
A comadre achou a ocasião bem apanhada, e fez com a cabeça um sinal de aprovação.
-Vamos lá ver o que é o tal negócio sério, respondeu o major atinando, pela presença da comadre, pouco mais ou menos com o que era, e pelo que fez um sinal duvidoso com a cabeça, ou para fazer-se de bom, ou porque realmente não quisesse abrir largas esperanças.
A interlocutora prosseguiu:
-O seu granadeiro Leonardo é um bom rapaz.
O major arqueou franzindo as sobrancelhas, e repuxou os beiços, como quem não concordava in totum com aquilo...
-Não me comece já com coisas, Sr. major. Pois é, sim, senhor, muito bom rapaz, e não há razão para ser castigado, por causa de uma coisa nenhuma que fez... Isso não é razão, não, senhor, para se mandar tocar de chibata um moço que não é nenhum valdevinos; pois o Sr. major bem sabe que o padrinho quando morreu deixou-lhe alguma coisa, que bem lhe podia estar já nas mãos, e ele por isso livre da maldita farda, a quem sempre tive zanga (menos de uma que bem se sabe), se o pai que tem... mas deixemos o pai que não vem nada ao caso...
-Já sei de tudo, já sei de tudo, atalhou o major.
-Ainda não Sr. major, observou a comadre, ainda não sabe do melhor, e é que o que ele praticou naquela ocasião quase que não estava nas suas mãos. Bem sabe que um filho na casa de seu pai...
-Mas um filho quando é soldado, retorquiu o major com toda a gravidade disciplinar...
-Nem por isso deixa de ser filho, tornou D. Maria.
-Bem sei, mas a lei?
-Ora, a lei... o que é a lei, se o Sr. major quiser?
O major sorriu-se com cândida modéstia. A discussão foi-se assim animando; porém o major nada de ceder, até pelo contrário parecia mais inflexível do que nunca; chegou mesmo a pôr-se em pé e a falar muito exaltadamente contra o atentado do Leonardo, e a necessidade de um severo castigo. Era engraçado vê-lo no bonito uniforme que indicamos, de pé, fazendo um sermão sobre a disciplina, diante daquelas três ouvintes tão incrédulas que resistiam aos mais fortes argumentos.
Ainda porém não tinham as três esgotado contra ele o seu último recurso; puseram-no pois em ação.
Quando mais influído estava o major, as três, a um só tempo, e como de combinação, desataram a chorar... O major parou... encarou-as um instante: seu semblante foi-se visivelmente enternecendo, enrugando, e por fim desatou também a chorar de enternecido. Apenas as três se aperceberam deste triunfo carregaram sobre o inimigo. Foi então uma algazarra, uma choradeira sem nome, capaz de mover as pedras.
O major de enternecido foi passando a atordoado, e como que ficou envergonhado das lágrimas que lhe corriam pelas faces: enxugou-as, e procurou reassumir toda a sua antiga gravidade.
-Nada, disse desembaraçando-se das três, e passeando a passos largos pela sala; nada: que haviam dizer de mim se me vissem aqui nestas choramingas de criança? Eu, o major, o Vidigal, a chorar no meio de três mulheres!... Senhoras donas, o caso é grave, e não lhe vejo remédio; o exemplo, a disciplina, as leis militares... nada, não pode ser...
E deu as costas às três, continuando a passear e a fazer ressoar com força os tamancos no assoalho.
Maria-Regalada disse baixo às duas, em cujos semblantes já nem transluzia o mais pequeno vislumbre de esperança:
-Ainda não está tudo perdido...
E dirigindo-se ao major acrescentou:
-Bem, Sr. major; águas passadas não movem moinho...
-Qual passadas, senhora dona! mas bem vê que o caso é grave...
-Seja lá o que for, sinto ter perdido meus passos, e não servir a quem desejava; verdade seja que eu já contava com isso, e também não prometi... Mas em último lugar quero sempre dizer-lhe uma coisa, mas há de ser em particular...
-Vamos lá, estou pronto.
Quem tivesse alguma perspicácia conheceria, não com grande facilidade, que o major estava há muito tempo disposto a ceder, porém que queria fazer-se rogado.
Maria-Regalada levou então o major para um canto da sala, e disse-lhe ao ouvido algumas palavras. O major, desanuviou o rosto, remexeu-se todo, coçou a cabeça, balançou com as pernas, mordeu os beiços.
-Ora esta! disse em voz baixa à sua interlocutora; pois era preciso falar nisto? Enfim...
-Ora, graças que se lhe acabaram os sestros, respondeu Maria-Regalada em voz alta.
-Sim?!... exclamaram as duas sorrindo de esperança.
-Eu bem dizia que o Sr. major tinha bom coração...
-Eu nunca duvidei, apesar de tudo... mas agora, o passado, passado; o caso era grave, como ele dizia, e foi um favor!...
-Então, D. Maria? Quem foi rei sempre teve majestade...
-Majestade... qual! Isso já não é para mim...
O major atalhou esta explosão de gratidão que levava visos de ir longe.
-Hão de ficar ainda mais contentes comigo... não lhes digo por quê, mas verão...
-Esta agora é que é grande; veremos o que será...
-Já sei: é...
-Há de ser por força...
-Estou quase adivinhando.
-Sabem que mais? atalhou o major; são horas de uma diligência a que não posso faltar... O rapaz está livre de tudo; contanto que, acrescentou dirigindo-se a Maria-Regalada, o dito, dito...
-Eu nunca faltei à minha palavra, replicou esta.
Retiraram-se as três cheias do maior contentamento, e o major saiu depois também para cumprir a sua promessa.
A morte é juiz
D. Maria dirigiu-se imediatamente para casa na sua cadeirinha. Ao chegar notou grande rumor e alvoroço, e tratou logo de indagar a causa. Um escravo de sua sobrinha a esperava com uma carta. Apenas a leu, D. Maria, não diremos que se entristeceu, porém mostrou-se muito atrapalhada.
-Não entrem com a cadeirinha; esperem lá, que torno a sair.
E com efeito meteu-se de novo nela, e mandou que seguissem para casa de sua sobrinha.
O caso era o seguinte: José Manuel entrara para casa em braços, tendo sido acometido na rua de um violento ataque apoplético ao voltar do cartório, onde tivera uma grave contestação com o procurador de D. Maria, por causa da demanda que entretinham. Luizinha, a coitada, vendo-se naqueles apuros, sem saber o que fizesse, despachara logo portador para casa de sua tia.
D. Maria apenas entrou mandou chamar o licenciado, que depois de examinar o doente declarou que era caso perdido. Fizeram-se entretanto algumas aplicações, que não tiveram resultado algum.
-Estás viúva, menina, disse D. Maria alguma coisa compungida com a declaração do médico.
Luizinha pôs-se a chorar, mas como choraria por qualquer vivente, porque tinha coração terno.
Estavam presentes algumas pessoas da vizinhança, e uma delas disse baixinho à outra, vendo o pranto de Luizinha:
-Não são lágrimas de viúva...
E não eram, nós já o dissemos: o mundo faz disso as mais das vezes um crime. E os antecedentes? Porventura ante seu coração fora José Manuel marido de Luizinha? Nunca o fora senão ante as conveniências, e para as conveniências aquelas lágrimas bastavam. Nem o médico nem D. Maria se haviam enganado: à noitinha José Manuel expirou.
No dia seguinte fizeram-se os preparativos para o enterro. A comadre, informada de tudo, compareceu pesarosa a prestar seus bons ofícios, suas consolações.
O enterro saiu acompanhado pela gente da amizade: os escravos da casa fizeram uma algazarra tremenda. A vizinhança pôs-se toda à janela, e tudo foi analisado, desde as argolas e galões do caixão até o número e qualidades dos convidados; e sobre cada um desses pontos apareceram três ou quatro opiniões diversas.
Naqueles tempos ainda se não usavam os discursos fúnebres, nem os necrológios, que hoje andam tanto em voga; escapamos pois de mais essa. José Manuel dorme em paz no seu derradeiro jazigo.
Como havia prometido a comadre, alguém chegou quase ao anoitecer. Era o Leonardo. Quando ele entrou na sala D. Maria não pôde conter um grito de surpresa.
Vinha em completo uniforme de sargento da companhia de granadeiros!
-Como! olhem o major. E então?!
-É verdade, senhora dona, respondeu o Leonardo; a ele tudo devo.
Foi aquilo objeto de geral espanto. Ficariam todos muito contentes com a simples soltura do Leonardo; e não só ele aparecia solto e livre, como até elevado ao posto de sargento, o que já não é no exército pouca coisa.
O Leonardo começou a procurar com os olhos alguma coisa ou alguém que tinha curiosidade de ver; deu com o que procurava: era Luizinha. Há muito que os dois se não viam; não puderam pois ocultar o embaraço de que se acharam tomados. E foi tanto maior essa emoção, que ambos ficaram surpreendidos um do outro. Luizinha achou Leonardo um guapo rapagão de bigodes e suíça; elegante até onde pode sê-lo, um soldado de granadeiros, com o seu uniforme de sargento bem assente. Leonardo achou Luizinha uma moça espigada, airosa mesmo, olhos e cabelos pretos, tendo perdido todo aquele acanhamento físico de outrora. Além disso seus olhos, avermelhados pelas lágrimas, seu rosto empalidecido, se não verdadeiramente pelos desgostos daquele dia, seguramente pelos antecedentes, tinham nessa ocasião um toque de beleza melancólica, que em regra geral não devia prender muito a atenção de um sargento de granadeiros, mas que enterneceu ao sargento Leonardo, que, apesar de tudo, não era um sargento como qualquer. E tanto assim, que durante a cena muda que se passou, quando os dois deram com os olhos um no outro, passaram rapidamente pelo pensamento do Leonardo os lances de sua vida de outrora, e, remontando de fato em fato, chegou àquela ridícula mas ingênua cena da sua declaração de amor a Luizinha. Pareceu-lhe que tinha então escolhido mal a ocasião, e que agora isso teria um lugar muito mais acertado.
A comadre, que dava uma perspicaz atenção a tudo o que se passava, como que leu na alma do afilhado aqueles pensamentos todos; fez um gesto quase imperceptível de alegria: raiava-lhe na mente alguma idéia luminosa. Começou então a retraçar um antigo plano em cuja execução por muito tempo trabalhava, e cujas probabilidades de êxito lhe haviam reaparecido no que se acabava de passar.
Passada a primeira emoção, Luizinha ergueu-se e fez ao Leonardo um acanhado cumprimento: este correspondeu-lhe com alguma coisa entre cumprimento paisano e continência militar.
A comadre rompeu depois disto a conversa, procurando entreter D. Maria, e deixar os dois entregues a si.
-Diga-me, disse ela dirigindo-se a D. Maria, e aquela sua demanda com o defunto?
-A morte foi desta vez juiz. Ele não tem herdeiros; era só no mundo... Eu não levei a minha avante, é verdade, porque enfim não posso dizer que venci; mas também não perdi. Agora sim, tenho muito gosto de entregar tudo à menina, mas não queria que me levassem as coisas se, não por minha muito livre vontade.
-Está bem; o passado já lá vai: Deus é assim, escreve direito por linhas tortas.
E por aí adiante empenharam-se na sua conversa. Os dois, depois de algum tempo de silêncio, como já se tinham retirado todas as visitas, foram pouco e pouco, de palavra em palavra, travando diálogo, e conversavam no fim de algum tempo tão empenhadamente como a comadre e D. Maria, com a diferença que a conversa daquelas duas era alta, desembaraçada; a deles baixa e reservada.
Não há nada que interrompida mais depressa se reate do que seja a familiaridade em que o coração é interessado. Não se estranhe pois que Luizinha e Leonardo a ela se entregassem.
E querem ver uma singularidade que às vezes se repete? Depois que se fizera moça, e que tomara estado, nunca Luizinha tinha tido momentos de tão verdadeiro prazer como os que ali estava gozando naquela conversa, num dia de luto, quando acabava de sair o caixão que levara à sepultura aquele que devia ter feito a sua felicidade. O Leonardo também por sua vez, nunca, no meio de todas as vicissitudes de sua vida extravagante, tinha tido instantes que tão rápidos lhe corressem do que aqueles em que via o objeto de seus primeiros amores sob o peso do infortúnio em um dia de pranto.
Pois parece que estas mesmas circunstâncias reavivaram o passado: a comadre folgava lá no seu lugar com tudo aquilo, e, parecendo prestar toda a atenção a D. Maria, não perdia uma só circunstância.
Finalmente chegou a hora da retirada, não da comadre, que se ofereceu para fazer companhia à viúva, porém de Leonardo, a quem esperava o major, porque era dia de serviço, e apenas tinha ele obtido licença para cumprir o duplo dever de dar os pêsames a D. Maria, e agradecer o interesse que por ele havia tomado, fazendo por intermédio de Maria-Regalada que o major não só lhe alcançasse perdão do castigo que lhe era destinado, como também o acesso de posto que repentinamente tivera.
Luizinha involuntariamente estendeu à despedida a mão ao Leonardo, que lha apertou com força.
Ora, isto naquele tempo era bastante para dar que falar ao mundo inteiro!
Capítulo XXV
Conclusão feliz
A comadre passou com a viúva e sua tia quase todo o tempo do nojo, e acompanhou-as à missa do sétimo dia. O Leonardo compareceu também nessa ocasião, e levou a família à casa depois de acabado o sacrifício.
Aquele aperto de mão que no dia do enterro de seu marido Luizinha dera ao Leonardo não caíra no chão a D. Maria, assim como também lhe não escaparam muitos outros fatos consecutivos a esse.
O caso é que não lhe parecia extravagante certa idéia que lhe andava na mente.
Muitas vezes, ao cair de ave-maria, quando a boa da velha se sentava a rezar na sua banquinha em um canto da sala, entre um padre-nosso e uma ave-maria do seu bendito rosário, vinha-lhe à idéia casar de novo a fresca viuvinha, que corria o risco de ficar de um momento para outro desamparada num mundo em que maridos, como José Manuel, não são difíceis de aparecer, especialmente a uma viuvinha apatacada.
Ao mesmo tempo que lhe vinha esta idéia lembrava-se do Leonardo, que amara a sua sobrinha no tempo da criançada, e que era, apesar de extravagante, um bom moço, não de todo desarranjado, graças à benevolência do padrinho barbeiro.
Verdade é que se não sabiam bem as contas que seu pai havia feito a esse respeito; mas como era coisa que constava de verba testamentária, D. Maria nada via de mais fácil do que propor uma demanda, cujo resultado não seria duvidoso.
Havia porém no meio de tudo uma circunstância que lhe desconsertava os planos. O Leonardo era soldado. Ora, soldado, naquele tempo, era coisa de meter medo.
Quando D. Maria chegava a este ponto de suas meditações, abandonava-as, e continuava o seu rosário.
A comadre fazia quase exatamente os mesmos cálculos por sua parte, e também só esta única dificuldade se antolhava à realização de seus planos.
Enquanto estas duas pensavam, os outros dois obravam.
Luizinha e Leonardo haviam reatado o antigo namoro; e quem quiser ver coisa de andar depressa é ver namoro de viúva.
Na primeira ocasião Leonardo quis recorrer a uma nova declaração; Luizinha porém fez o processo sumário, aceitando a declaração de há tantos anos.
Sem que os vissem, viam-se os dois muitas vezes, e dispunham seus negócios.
Infelizmente ocorria-lhes a mesma dificuldade: um sargento de linha não podia casar. Havia talvez um meio muito simples de tudo remediar. Antes de tudo, porém, os dois amavam-se sinceramente; e a idéia de uma união ilegítima lhes repugnava.
O amor os inspirava bem.
Esse meio de que falamos, essa caricatura da família, então muito em moda, é seguramente uma das causas que produziu o triste estado moral da nossa sociedade.
Só essa dificuldade demorava os dois. Entretanto o Leonardo achou um dia o salvatério, e veio comunicar a Luizinha o meio que tudo remediava: podia ficar ele sendo soldado e casar, dando baixa na tropa de linha, e passando-se no mesmo posto para as Milícias.
A dificuldade, porém, estava ainda em arranjar-se essa baixa e essa passagem: Luizinha encarregou-se de vencer esse embaraço.
Um dia em que estava sua tia a rezar no seu rosário, justamente num daqueles intervalos de padre-nosso a ave-maria de que acima falamos, Luizinha chegou a ela, e comunicou-lhe com confiança tudo que havia, fazendo preceder sua narração da seguinte declaração, que cortava a questão pela raiz:
-Para lhe obedecer e fazer-lhe o gosto casei-me uma vez, e não fui feliz; quero ver agora se acerto melhor, fazendo por mim mesma nova escolha.
Em breve, porém, conheceu que fora inútil sua precaução, porque D. Maria confessou que de há muito ruminava aquele mesmo plano.
Combinaram-se pois as duas.
A bondade do major inspirava-lhes muita confiança, e lembraram-se por isso de recorrer a ele de novo.
Foram ter com Maria-Regalada, que mesmo na véspera lhes tinha mandado dar parte que se mudara da Prainha, e oferecia-lhes sua nova morada.
A comadre, de tudo inteirada, fez parte da comissão.
Quando entraram em casa de Maria-Regalada, a primeira pessoa que lhes apareceu foi o major Vidigal, e, o que é mais, o major Vidigal, em hábitos menores, de rodaque e tamancos.
-Ah! disse a comadre em tom malicioso, apenas apareceu a Maria-Regalada, pelo que vejo isto por aqui vai bem...
-Não se lembra, respondeu Maria-Regalada, daquele segredo com que obtive o perdão do moço? Pois era isto!...
A Maria-Regalada tinha por muito tempo resistido aos desejos ardentes que nutria o major de que ela viesse definitivamente morar em sua companhia. Não atribuímos esta resistência senão a capricho, para não fazermos mau juízo de ninguém; o caso é que o major punha naquilo o maior empenho; teria lá suas razões.
O segredo que a Maria-Regalada dissera ao ouvido do major no dia em que fora, acompanhada por D. Maria e a comadre, pedir pelo Leonardo, foi a promessa de que, se fosse servida, cumpriria o gosto do major.
Está pois explicada a benevolência deste para com o Leonardo, que fora ao ponto de não só disfarçar e obter perdão de todas as suas faltas, como de alcançar-lhe aquele rápido acesso de posto.
Fica também explicada a presença do major em casa da Maria-Regalada.
Depois disto entraram todos em conferência. O major desta vez achou o pedido muito justo, em conseqüência do fim que se tinha em vista. Com a sua influência tudo alcançou; e em uma semana entregou ao Leonardo dois papéis: - um era a sua baixa de tropa de linha; outro, sua nomeação de Sargento de Milícias.
Além disto recebeu o Leonardo ao mesmo tempo carta de seu pai, na qual o chamava para fazer-lhe entrega do que lhe deixara seu padrinho, que se achava religiosamente intacto.
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Passado o tempo indispensável do luto, o Leonardo, em uniforme de Sargento de Milícias, recebeu-se na Sé com Luizinha, assistindo à cerimônia a família em peso.
Daqui em diante aparece o reverso da medalha. Seguiu-se a morte de D. Maria, a do Leonardo-Pataca, e uma enfiada de acontecimentos tristes que pouparemos aos leitores, fazendo aqui ponto final.